Tem axé nesse samba: Escolas vão desfilar com enredos sobre a Bahia

entretenimento
19.02.2020, 10:00:00
Atualizado: 19.02.2020, 10:28:00
Maria de Xindó beija a bandeira da Viradouro, no último ensaio da escola (Renata Xavier/Divulgação)

Tem axé nesse samba: Escolas vão desfilar com enredos sobre a Bahia

Ganhadeiras de Itapuã e pai de santo Joãozinho da Gomeia são temas da Viradouro e Grande Rio

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Em 1992, a escola de samba Unidos do Viradouro era a favorita  para conquistar o título de campeã do Carnaval carioca, ao entrar na Marquês de Sapucaí com um enredo sobre a história do povo cigano.  No entanto, no final do desfile, um carro alegórico pegou fogo, algo que marcou a festa e também a memória da ganhadeira Maria de Xindó, 73 anos: “Eu não sei se foi pena, uma espécie de trauma ou até a libertação de uma paixão escondida. Só sei que, daquele dia em diante, passei a torcer pela Viradouro”, conta.   

Naquela época, o grupo musical As Ganhadeiras de Itapuã ainda não existia e Dona Maria sequer podia imaginar que, 28 anos depois, ela entraria naquela mesma avenida com o status de artista. “Ainda me belisco para acreditar”, diz Xindó, uma das matriarcas do grupo baiano composto por 13 senhoras, que vai ter sua história contada este ano pela Viradouro.

A Ganhadeira Maria de Xindó é torcedora e homenageada da Viradouro (Foto:Renata Xavier/Divulgação)

Não é apenas As Ganhadeiras de Itapuã que viraram enredo de escola de samba. Uma figura bem baiana, o pai de santo Joãozinho da Gomeia (1914-1971), é o tema abordado pela Grande Rio, que junto com a Viradouro desfilam no grupo especial do carnaval carioca e são favoritas para a conquista do título.

“As duas escolas estão bem estruturadas e esses enredos tradicionais, não patrocinados, foram bens desenvolvidos. Além disso, os sambas são muito bons. O da Grande Rio é considerado o melhor  do ano pela maioria dos críticos. A Bahia sempre é bem representada no Carnaval carioca e esse ano não vai ser diferente”, afirmam os jornalistas Flávia Oliveira e Aydano André, comentaristas sobre o tema. 

Grande Rio 

“Eu respeito seu amém, você respeita meu axé”. Esse é o grito de guerra incorporado no refrão do samba-enredo da Grande Rio. A canção já se tornou um símbolo da luta contra a intolerância religiosa e transformou a escola numa das favoritas para o título do Carnaval carioca. 

“Vamos fechar o desfile falando sobre resistência. E a  cultura popular é a base para resistir aos ataques que a religião sofre”, afirma o carnavalesco Gabriel Haddad, que assina o enredo Tata Londirá junto com Leonardo Bora. Essa é a primeira vez deles no Grupo Especial.

A escolha do pai de santo baiano Joãozinho da Gomeia  (1914-1971) como tema é a forma da escola se reconectar com sua comunidade. “Esse é um desejo antigo nosso. Quando Joãozinho saiu de Salvador, se instalou na cidade de Duque de Caxias, onde fica a sede da Grande Rio. Ele se tornou conhecido no meio do samba e seu terreiro bem popular”, explica Haddad. 

Babalorixá Joãozinho da Gomeia

Nascido na cidade de Inhambupe, interior baiano, ainda criança Joãozinho da Gomeia se mudou para Salvador. Foi iniciado pelo pai de santo Jubiabá aos 16 anos. Estabeleceu seu terreiro em São Caetano, na rua da Gomeia. Daí o nome Joãozinho da Gomeia, embora o termo que melhor o definisse fosse Tata Londirá, seu nome religioso. Seu ritual misturava tradições das nações Angola, Ketu e dos candomblés de Caboclo.

“Esse mix não era muito bem visto em Salvador. O jeito dele não era muito aceito. Por isso ele vem para Duque de Caxias e traz todo o terreiro. Aqui ele foi bem acolhido. Até desfilava em escolas de samba”, explica Haddad. “No desfile, vamos abordar todas essas fases da vida dele”, promete.

Viradouro

As Ganhadeiras de Itapuã conquistaram primeiro o coração dos carnavalescos Tarcísio Zanon e Marcus Ferreira. Depois, de toda a comunidade de Niterói.  

“A gente conheceu essas artistas pela atriz Zezé Mota, que participou de um show delas. Ela nos presenteou com o CD em 2014 e nós nos apaixonamos pela obra musical e história delas. O enredo ficou em mente para o momento oportuno” explica Tarcísio.  

Mesmo casados, essa é a primeira vez que eles trabalham juntos numa mesma escola e no grupo especial carioca. “Antes, éramos rivais no acesso. Agora, além do casamento pessoal, fizemos um casamento profissional e estamos empolgados”, diz.

Maria de Xindó ao lado dos carnavalescos da Viradouro (Foto: Tarcísio Zanon e Marcos Ferreira)

As Ganhadeiras de Itapuã são formadas por descendentes das escravas de ganho, aqueles que  faziam serviços remunerados a terceiros, mas entregavam o dinheiro para seus proprietários, ficando apenas com uma pequena parte. Com a libertação, esses serviços passaram a ser a principal fonte de sustento de muitas famílias. Em Salvador, as ganhadeiras, como ficaram conhecidas, lavavam roupas e vendiam quitutes  para criar os filhos.  

“Tudo isso de uma maneira musicada. As canções sempre foram um auxílio aos trabalhos realizados. A gente vai trazer essa história para o enredo, passando as músicas que cantavam na beira da lagoa, a venda nas ruas de Itapuã e Salvador, a fé dessas mulheres e a participação nas festividades culturais de Itapuã”, detalha.

Confira os sambas da Grande Rio e Viradouro:

Outras escolas

A Bahia também foi escolhida como tema pelas escolas Unidos do Porto da Pedra e Acadêmicos do Cubango, que disputam a divisão de acesso do Carnaval carioca. A Porto da Pedra vai desfilar com o enredo O Que é que a Baiana tem? Do Bonfim à Sapucaí, uma homenagem às baianas. Já a Cubango vai sair com o enredo A voz da liberdade, que vai contar a história de Luiz Gama e sua mãe Luisa Mahin, que articulava o levante de escravos no estado. Já no grupo de acesso do carnaval paulista, o música Carlinhos Brown será o tema da Camisa Verde e Branco. 

Leia mais: Brown abre Carnaval de Salvador e ganha homenagem de escola de samba

Falar sobre a Bahia ou temas relacionados ao estado é algo já comum nas escolas de samba. Em 2016, a Mangueira foi campeã do carioca com o enredo Maria Bethânia: A Menina dos Olhos de Oyá, que homenageou a cantora baiana. Já em São Paulo, em 2012, ano que se comemorava o centenário de nascimento de Jorge Amado, a Mocidade Alegre foi a campeã com um desfile sobre o escritor baiano.

Assista aos desfiles

Unidos do Porto da Pedra: Na madrugada da sexta-feira (21) para sábado (22), às 0h15. Transmissão do G1.   

Acadêmicos do Cubango: Na madrugada da sexta-feira (21) para sábado (22), às 1h. Transmissão do G1.

Viradouro: No domingo (23), às 22h30. Transmissão da TV Globo/Rede Bahia. 

Grande Rio: Na madrugada da sexta-feira (21) para sábado (22), às 1h30. Transmissão da TV Globo/Rede Bahia

Camisa Verde e Branco: Não haverá transmissão televisionada.

*Com orientação da editora Ana Cristina Pereira

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