Treineiros: estudantes que ainda não podem concorrer a vagas somam 17% no Enem deste ano

educação
18.09.2014, 07:21:00

Treineiros: estudantes que ainda não podem concorrer a vagas somam 17% no Enem deste ano

A maioria dos treineiros inscritos, segundo professores ouvidos pelo CORREIO, está no 1º ou no 2º ano do ensino médio
Luísa Meireles Campos, 16, faz a prova desde o nono ano. Sua intenção é conhecer a estrutura da redação e aprender a trabalhar no tempo certo (Foto: Evandro Veiga)

Há quem diga que a prática leva à perfeição. O autor da frase é desconhecido, mas a estudante Luísa Meireles, 16 anos, certamente leva isso ao pé da letra. Nos dias 8 e 9 de novembro, ela vai fazer o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) pela terceira vez seguida... Como treinamento.

Enem pra valer só em 2015 – quando estiver terminando o  terceiro ano do ensino médio. “Faço a prova desde o nono ano (último ano do ensino fundamental). É uma preparação mesmo, para conhecer a estrutura da redação, que é sempre polêmica, e para trabalhar no tempo certo”, explica a adolescente, que está no 2º ano do Colégio Villa Lobos e pretende cursar Medicina.

Tanto ensaio pode impressionar, mas Luísa não está sozinha. Quase 1,5 milhão dos 8,7 milhões de inscritos para a próxima edição da prova não devem concluir o ensino médio em 2014: os chamados treineiros já são  mais de 17% do total de candidatos, segundo a assessoria do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep).

Por enquanto, ainda não há estatísticas regionais, mas os números do ano passado já ajudam a ter noção do número de treineiros por aqui. Em 2013, 86.039 baianos que fizeram a prova não concluíram o ensino médio no mesmo ano. No Brasil, o número chegou a 1.095.710. Em um ano, o percentual aumentou 36%.

A maioria dos treineiros inscritos, segundo professores ouvidos pelo CORREIO, está no 1º ou no 2º ano do ensino médio. “Eu fiz no nono ano, mas poucos colegas  da mesma idade também tentaram. Apesar de ter questões com assuntos do ensino fundamental, não estava esperando muita coisa dos meus resultados”, lembra Luísa, que aponta evoluções. “Acho que tive bons resultados. No ano passado, já tive um crescimento”, conta.

Bruna Sá Barreto, 16, também busca ter mais
intimidade com o exame (Foto: Evandro Veiga)

Resultados
Também com o sonho de conseguir uma vaga em Medicina, a estudante Bruna Sá Barreto, 16, do 2º ano do Colégio Antônio Vieira, já vai para o seu segundo Enem. “A gente não está acostumada com a prova, por isso (o treino) é tão importante. Tem que treinar não apenas a prova, mas também o ambiente, porque pode ter problemas como calor, som alto... É preciso também controlar o tempo”, destaca.

No final, tanto alunos quanto professores esperam que a prova sem compromisso traga um bom resultado no exame “para valer”. E, geralmente, é isso mesmo que acontece, segundo a coordenadora pedagógica do curso Análise do Iguatemi, Suzana Luz.

“Geralmente, eles (treineiros) têm sucesso porque já passaram pela situação emocional, já tiveram esse contato. Essa  preparação é necessária, porque quando o momento vai se aproximando, eles vão ficando mais sensíveis”, diz.

Estímulo
Dessa forma, é comum que as escolas estimulem os estudantes a realizar a prova antes do momento oficial, como explica a coordenadora do ensino médio do Villa Lobos, Cristina Cardoso.
“O Enem não começa no terceiro ano, mas no primeiro. Se o aluno entende isso desde cedo, faz com tranquilidade”, assegura.

Não foi à toa que o estudante Wilzel Miranda, 16, do 1º ano do Colégio Militar de Salvador, decidiu se inscrever logo. Ele ainda não pensa em conseguir uma vaga definitiva em Engenharia de Petróleo e Gás ou Engenharia da Computação, mas já entende que o Enem é coisa séria. Daí, quando todos os amigos se inscreveram, não quis ficar para trás.

“Acho que me inscrevi mais por conta dessa influência dos meus colegas mesmo. Os professores incentivam a treinar, porque sempre colocam questões (do Enem) nas provas”, explica. Mesmo assim, Wilzel garante que não vai se cobrar muito, caso não consiga o melhor dos resultados logo de cara. “Vou me conformar, porque ainda não passei por todos os assuntos”, analisa.

Embora os treineiros não possam “guardar” a nota do Enem desse ano para concorrer a uma vaga pelo Sistema de Seleção Unificada (Sisu) ou pelo Programa Universidade Para Todos (Prouni), é possível usar para o Ciência Sem Fronteiras (CsF) ou para o Fundo de Financiamento Estudantil (Fies). Esses dois programas aceitam notas de exames realizados a partir de 2009 e 2010, respectivamente.

Coordenador alerta para erros comuns de treineiros
Ainda que prestar o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) sem compromisso seja uma boa maneira de se preparar, o estudante não deve se deixar afetar pelos resultados – sejam bons ou ruins.  Mas, de acordo com o coordenador pedagógico do Colégio Antônio Vieira, Zelão Teixeira, que faz doutorado em Educação Curricular pela Ufba, é comum que os alunos cometam dois erros: se desesperar ou achar que já não precisa mais estudar.

“Ao mesmo tempo que ser treineiro possibilita uma experiência interessante, pode trazer uma angústia e um estresse, porque o aluno começa a se preocupar por não conhecer todos os assuntos ainda”, alerta Zelão, também destacando o caso dos “alunos que ficam bem classificados e acabam ficando desestimulados para seguir o restante do ciclo”.

Daí, são comuns os casos de estudantes que, já aprovados no curso que querem desde a série anterior, decidem entrar com uma ação na Justiça para sair da escola, sem ter concluído o ensino médio, de fato. “O nome ‘treineiro’ já indica que é um treinamento. Então, o estudante tem que ter consciência de que ainda tem muita coisa para percorrer”.

Para não atropelar as etapas, a estudante Rafaela Ferreira, 15 anos, que está no 1º ano do Colégio Villa Lobos, já decidiu que não vai estudar especificamente para o Enem. Quando for fazer o exame pela primeira vez, em novembro, ela vai apenas com o que estudou durante o ano na escola. “Tem gente que se prepara de uma forma absurda, mas não estou tirando meu foco de outras coisas que tenho para fazer agora. Acho que não é para ser uma coisa tão focada assim, porque o exagero não é legal”, avalia a moça, mais uma que pretende cursar Medicina em breve.

Ainda de acordo com Zelão Teixeira, “ser treineiro” no Enem é cada vez mais comum entre os estudantes. “Na época do vestibular antigo da Ufba (que passou por mudanças desde 2009, até ser totalmente substituído pelo Enem, no ano passado), tinha muita gente que fazia como treineiro. Mas nem dá para comparar com a popularidade do treinamento para o Enem, por ser uma prova diferenciada, com esse caráter nacional”, aponta.

Especialista orienta família a dialogar muito e pressionar pouco
Tanto a escola quanto a família dos treineiros devem ajudá-los a entender que o Enem antes do 3º ano do ensino médio é apenas uma preparação, para evitar uma pressão desnecessária, como alerta a psicopedagoga Larissa Machado, especialista em Psicologia Educacional.

“A principal estratégia é a conscientização. O adolescente deve saber por que está fazendo aquele teste, qual a função daquilo e, principalmente, entender que é um exercício”, aponta a psicopedagoga. Ainda de acordo com ela, deve haver muito diálogo nos ambientes familiar e escolar, para que o aluno não sofra com a ansiedade.

“É preciso existir um espaço para que essa angústia possa ser compartilhada, não só por ele, mas pelos colegas. A troca de sentimentos é útil, porque são experiências naturais”, orienta. Além disso, os pais dos estudantes devem agir como “colaboradores”, deixando de lado uma postura de cobrança.

“O apoio da família deve ser na forma de uma presença atenta, fortalecendo a conversa com o estudante. Eles (responsáveis) devem evitar contribuir com a tensão”. Ainda segundo a especialista, é provável que quem fizer o teste antes consiga se sair bem na hora da prova “oficial”. “A tendência é que seja tranquilo, porque o aluno vai ter mais segurança”.


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