Um guia de boas leituras para 2022

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02.01.2022, 07:00:00

Um guia de boas leituras para 2022

Escritores e críticos literários indicam títulos para ler ao longo do novo ano

Tudo será daqui para frente e, em lugar de olhar para trás para conferir o que os escritores andaram lendo ao longo do ano que passou, decidimos propor uma lista diferente. Queremos saber o que deve ser lido em 2022. Doze autores baianos toparam o desafio e indicam, nessas páginas, cinco títulos que consideram essenciais. Um guia de boas leituras para se fortalecer para o que virá nos próximos dias do ano que começa.

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Foto: Divulgação

Aleilton Fonseca

Doutor em Literatura Brasileira (USP). Professor na UEFS. Foi finalista ao Jabuti 2021 na categoria poesia, com o livro A Terra em Pandemia.

Histórias e História da Bahia (Org. Fernando Oberlaender, Caramurê 2021) - Oito episódios da história baiana tornam-se cenas de ficção, através do estilo de oito contistas contemporâneos. As personagens emergem dos fatos e revivem dilemas e sentimentos, ganhando vida em enredos dinâmicos e capazes de envolver o leitor.

Querida Cidade (Antônio Torres, Record, 2021) - Narrativa fluida e dinâmica, a trama evolui através de fluxos de consciência do narrador, que faz um balanço de sua trajetória, numa prosa entrecortada por reflexões. O protagonista é um típico migrante que deixa a cidade de origem e vai em busca de uma vida melhor na capital.

Aríete. Poemas Escolhidos (Ricardo Vieira Lima. Circuito, 2021) - Poeta já consagrado e crítico literário, Ricardo enfim estreia em livro com uma coletânea vigorosa, de uma poesia que conjuga técnica, criatividade e observação da vida, com imagens fortes de nosso tempo. Seus poemas trazem um lirismo denso, voz atenta às cenas cotidianas.

A Vigília dos Peixes (Heloísa Prazeres, Scortecci, 2021) - Encanta o leitor pela leveza das palavras e pela plasticidade das imagens. São versos livres, sonoros, de ritmo agradável e envolvente. A poeta usa a matéria-prima de suas memórias e mescla esse material aos achados de suas leituras, num jogo sutil de referências e citações.

Paisagens Interiores (Décio Torres Cruz, Patuá, 2021) - Poesia de tonalidade plástica e musical. Décio revela-se um poeta consumado, cuja experiência e intimidade com as palavras modelam a sua dicção de forma densa e original. O título demonstra a consciência do autor acerca dos temas e do material que modela e transfigura.

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Foto: Edgar Oliva/Divulgação

Alex Simões

Poeta, escritor, professor, performer, tradutor e editor. É autor, entre outros, dos livros Trans formas são (Organismo) e Assim na Terra como na Selfie (Paralelo 13S).

Verbetes Moventes (Org. Ines Linke e Lia Krucken, Duna, 2021) - A Bahia são muitas e em uma delas pulsa uma movimentação intensa nas artes gráficas. Uma das muitas amostras dessa cena produtiva é o Verbetes Moventes, livro-objeto com contribuições de 12 artistas da palavra e do design gráfico.

Histórias e História da Bahia (Org. Fernando Oberlaender, Caramurê 2021) - Este livro de contos traz personagens que viveram na Bahia nos séculos 19 e 20 envolvidos em narrativas que mesclam dados historiográficos com ficção. São 8 autores baianos, de estilos e abordagens variados, que dão ao leitor um panorama repleto de informações.

O Menino de Asas Invisíveis (Ricardo Ishmael, Ed. Do Autor: Mojubá, 2021) - Depois do excelente livro de estreia, O curioso destino de Rita Quebra-Camas e outros contos, o autor investe na formação de leitores na divisão de base. A história de Adouk e sua Bisa Bargé passa por temas bem contemporâneos: identidade, memória e ancestralidade.

Abrindo a Boca, Mostrando Línguas (Org. Milena Britto. Paralelo 13S, 2021) - Ler os contos dessas mulheres diversas, pelas origens regionais e étnicas, pelas temáticas e trajetórias, pela cis e transgeneridade, nos dá a nítida sensação de valer a pena resistir ao horror conservacionista, pois o Brasil é muito melhor quando lido em sua inteireza.

Aroeira (Vania Melo, Segundo Selo, 2021) – Este livro consolida a trajetória de uma mulher preta, filha de Oxum, professora e pesquisadora, que não descuida de denunciar o racismo sem abrir mão de falar de amor, de afinar sua lira para Zambi, para Oxum e para Exu. Aroeira nos brinda com 48 poemas sobre a insistência de estar viva.

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Foto: Leonardo Pastor: Divulgação

Breno Fernandes

É escritor e doutor em Literatura e Cultura. Autor, entre outros, de Mendax, o Ladrão de Histórias, que conquistou o segundo lugar no Prêmio Biblioteca Nacional 2018.

Em Busca da Alma Brasileira (Jason Tércio, Estação Brasil, 2019) - Esta biografia de Mário de Andrade foi lançada já faz um tempo, mas, com a proximidade do centenário da Semana de Arte Moderna de 1922, vale a pena ler ou reler o excelente trabalho sobre a vida e as (muitíssimas) ideias de um dos principais artífices do Brasil que temos hoje.

Pra Vida Toda Valer a Pena Viver (Ana Cláudia Quintana, Sextante, 2021) - Depois de A morte é um dia que vale a pena viver, a médica e escritora, principal referência brasileira na divulgação científica da tanatologia, discorre em seu novo livro, sobre como envelhecer sem fazer disso um problema, e sim uma experiência rica e valiosa.

A Rosa mais Vermelha Desabrocha (Liv Stromquist, Quadrinhos na Cia., 2021) - A quadrinista sueca, que faz verdadeiros ensaios sobre a vida contemporânea em forma de HQs, apresenta uma reflexão sofisticada sobre como amamos na atualidade, ou melhor, sobre porque a paixão avassaladora parece um fenômeno cada vez mais raro.

O Deus das Avencas (Daniel Galera, Cia. das Letras, 2021) - Galera é um dos maiores escritores que o Brasil já produziu. Seu sétimo livro é um conjunto de três novelas que vão do hoje a um futuro pós-apocalíptico no qual precisamos reinventar a humanidade. Em 2021, muitas distopias foram publicadas no país. Essa é a minha preferida.

Dói-me este Mundo de Violentas Esperanças (Sandro Ornellas, Patuá, 2021) - A poesia também está tentando dar conta do nosso tempo, e com isso não quero dizer apenas entendê-lo. Às vezes o caso é não entender mesmo, mas ainda assim cutucá-lo com o que se tem a mão: a palavra. Transformá-lo, ainda que para uma pessoa só: o leitor..

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Foto: Sarah Fernandes/Divulgação

Carlos Barbosa

Escritor, é autor de A dama do Velho Chico, Beira de Rio, Correnteza, O Chão que em Mim se Move, entre outros livros.

Ulisses, de James Joyce – Este ano ocorre o centenário da 1ª edição de Ulisses, romance fundamental na história da literatura moderna, que segue sendo muito comentado e pouco lido. Com três traduções disponíveis (Antonio Houaiss, Bernardina da Silveira Pinheiro e Caetano Galindo), este ano parece ser o momento certo para sua leitura.

Sonetos inéditos & Reunidos (Ruy Espinheira Filho, Patuá, 2020) - Ruy Espinheira Filho completa 80 anos em 2022. Nada mais adequado que homenageá-lo com leituras de sua preciosa obra, a começar por esse recente livro, que reúne sonetos produzidos entre 1975-2020, uma forma poética que nosso poeta pratica com rara mestria.

Risque esta Palavra (Ana Martins Marques, Cia. das Letras, 2021) - A poeta mineira mostra-se aqui plenamente amadurecida em seu ofício. Nessa coletânea, dividida em quatro partes, expõe zelo com sua produção, técnica apurada e um ritmo envolvente e sedutor. Um livro que tem qualidades para aparecer nas listas de premiações em 2022.

Cartas para o Bem Viver (org. Rafael Xucuru-Kariri e Suzane Lima Costa, Paralelo 13S, 2021) – Reúne 50 cartas escritas por professores, ativistas, artistas, escritores indígenas e não indígenas, do Brasil e do exterior, a convite dos organizadores. As cartas tratam da luta pela construção de uma boa vida para todos nós. Mensagem urgente, portanto.

Marrom Amarelo (Paulo Scott, Alfaguara, 2019) - Ao lado de Torto Arado, do baiano Itamar Vieira Jr. e de O Avesso da Pele, de Jeferson Tenório, o romance Marrom Amarelo, do gaúcho Paulo Scott, tem sido menção obrigatória quando as grandes questões do racismo no Brasil são referenciadas na literatura.

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Foto: Divulgação

Clarissa Macedo

Clarissa Macedo é doutora em Literatura e Cultura, além de poeta e escritora. Venceu o Prêmio Nacional da ALB em 2014 e, em 2021, o Prêmio Biblioteca Digital.

Lugar Comum (Mariana Paim, Urutau, 2021) - O feixe de poemas é muito bem tecido, escreve desenhos sobre ausências e partilhas, distâncias – imaginadas e concretas –, a própria escrita. Se estiverem à procura de uma poesia bem-acabada e contemporânea, na melhor acepção do termo, vale o passeio por este Lugar (nada e tão) Comum.

Histórias e História da Bahia (Org. Fernando Oberlaender, Caramurê 2021) - Esta coletânea desperta atenção pelo primor da edição, como é de costume da editora baiana. Personagens marcantes da Bahia do século XIX em narrativas que reinventam traços/feitos de vidas que ajudaram a compor um imaginário baiano.

O Nome de Meu Pai (Marcelo Labes, Caiaponte, 2021) - Numa edição caprichadíssima, Labes conta, em forma de textos e imagens, da morte, de percursos, de um pai, sob elementos que orbitam na memória. Para quem tiver coragem de olhar de frente este livro, sentirá que morte e eternidade são mais palpáveis do que parecem.

Nós Que Aqui Estamos (Org. Thiago Medeiros, Arrelique, 2021) - Poetas do Nordeste, quatro de cada estado, marcam não só uma amostra da literatura de qualidade inegável produzida nesse solo, no qual reside uma linhagem literária sem precedentes, mas espaço de fala ético-política, que se demarca insurgente frente aos centros literários.

Xilogravura de Pássaros (Carvalho Júnior, Penalux, 2021) - Dividida em três partes, a Xilogravura empreendida pelo poeta maranhense, que tão cedo nos deixou, contorna uma voz original e madura, com um léxico muito particular, das terras do Maranhão para o mundo, afeita a uma linguagem poética impecavelmente bem construída.

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Foto: Adenor Gondim/divulgação

Itamar Vieira Junior

Doutor em Estudos Étnicos e Africanos e escritor, é autor do romance Torto Arado, vencedor do Prêmio Leya (2018) e dos prêmios Jabuti e Oceanos (2019).

Erva Brava (Paulliny Tort, Ed. Fósforo, 2021) - As doze histórias que compõem esta coletânea formam um delicado quebra-cabeça que tem como palco a cidade de Buriti Pequeno, no cerrado brasileiro. É nesse lugar e em seu entorno que encontramos um país marcado por mudanças profundas que irão cobrar seus custos de modo implacável.

O Som do Rugido da Onça (Micheliny Verunsck, Cia. das Letras, 2021) - Romance que expande os horizontes da arte literária, com argumentos antropológicos e o melhor que a ficção pode oferecer. A trama gira em torno da mítica viagem dos exploradores Spix e Martius e o sequestro das crianças Iñe-e e Juri, das etnias Miranha e Juri.

Cornucópia (Ana Valéria Fink, Penalux, 2021) - Como o título sugere, esse volume de crônicas é fertilidade e abundância. Eventos narrados com uma forma peculiar de contar histórias, direta, delicada e humorada, como uma amiga relatando suas impressões do mundo sentada à mesa com uma xícara de café entre as mãos.

O Ausente (Edimilson de Almeida Pereira, Relicário, 2020) - Um romance-poema sobre os conflitos entre a predestinação e o desejo de liberdade vividos por Inocêncio, um curador do interior do Brasil. A força desse texto apresenta um escritor, um dos maiores em atividade, no auge da sua experiência de escrita.

Confinada (Triscila Oliveira e Leandro Assis, Todavia, 2021) - HQ original com uma história de conflito de classe que atravessa o país há mais de 500 anos: a relação entre senhores e os que eles pretendem subalternizar. Com humor e tiradas duras, Confinada é um espelho que reflete nossas desigualdades aviltantes.

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Foto: Divulgação

Milena Britto

Professora Universitária (UFBA), crítica literária, curadora e editora, organizou diversas antologias pela editora Paralelo 13S.

A Visão das Plantas (Djaimilia Pereira de Almeida, Todavia, 2019) - .Uma abordagem inusitada da velhice de um violento capitão de navio negreiro que volta a sua vila natal e passa a viver entre plantas. Enquanto cuida de seu jardim, o velho vai sendo vencido pelas plantas que dominam a atmosfera do romance.

O Ausente (Edimilson de Almeida Pereira, Relicário, 2021) - O tempo se torna espaço, temporalidade e rito neste romance onde vida e palavra são tocadas pelo milagre da cura através de uma retomada da liberdade, sendo a própria decisão ou indecisão o ponto crucial. A língua, a escuta, a pausa, tornam-se a uma só vez perigo e força.

Só Nós: uma Conversa Americana (Claudia Rankine. Trad. Stephanie Borges. Todavia, 2021) - Uma coleção híbrida que faz uma grande interrogação à respeito de raça, confrontando experiências subjetivas, históricas e culturais entre brancos e negros e expondo a sociedade norte-americana com uma crueza e ironia fascinantes.

Procurem Luísa no Mercado de Arte Popular (Maria Dolores Rodriguez. Arumã Estúdio Criativo, 2021) - A poeta apresenta um livro expandido no formato de mini arquivo que tenta rastrear a presença e a memória de sua mãe já falecida. Belo, profundo e tocante, o conjunto mostra a geografia da cidade de Feira de Santana eternizada pela passagem de sua mãe pelo Mercado de Arte Popular, onde trabalhou por 40 anos.

Ani: Todos os Felas do Mundo (Nelson Maca. Blackitude, 2021) - Uma linda narrativa em torno do desabrochar do pequeno e cativante Ani, que se descobre no encontro com mestres e personalidades da cultura negra ao seu redor. Ambientado nas paisagens de Salvador, a narrativa tem um ritmo de RAP e é ricamente ilustrada..

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Foto: Divulgação

Matheus Peleteiro

Advogado, romancista, poeta e produtor cultural, é autor de O Ditador Honesto e Nauseado, entre outros livros.

Tudo é Rio (Carla Madeira, Record, 2021) - A maior descoberta literária que fiz em 2021. A verossimilhança dos diálogos, a construção dos personagens, a pontuação com pausas perfeitamente bem-postas e o vocabulário, sem dúvidas, são fortes aspectos, mas sua narrativa se sobressai pela capacidade de humanizar não o oprimido, mas o opressor.

O Lobo do Mar (Jack London, Martin Claret, 2004) - Obra vibrante que traz emblemáticos embates filosóficos acerca da condição humana através do capitão Wolf Larsen, um dos maiores personagens da literatura. Apesar de ser tido como um livro de aventura, a jornada do intelectual Humphrey acaba promovendo muito mais do que uma diversão.

Minha Vida (Antón Tchekhov, Editora 34, 2011) - Neste período em que o desemprego cresce a cada dia, a leitura de Tchekhov e as reflexões ácidas trazidas acerca da suposta dignidade social trazida pelo trabalho se fazem ainda mais necessárias. Na curta novela, a corrupção, a pequenez, a avareza e o provincianismo que aponta pessoas más como cidadãos de bem são cruelmente dissecadas.

A Utilidade do Inútil (Nuccio Ordine, Zahar, 2016) - Em um tempo em que a arte e as ciências humanas têm sido questionadas por uma suposta utilidade material, o manifesto do escritor italiano Nuccio Ordine apresenta um sólido discurso acerca de questões filosóficas mais do que necessárias ao desenvolvimento do da humanidade.

O Sagrado Coração do Homem (Michel de Oliveira, Moinhos, 2019) - A forma genuína com que o autor contempla múltiplas perspectivas sobre um mesmo tema é magistral. Além disso, o livro se compõe como um verdadeiro escárnio ao machismo. Um cáustico ensaio sobre a condição de poder masculino.

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Foto: Dayane Sampaio

Nivia Maria Vasconcelos

Doutora em Literatura e Cultura, é professora, poeta, romancista e pesquisadora. Autora de Cãibra de Nó, entre outros livros.

Talvez um Blues (Ângela Vilma, Patuá, 2021) – Neste livro há uma intertextualidade atravessada pela melancolia e um ritmo todo próprio que materializa formas de solidão. Seus poemas vão até as “rugas mais fundas” para soprar, nem tão de leve, segredos por meio de um lirismo que se insurge contra as falsas urgências do dia a dia.

Lugar Comum (Mariana Paim, Urutau, 2021) – Metalinguagens, intertextualidades, googlagens, apropriações, remix e jogo de palavras. Do lírico ao prosaico, a poeta desfia uma constelação de afetos e deixa seus efeitos sobre quem lê, ao romper expectativas estabelecidas, como a da heteronormatividade, predominante no lirismo tradicional.

Abrindo a Boca, Mostrando Línguas (Org. Milena Britto. Paralelo 13S, 2021) – Reunião potente de textos de 16 escritoras brasileiras LGBTQIA+. Cada uma delas investe em uma gramática própria e se joga no risco da experiência com a linguagem. Escritas que desafiam quem lê e que constituem em si uma revolução.

Maturando Pernas em Rabo de Peixe (Martha Galrão, Organismo, 2021) – Urdidura feita de sutilidades e abismos. Como um mar, ora manso, ora revolto, há nele um lirismo preenchido por cenas leves e, até mesmo, risíveis, como em Notícias de casa, e pela delicadeza do amor que está contido nos detalhes, como num beliscão à altura da coxa.

Antipática Lira (Santiago Fontoura, Organismo, 2020) – Livro marcado pelo caráter inquieto do poeta, que investe numa poesia da desobediência, que não se resume a uma “manufatura de versos antigos” e que não pretende seguir manuais de sobrevivência, colocando-se em oposição aos “versos q se rasgam ao mínimo esfregar da borracha”.

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Foto: Divulgação

Victor Mascarenhas

Publicitário, roteirista e escritor, é autor dos livros Cafeína (vencedor do Prêmio Braskem de Cultura e Arte) e O Som do Tempo Passando, entre outros.

Os Demônios ( Fiódor Dostoiewski, Editora 34, 2013) – Tenho a tradição pessoal de ler um clássico no verão. Minha recomendação para esse ano de eleição é este livro profético, que parte de um fato real, o assassinato de um estudante que discorda dos métodos do seu grupo político, para traçar um painel de uma sociedade em convulsão.

1822 (Laurentino Gomes, Globo, 2015) - Esse ano comemoraremos os duzentos anos da independência do Brasil e conhecer melhor a história por trás do rompimento com Portugal é fundamental para entender melhor nosso país. Este livro é uma excelente opção para quem quer uma narrativa prazerosa e com o ritmo do melhor jornalismo.

Em Busca da Nação (Antonio Risério, Topbooks, 2020) - Nos últimos anos, entender o Brasil tem sido uma obsessão. Além dos clássicos, tento ler os contemporâneos e entre eles minha preferência recai sobre livres-pensadores sem medo de patrulhas ideológicas de direita ou de esquerda. Nesse perfil, Antonio Risério é uma referência.

A República das Milícias (Bruno Paes Manso, Todavia, 2020) - A realidade no Brasil é tão louca que um livro como esse pode até parecer um romance distópico, mas é a pura realidade. O relato da explosão da violência no Rio e o surgimento das milícias já seriam o suficiente para um grande livro, mas essa é mesmo uma legítima distopia brasileira.

Asfalto Selvagem (Nelson Rodrigues, Harpercollins, 2021) - Engraçadinha, a célebre personagem de Suzana Flag, ou melhor, Nelson Rodrigues, está de volta numa edição primorosa da HarperCollins. Mas ela não veio sozinha e trouxe também “Meu destino é pecar”, “Escravas do amor” e “O casamento”. Um gênio!

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Foto: Manuela Araújo/divulgação

Tiago D. Oliveira

Escritor, poeta, professor. Premiado no Selo João Ubaldo Ribeiro 2020. Finalista do Prêmio Oceanos 2020 com o livro As Solas dos Pés de meu Avô.

Dói-me este Mundo de Violentas Esperanças (Sandro Ornellas, Patuá, 2021) - Este livro traz signos localizadores de força e esperança. O que seus versos regatam vem de percepções que o poeta transforma em linhas para pensarmos o nosso tempo. A afirmação vem como resistência e, assim, uma saída possível.

Carta a Minha Filha (Maya Angelou, Agir, 2019) - A autora ressignifica os dias a partir do afeto. Primeiro, porque sua trajetória foi de luta. Segundo, porque o livro é um híbrido de relatos, experiências e poesia. Um livro que serve como mapa e fotografia para um traço que foi engolido, mas que é vivo e pulsa, quase que clandestino.

Cartas Para Minha Avó (Djamila Ribeiro, Cia das letras, 2021) - Em uma correspondência imaginada com sua avó Antônia, Djamila traz temas que já são marcas em sua obra, ancestralidade, antirracismo e feminismo, a partir de memórias de sua infância e adolescência. O livro apresenta o respeito cercado pelo afeto.

A Casa Mais Alta do Teu Coração (Clarissa Macedo, Biblioteca Digital, 2021) - Um livro transformador e que se desenha com talento e beleza. Clarissa, uma das nossas maiores poetisas, vem novamente com sua poesia trabalhada pelos estudos dentro e fora dos livros, mas também agenciada pelos des/caminhos impostos pela vida.

O Vivo (Adriana Lisboa, Relicário, 2021) - Pensar neste mundo como cenário para o vivo talvez seja uma grande prática de fé. Este livro é uma leitura/oportunidade para a sensibilização, a vida pulsa e respira como o mundo segue. As sutilezas reaparecem também, assim como linguagem trabalhada em suas formas distintas.

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Foto: Divulgação

Wesley Correa

Doutor em Estudos Étnicos e Africanos, é professor, poeta, ficcionista e ensaísta. Autor, entre outros livros, de Deus é Negro, Íntimo Vesúvio e Laboratório de Incertezas.

Notas Sobre o Luto (Chimamanda Ngozi Adichie, Cia. das Letras, 2021) - Nesta obra comovente, uma das maiores vozes da literatura africana deixa de lado a ficção e a ensaística, linguagens que domina como ninguém, para mergulhar em aspectos biográficos do pai, o professor James Nwoye Adichie, morto durante a pandemia.

Gramática das Pedras (Fabrício Oliveira, Patuá, 2020) - O livro de estreia do poeta implica numa experiência única de leitura, em parte porque a célula rítmica dos poemas encontra-se perfeitamente afinada, em parte pelo abalo que provocam as imagens crepusculares, múltiplas e condensadas, cujo estímulo nasce das malhas da vida social.

Histórias e História da Bahia (Org, Fernando Oberlaender, Caramurê 2021) - A proposta de uma coletânea de ficções históricas foi apresentada a autoras/es, que – cada qual estando responsável por escrever sobre (ou a partir de) uma personalidade histórica – empreenderam o desafio de explorar as possibilidades de sentido abrigadas na fenda entre a realidade objetiva e a fabulação.

A Eternidade das Águas (Rita Queiroz, Penalux, 2021) - Os contos presentes neste livro não alcançariam uma realização tão completa se a autora lhes houvesse negado a sua poética, a delicadeza de sua linguagem fúlgida, efetiva, sem artificialismos. Nesse gesto, consiste o encanto desta obra, que nos toca pela força inegável da poesia.

Oroboro Baobá (Emmanuel Mirdad, Penalux, 2020) - Finalista do Prêmio São Paulo de Literatura na categoria melhor Romance de Estreia, o livro de Mirdad investe no estilo fantástico-realista, passando pela complexa elaboração de uma narrativa histórico-ficcional, em que a Mística do Tempo se presentificará como grande protagonista.

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