'Tenho medo de mandar meu filho à padaria', diz moradora do Barro Duro após mortes

salvador
13.06.2018, 14:18:00
Atualizado: 13.06.2018, 14:29:40

'Tenho medo de mandar meu filho à padaria', diz moradora do Barro Duro após mortes

Populares fizeram manifestação nesta quarta após três jovens serem executados
Caroline participou de protesto após morte de moradores no Barro Duro (Foto: Milena Teixeira/CORREIO)

Caroline** não dorme há três dias. Também não vai trabalhar. Trocou a função de operadora de caixa pela de vigia. Ela ouviu quando o genro e mais dois vizinhos morreram nos últimos três dias. E, agora, passa o dia em casa atenta. Hoje, qualquer barulho soa como um tiro.

"Como é que dorme aqui? Meu neto, de cinco anos, praticamente viu o pai morrer. Ele está em pânico e fica gritando de noite. Inho [genro] tinha passagem, mas estava ajeitando a vida, trabalhando na Ceasa [de Simões Filho] todo dia pra dar comida ao filho", diz ela.

A morte de Inho, identificado como Uenderson Gabriel de Oliveira, faz parte de uma onda de violência que atinge Salvador e Região Metropolitana desde sábado (9), quando o policial militar Gustavo Gonzaga da Silva, 44, foi morto no bairro de Santa Cruz, no Complexo do Nordeste de Amaralina.

 Moradores fizeram protesto, quando queimaram materiais e fecharam via (Foto: Milena Teixeira/CORREIO)

Na manhã desta quarta-feira (13), Caroline e vizinhos no Barra Duro, local onde ocorreram os crimes, fizeram uma manifestação contra a violência na região, que teria a participação de policiais. O ato começou às 8h, na BR-536, próximo ao bairro de São Cristóvão. No ato, que é o segundo da semana, moradores atearam fogo em pneus e madeira.

"Enquanto a 'chocolate' e a Peto descer a comunidade pra matar gente, nós vamos protestar. Eu estou pedindo socorro, porque não estou conseguindo viver. Entendo que a polícia está trabalhando, mas nem todo mundo é bandido. Eu tenho medo até de mandar meu filho à padaria", disse a dona de casa Gabriela**, que também participou da manifestação.

Chocolate é o apelido da viatura da Rondesp. E quem diz isso é o pequeno G.I.S, de 10 anos. Segundo ele, quando a "chocolate" passa pela rua, todo mundo fica com medo. "Antes eu ia comprar pão, mas minha mãe não deixa mais. Depois de 18h, a gente não sai mais", conta ele. 

O protesto acabou por volta das 10h, quando viaturas da polícia chegou no local. A assessoria da Polícia Militar informou que, na manhã desta quarta, guarnições foram descoladas para desobstruir as vias.

Final de semana mais violento
O final de semana de 9 e 10 de junho foi o mais violento do ano. Foram registrados, segundo dados da Secretaria da Segurança Pública (SSP), 29 homicídios entre 0h de sábado e domingo. Além das mortes, foram registradas também outras três tentativas de assassinato.

"A determinação da Secretaria da Seguranaça Pública é sufocar o tráfico de drogas local e continuaremos 24h no bairro patrulhando". A frase é do comandante da Rondesp Atlântico, major Edmundo Assemany, que se refere às regiões da Santa Cruz e Nordeste de Amaralina, onde o cabo Gustavo Gonzaga da Silva foi torturado e morto na sexta-feira (8).

A SSP investiga se a onda de violência em Salvador e RMS no último fim de semana foi uma retaliação pela morte dele e de outro PM na semana passada. Um dos suspeitos de participar da morte do cabo Gonzaga é o traficante Antônio Caíque Santos Oliveira, 25 anos, braço direito do chefão da facção Comando da Paz (CP), liderada por Val Bandeira. 

De acordo com o titular da pasta, secretário Maurício Barbosa, a SSP investiga até mesmo a possibilidade de ação de um grupo de extermínio. Em entrevista ao CORREIO, ele destacou que foi um fim de semana ‘atípico’ – especialmente por sair de uma sexta-feira (8) em que não houve nenhum assassinato para registrar 17 no dia seguinte. 

*Com supervisão do chefe de reportagem Jorge Gauthier.
**Nomes fictícios.