Trilhas: o reinado de Veveta

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04.03.2017, 09:07:00
Atualizado: 04.03.2017, 09:08:58

Trilhas: o reinado de Veveta


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O Carnaval passou como um tapete sobre o país em crise, mas não cobriu nada. Quarta-Feira de Cinzas, Marcelo Odebrecht, comparando-se ao bobo da corte, fez um arrastão político descobrindo tudo. Bobo da corte ele não foi. Historicamente, o bobo da corte afastava a Corte dos problemas, com humor, e não financiava problemas. Mas, antes do arrastão de MO que trouxe o Brasil ao eixo, o Carnaval aconteceu nas três capitais festeiras do país em 2017, duas de velhos carnavais, Salvador e Rio de Janeiro, e uma de novíssimo Carnaval, São Paulo, que brincou ao som dos gemidos de Gretchen. Amo São Paulo, mas na categoria Carnaval São Paulo perdeu pra Salvador que brincou ao som da rainha absoluta do Brasil, Ivete Sangalo, reinando nos trios de Salvador, reinando quando foi homenageada pela Grande Rio no Rio de Janeiro, reinando quando se vestiu de palhaço e correu atrás de trios dos colegas, mostrando que é bom ser folião sem cordas, além de outros reinados.

Como é possível? Alguns se perguntam! Isso tudo é marketing! Outros advertem! Mas eu desconfio que Ivete Sangalo faz uma das coisas mais difíceis nesse planeta a cada dia menos amoroso: ela se permite ser amada sem limites e tenta, na medida do impossível, retribuir ao amor dos que lhe amam. Com um talento extraordinário e uma humanidade do tamanho do talento, porque só talento não dá certo, Ivete faz aquilo que Exupéry nos ensinou no Pequeno Príncipe e do que nós fugimos assim que lemos Kant: - “Tu te tornas responsável por aquilo que cativas!”. Conheço gente que avisa, com gentileza, que não quer conhecer mais ninguém e que pede, quando o conhecimento acontece: “Por favor, não me ame!”. Ou seja: eu não quero ser responsável por seu amor por mim.

Ivete faz o contrário: ela se permite ser amada e ama. Se é marketing, não importa. É absolutamente convincente. O Doce de Sangalo seduz a mim, que li Kant, às crianças do The Voice Kids que eu nunca assisti, mas soube de quem assiste. E se o Carnaval de Sampa dançou aos gemidos de Gretchen, Salvador dançou ao reinado de Sangalo, na saída do Olodum, nas vozes lindas do Paroano Sai Milhó, com o carisma de Lázaro Ramos que casou outra vez com Taís no trio de Daniela Mercury, passeou no Oscar, participou com elegância ímpar do Camarote Expresso 2222 e foi capa da Veja como o casal mais bem-sucedido da mídia brasileira depois de Tarciso Meira e Glória Menezes.

Em companhia de Walter Benjamin - A obra de arte na época de sua reprodutibilidade técnica -, de Guy Debord - A Sociedade do Espetáculo - , de Adorno e Horkheimer - A industria cultural: o esclarecimento como mistificação das massas - que têm tudo a ver com Carnaval, fiz outras coisas como ouvir o governador defender “as mina”. No que ouvi, lembrei que a gestão do governador pagou o cachê de minas que cantaram no Carnaval de 2016 quase em 2017. E resolvi avisar ao governador que as minas vivem do que cantam! Que é preciso respeitar “as mina” pagando o cachê delas nos próximos dias. E que, antes de escolher o tema do Carnaval, é de bom tom explicar aos carnavalescos o que ele significa. É sabido que os órgãos do Estado ligados à Cultura têm dificuldades, mas, afinal, uma das casas do tropicalismo é a Bahia.


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