Teatro Maria Bethânia e bar Blefe: points que marcaram os anos 80 no Rio Vermelho

entretenimento
18.07.2020, 06:00:00
Atualizado: 18.07.2020, 13:29:19
(Foto: Acervo Pessoal)

Teatro Maria Bethânia e bar Blefe: points que marcaram os anos 80 no Rio Vermelho

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Quem passa hoje pelo Rio Vermelho, ali próximo ao Largo da Mariquita e se depara com uma clínica, talvez não saiba que aquele local já foi uma churrascaria e um bingo. Também funcionou um belo teatro chamado Maria Bethânia e um badalado e descolado bar chamado Blefe. Isso nos anos 80 na chamada Bahia pré-axé music. Os dois eram pura ferveção e ajudaram a consolidar a fama do “Red River” de bairro boêmio.

O Teatro Maria Bethânia. que depois também se transformou num cinema com sessões especiais de filmes de arte, foi inaugurado no início dos anos 80 com um show da própria Bethânia, na época do lançamento do disco homônimo Mel. Uma iniciativa da empresária e amiga da artista Gilda Carvalho, que o construiu com suas próprias economias.

O Cine Teatro Maria Bethânia abrigou espetáculos teatrais adulto e infantil, humor e shows notáveis como lembra o produtor e escritor Sergio Siqueira que nos início dos anos 90 passou a cuidar da pauta musical do teatro. Lá ele realizou o espetáculo “Armandinho em Concerto”, de 1981, do guitarrista e bandolinista Armandinho entre outras pérolas como ele relembrou: “Fiz um projeto onde levei artistas como Caetano Veloso, Gilberto Gil, Wagner Tiso, Nana Caymmi, Margareth Menezes, Daniela Mercury e Baden Powel só para citar alguns. Eram anos efervescentes quando se curtia uma música de qualidade. Mas o teatro também realizou alguns seminários e por lá passaram figuras ilustres como o então sociólogo Fernando Henrique Cardoso, muito antes de se tornar Presidente da República”, lembra Sergio.

Fachada do antigo Teatro Maria Bethânia (Foto Arquivo)

O teatro durou até a década de 1990 quando Gilda Carvalho resolveu alugar o imóvel para uns investidores que o transformaram num bingo. Depois do bingo veio a churrascaria Fogo de Chão que durou até pouco tempo quando também fechou as portas e agora no local funciona uma clínica. Muito reservada a última notícia que tive de Gilda foi que ela está morando num sítio na Estrada do Coco e criando ovelhas.

Eu era um frequentador assíduo do teatro e me lembro que fui para a entrevista coletiva com a presença de Maria Bethânia falando sobre o show que faria a inauguração e da felicidade em ser homenageada com um belo espaço. Ela estava bem descontraída, recebeu a todos com um largo sorriso e eu ainda ganhei um momento de intimidade com direito à Diva colocar o braço no meu ombro. Chique, não é mesmo?

Além do Maria Betânia funcionava ao lado como uma extensão do teatro ( a área pertencia mesmo ao empreendimento) o Bar e Restaurante Blefe. Comandado pela poeta e escritora Aninha Franco (atual colunista do CORREIO) e a atriz Rita Assemany. O Blefe já existia ali próximo onde tem a Casa Ninja. Até que Gilda fez o convite e Aninha e Rita se mudaram de mala e cuia. Ai como diz o dito popular: juntou-se a fome com a vontade de comer.

Depois de qualquer espetáculo no teatro a maioria ficava no Blefe. Era uma festa. Para garantir espaço tinha gente que chegava cedo e pegava logo uma mesa, porque sabia que, a partir das 22h quando a malucada chegava já tinha seu lugar reservado. E aí começava a noitada sem hora para acabar como relembrou Aninha Franco.

“Era uma loucura. Tinha vezes de a gente estar fechando o bar por volta das cinco horas da manhã quando chegava Caetano Veloso. Os garçons iam logo dizendo: Dona Aninha vamos embora pois temos que descansar. Ai ficávamos eu e Rita até umas sete horas. Nesse momento chegava o caminhão de cerveja para fazer o abastecimento”, relembra.  

Apesar de todo o sacrifício, Aninha diz não se arrepender “mas hoje não faria mais isso” comentou sorrindo. E explicou: “Foi uma das experiências mais fantásticas de minha vida. Porém, ter um bar de sucesso é devastador. Eu, escritora Rita, atriz. Nós tivemos que parar com tudo. No final a gente estava exausta, mas tinha que estar no outro dia firmes e fortes para receber bem nossos amigos”. Desse tempo Aninha guarda até hoje o programa original do show inaugural do teatro com uma dedicatória de Maria Bethânia. É ou não é um luxo?

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