Um casamento em Itapuã que reuniu Calazans, Auta Rosa, Gessy, Vinícius, Jorge e Zélia

entretenimento
25.09.2021, 05:09:00
Calazans, Auta Rosa, Gessy, Vinícius, Jorge e Zélia (Arquivo pessoal de Gessy Gesse)

Um casamento em Itapuã que reuniu Calazans, Auta Rosa, Gessy, Vinícius, Jorge e Zélia

A paixão do poeta Vinicius de Moraes pela baiana Gessy Gesse, a Morena Flor

O Baú do Marrom volta aos anos 1970 para lembrar de um acontecimento que marcou a velha São Salvador com dois personagens. Um é o poetinha, diplomata, cantor compositor e bom vivant, o carioca Vinícius de Moraes que se casou nove vezes. A outra é aquela que foi sua sétima esposa: a baiana Gessy Gesse com quem viveu por exatos sete anos na famosa Casa de Itapuã que hoje funciona com a Casa Di Vina. Um local que se transformou em ponto turístico e foi inspiração para grandes sucessos do poetinha. Talvez a mais admirada pelos baianos seja “Tarde em Itapuã”. Aquela que fala:

“Um velho calção de banho
O dia prá vadiar
O mar que não tem tamanho
E um arco-íris no ar

Depois, na Praça Caymmi
Sentir preguiça no corpo
E numa esteira de vime
Beber uma água de côco
É bom!

Passar uma tarde em Itapuã
Ao sol que arde em Itapuã
Ouvindo o mar de Itapuã
Falar de amor em Itapuã”




Gessy Gessy atualmente com seus 82 anos (Foto: Divulgação)

Os dois se conheceram nos anos 1960 e em 1969 se casaram em Montevidéu (Uruguai) porque naquele tempo como eram separados não podiam se casar no Brasil. Mas a união em terras baianas, na verdade uma grande farra aconteceu no dia do aniversário do poeta em 19 de outubro de 1971 numa cerimônia que chamou a atenção não só pelo enlace dos apaixonados,  mas pela forma inédita. Um casamento cigano sem nenhum dos dois ter parentesco com esse povo conhecido como nômade. Mas tudo terminou dando certo como falou a querida Gessy ao Baú do Marrom do alto de seus 82 anos (ela nasceu em 1939) bem vividos e em plena forma:

“A gente estava passeando com uma turma de amigos, em Lauro de Freitas, quando vimos um casamento cigano. Ficamos encantados com tudo aquilo e resolvemos fazer uma cerimônia nos mesmos moldes. Como os casamentos ciganos são cerimônias simples geralmente com os familiares, então convidamos amigos em comum para serem padrinhos. E para não ter confusão, resolvemos fazer um sorteio. O casal Calazans e Auta Rosa ficou comigo e Jorge e Zélia com Vinícius. Para sacerdotisa chamamos a grande e inesquecível amiga e atriz Nilda Spencer”.

Vinícius de Moraes, Gessy Gesse e Mãe Menininha (Foto: Acervo Pessoal Gessy)

Em meio a toda festa e euforia, Gessy que foi vestida pelo saudoso estilista baiano Ney Galvão, tinha apenas uma preocupação. Como na tradição cigana tem que haver um corte nos pulsos de cada um para unir os sangues, seu receio era fazer um corte profundo porque Vinicius era diabético. Mas, no final deu tudo certo. “Foi tudo muito lindo e até hoje me lembro. O casamento foi numa pousadinha que a gente morava antes de transformá-la na famosa casa de Itapuã”, comenta. Casa essa que virou tema de um minidocumentário batizado justamente de “A Casa de Itapuã” com direção da atriz Luisa Proserpio em parceria com os cineastas Lara Beck Belov e Gabriel Teixeira.

“O documentário traz depoimentos da cantora Divina Valéria, participante de muitos encontros nesta casa, entrevistas com o arquiteto Nivaldo Andrade e com a neta de Gesse, Mariana Carvalho. Preservado em sua arquitetura original, o local também contempla o Memorial Casa di Vina, onde estão expostos objetos, fotos e documentos da história do casal, com visitação aberta gratuitamente ao público. A casa, construída em 1974, tem projeto de Jamison Pedra e Silvio Robatto, arquitetos e artistas plásticos.

Gessy Gessi e seu famoso chapéu de palha (Acervo Pessoal Gessy Gesse) 

Apesar de ter trabalhado como atriz em filmes como “Santo Módico” (1964) e “Sol Sobre a Lama” (1963), e peças teatrais como “Boca de Ouro”, ao lado de Maria Bethânia e Caetano Veloso.  Gessy que é filha de santo do terreiro de Mãe Menininha e descendete de índios, até hoje é lembrada como uma das musas do poetinha: “Ah! Meu filho não tem jeito. Serei sempre a eterna namorada, mulher, viúva de Vinicius de Moraes. Mas eu não me arrependo. Os sete anos que vivemos juntos foram muito intensos e eu faria tudo outra vez”. Inclusive ela escreveu um livro “Minha vida com um poeta” que erviu de norte para o documentário e mantem um rico acervo pessoal. Gessy também ganhou uma linda homenagem de seu amado com a música "Morena Flor" feita em parceria com Toquinho.

Só para contextualizar, se estivesse vido, Vinicius faria 108 anos no próximo dia 19 de outubro. Ele morreu em 9 de julho de 1980 aos 66 anos e deixou uma obra monumental na MPB. A começar pela parceria com outro saudoso, Tom Jobim, com quem compôs obras primas como Garota de Ipanema, Eu sei que vou te amar, Chega de Saudade, imortalizadas na voz do baiano João Gilberto. Com outro parceiro Toquinho fez Tarde em itapuã,  Para Viver Um Grande Amor e Regra Três.  

No Teatro escreveu Orfeu da Conceição (1954) que virou filme Orfeu do carnaval do francês Marcel Camus, ganhou a Palma de Ouro de Cannes e o Oscar de melhor filme estrangeiro; Cordélia e o Peregrino (1965) e Pobre Menina Rica (1962) sem falar nas inúmeras antologias poéticas e no belo disco de Afros- Samba com Baden Powell.

A Casa de Itapuã (Acervo Pessoal  Gessy Gesse)


***

Em tempos de coronavírus e desinformação, o CORREIO continua produzindo diariamente informação responsável e apurada pela nossa redação que escreve, edita e entrega notícias nas quais você pode confiar. Assim como o de tantos outros profissionais ligados a atividades essenciais, nosso trabalho tem sido maior do que nunca. Colabore para que nossa equipe de jornalistas seja mantida para entregar a você e todos os baianos conteúdo profissional. Assine o jornal.


Relacionadas