Trilhas: Tudo que é falso desmancha no ar

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01.04.2017, 10:59:00
Atualizado: 01.04.2017, 11:02:01

Trilhas: Tudo que é falso desmancha no ar


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Tudo que é falso desmancha no ar, ao contrário do que o livro de Marshall Bermann me disse em Tudo que É Sólido Desmancha no Ar. E mesmo esse papo de pós-verdade desmanchará logo. Quanto tempo dura uma mentira criada para modelar a opinião pública? O tempo de esbarrar numa fonte confiável. A democracia venezuelana é ditadura há muito tempo. E a democracia brasileira é um Império Cleptocrático com a Cidade Imperial  instalada em Brasília acuada pela insurreição da Lei. Leia-se Sérgio Moro. O que os três poderes instalados em Brasília e arredores fazem com o Brasil pode ser resumido pela prisão de cinco dos sete conselheiros do TCE do RJ, nomeados pelo Executivo de Cabral para fiscalizar as contas do Executivo de Cabral. Escutar a imprensa noticiar que não haverá sessão no TCE do RJ para julgar as contas de Cabral, que está preso, porque cinco dos sete conselheiros estão presos é o resumo perfeito da cleptocracia imperial que nos governa. 

As ruas já não são o melhor modelo para alterar esse aparelho. O aparelho programou as ruas. Uma sugestão é tirar dele todos os privilégios instalados ao longo dos séculos para mantê-lo no poder, e prosseguir na insurreição de Moro, que prende e condena os ladrões imperiais Eduardo Cunha e José Dirceu, de partidos antagônicos e de comportamentos idênticos. Sem tirar dos três poderes o foro especial e todos os privilégios que, longamente enumerados, fazem do Brasil o império continental da incompetência, as mudanças continuarão lentíssimas. E a possibilidade de tirar os privilégios está na Lei Complementar Nº 135, de 4/7/2010, mais conhecida como Ficha Limpa, que nos deve sua existência. 

Porque o aparelho que já está nas ruas como a sociedade foi às ruas em 2013 se planeja e se protege com esmero. Em 2015, o ministro da Defesa Jaques Wagner, ex-governador da Bahia, fez do deputado federal Mário Negromonte (PP), seu aliado, conselheiro do TCM e lhe deu foro especial. Quinta-feira, 30 de março de 2017, Mario Negromonte e colegas do Partido Progressista foram denunciados outra vez por corrupção passiva e ocultação de bens, e a extensão dos crimes sobre o erário é tão grande que o MP pediu a devolução de mais de dois bilhões que o partido surrupiou do país. É isso um partido que o Brasil deve sustentar com milhões do Fundo Partidário?

Não sejamos ingênuos de achar que os políticos brasileiros são atraídos pelo trabalho que seus cargos exigem. Há exceções, como em toda a regra geral, mas a regra geral é que eles chegam aos cargos para atacar o erário protegidos da prisão pelos foros, com milhares de privilégios que os monarcas europeus dispunham antes da revolução francesa, que os imperadores chineses desfrutavam antes de Mao, que os czares russos usufruíam antes de Lênin com os impostos sobre o trabalho. Nós sustentamos milhares de políticos e de funcionários públicos dos três poderes imperiais do Brasil em troca disso que está aí.  

Existe a impressão de que todo o Brasil está aparelhado pela corrupção e que não há salvação. Mas há. A democracia brasileira contemporânea é uma pós mentira sem futuro no Brasil e no mundo.

*Aninha Franco é escritora e pensadora

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