Trilhas: Sr. Governador 

trilhas
10.06.2017, 03:37:00

Trilhas: Sr. Governador 


Em momentos como o que vivemos, o jornalismo sério ganha ainda mais relevância. Precisamos um do outro para atravessar essa tempestade. Se puder, apoie nosso trabalho e assine o Jornal Correio por apenas R$ 5,94/mês.

Apesar de ter nascido no Pelourinho, na Rua 13 de Maio, e dele ter saído aos quatro meses para morar em Brotas, em urbanização, não podia freqüentá-lo do meu nascimento até os Anos 1990, porque não era seguro, nem próprio às mulheres honestas. Em 1994, ancorei num Pelourinho pujante, com um teatro intenso ocupando as ruas do bairro nos primeiros momentos pós revitalização. E quando as Praças Quincas Berro D’Água e Pedro Arcanjo foram construídas, receberam, até, 1200 espectadores para assistir atores e autores que lotavam os teatros noutros bairros da cidade. Tenho fotos de espectadores sob a chuva, com sombrinhas, assistindo “Esse Glauber”, porque não havia lugar sob os toldos. 

Isso podia acontecer qualquer dia da semana, exceto terça-feira, quando todas as ruas do Pelourinho lotavam com as Terças das Bênçãos que movimentavam o bairro com shows musicais – Gerônimo era um escândalo na Escadaria da Igreja do Paço – e grupos de percussão. Diante do sucesso do teatro nas praças, ele foi convidado a montar a democracia republicana do Theatro XVIII, um teatro para todos, inaugurado em 13 de Junho de 1997, que rapidamente recuperou a Rua Frei Vicente, o Baixo Maciel, e nos anos seguintes solidificou-se com um problema: falta de espaço para abrigar as platéias que chegavam, furiosamente. O espetáculo “Três Mulheres e Aparecida”, em 2000, esgotava todas as sessões com três meses de antecedência, o espetáculo “Brasis” provocou o arrombamento da porta do Theatro, fechado por seus funcionários porque não podia receber público nem no foyer. 

Os freqüentadores do XVIII, da Benção, do Miguel Santana com o Balé Folclórico dispunham de Gastronomia variada, possível a todos os preços, que hoje resta em sua totalidade no Guia de Bares e Restaurantes do Pelourinho, (Sebrae/Ba, 2004), porque centenas de comerciantes fecharam as portas a partir de 2007, com as políticas públicas estaduais, turísticas e culturais, impostas ao Centro Histórico, esvaziando o Pelourinho de soteropolitanos e turistas que o mantinham cheio. A partir de Janeiro de 2007, a pujança dos Anos 1990 que alimentava a economia da cidade foi secando e sendo transformada num deserto, perverso, onde nem mendigos vêem por falta de clientes. A sede dos Correios que era um Centro Cultural com exposições importantes foi fechada e a Agência do Banco do Brasil foi transformada em posto, aconselhando ao turista que quer efetuar câmbio que se dirija a outras agências.  

O Pelourinho, parte importantíssima do Centro Histórico de Salvador, declarado Patrimônio da Humanidade, em 1985, está desértico sem suas âncoras, desaparecidas com políticas públicas equivocadas, como é equivocado, agora, o esvaziamento das praças durante o São João. Tenho na memória a propaganda do governo iniciado, em 2007, com Jaques Wagner, e continuado por V. Exa, de que o governo da Bahia trabalha para quem mais precisa. Os comerciantes que trabalham nas praças do Pelourinho já não conseguem sobreviver com as suas famílias por carência de clientela local ou visitante. E agora, às vésperas do São João, se não conseguirem trabalhar nele, perderão um dos seus poucos suspiros. 

É desumano, Governador.

***

Em tempos de coronavírus e desinformação, o CORREIO continua produzindo diariamente informação responsável e apurada pela nossa redação que escreve, edita e entrega notícias nas quais você pode confiar. Assim como o de tantos outros profissionais ligados a atividades essenciais, nosso trabalho tem sido maior do que nunca. Colabore para que nossa equipe de jornalistas seja mantida para entregar a você e todos os baianos conteúdo profissional. Assine o jornal.


Relacionadas