Victor Uchôa: Goleiro Bruno e o extremo machismo de luvas

victor uchôa
18.03.2017, 04:52:00

Victor Uchôa: Goleiro Bruno e o extremo machismo de luvas


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Há uns bons anos, não sei exatamente quantos, a cidade mineira de Varginha ganhou fama nacional porque, atestavam alguns moradores, por lá teria aparecido um ser extraterrestre.

Tal fato nunca foi comprovado, mas talvez explique o que leva um dirigente do Boa Esporte, time de Varginha, a contratar o goleiro Bruno Fernandes.

Pode até parecer, mas não há nenhuma piada no parágrafo acima, e sim uma constatação. A esta altura da vida e dos acontecimentos, o cartola que toma uma atitude como essa e ainda arrota que fez um grande negócio, definitivamente, só pode viver em outro mundo.

Aqui, não interessa se Bruno ainda tem preparo e agilidade para fazer grandes defesas. Interessa que, num tempo e num país em que as mulheres ainda sofrem para conseguir respeito e reconhecimento, o goleiro é um símbolo do machismo levado ao ponto mais alto (ou mais profundo, na verdade).

Bruno foi condenado por comandar uma trama que resultou no intencional assassinato da sua ex-namorada, Eliza Samúdio, cujo corpo jamais foi encontrado. Mas por que Bruno resolveu matar Eliza? Simplesmente porque não queria assumir a paternidade de uma criança e pagar a pensão devida, retrato perfeito da lógica do patriarcado, inclusive do ponto de vista financeiro.

Não há nenhuma novidade no fato de que muitos homens, aqui e alhures, fogem do seu dever de pai (mesmo quando colocam o sobrenome num registro) e deixam toda a carga da criação nas costas das mulheres. Pior: ainda acham que estão certos. Bruno, para além desta vala comum, calçou as luvas da onipotência e assim, como quem bate um tiro de meta, resolveu matar.

Agora, ele diz que já pagou pelos seus erros e que, veja só, foi Deus quem lhe deu a oportunidade de “recomeçar”. Alguém precisa avisar a Bruno que, na verdade, ele ainda não pagou pelos seus erros. Ele só deixou a prisão porque, condenado em primeira instância, até hoje não passou pelo julgamento em segunda instância. Como tem dinheiro para bancar bons advogados, deixou a cadeia, mesmo que temporariamente.

Alguém precisa avisar a Bruno também que Deus (independentemente do Deus em que ele acredita) não tem absolutamente nada a ver com a infame lentidão da Justiça brasileira, única responsável pelo goleiro agora estar treinando em Varginha.

Parece-me que, se estivesse realmente arrependido, Bruno, no mínimo, pediria desculpas. Mas, em sua entrevista de apresentação no Boa Esporte, o que ele fez foi rechaçar todos os questionamentos sobre a morte de Eliza.

Além disso, vale lembrar que, bem antes de o desaparecimento de Eliza Samúdio ganhar as notícias, Bruno nos presenteou com um brilhante raciocínio: “Em um relacionamento, às vezes é preciso uma discussão, ou até mesmo algo mais sério. Quem nunca brigou ou até saiu na mão com a mulher?”, disse ele, referindo-se a um desentendimento conjugal do então colega de Flamengo, Adriano.  

Quer mais uma prova de que estamos caminhando rumo ao passado? Moradoras de Varginha organizaram um protesto contra a chegada do goleiro e o que aconteceu? Foram ameaçadas por torcedores (?) tirados a machões.

É provável que existam mulheres trabalhando no Boa Esporte. Fico imaginando como elas se sentirão cada vez que passarem por Bruno. Será que vão lembrar que uma mulher foi assassinada e esquartejada simplesmente porque aquele jogador não queria assumir um filho?

Por óbvio, não posso falar com propriedade, mas deve ser mesmo duro ser mulher num lugar como o Brasil. Afinal, se até o presidente da República acha que as mulheres é que são as responsáveis por cuidar dos filhos e só entendem de economia porque vão ao supermercado, é evidente que o horizonte está nublado. E que a escalação do Boa Esporte está podre.

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