Virando a página: pesquisadores revisitam dez mitos da História do Brasil que reforçam racismo

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20.11.2021, 05:07:00
Atualizado: 21.11.2021, 09:44:21
(Nara Gentil/CORREIO)

Virando a página: pesquisadores revisitam dez mitos da História do Brasil que reforçam racismo

Confira lista de verbetes feita pela Rede de HistoriadorXs NegrXs

Na escola, numa roda de conversa, numa mesa de bar e - por que não? - nos livros de história, nos jornais e revistas ou em qualquer outra produção em que aborde questões sobre a História do Brasil, lá estão eles: os mitos. Eles se fundam naquelas certezas quase inabaláveis sobre temas clássicos como ditadura, liberdade, escravidão, abolição, relações entre negros escravizados, fé, religião... E aí mora o perigo.

Mitos como o de que a população negra assistiu apática às mudanças sociopolíticas da ditadura militar; de que a resistência quilombola era essencialmente bélica e masculina; que os negros não tinham protagonismo nem na própria história; e que o Brasil vive, desde sempre, uma democracia racial ajudaram, ao longo dos anos, a sustentar o racismo na sociedade brasileira.

Mas, significa que tudo isso foi inventado? Não, não é que essas histórias não existam, que esses pensamentos e teorias nunca tenham ocorrido a nenhum estudioso ou que sejam apenas fruto de alguma mente criativa. Muitas destas teorias foram defendidas por longos períodos em trabalhos da historiografia tradicional. Mas, eles já começaram a ser revistos e já há novas perspectivas, novos pontos de vista.

Aquela história de que a abolição da escravidão no Brasil aconteceu graças à bondade dos ingleses e que só em 13 de maio de 1888, com a assinatura da Lei Áurea, os negros começaram a ter liberdade já não se sustentam tão facilmente.

Dez destes temas clássicos da História do Brasil foram revisitados pela Rede de HistoriadorXs NegrXs. A seguir, percebam como eles desmontam alguns dos mitos que ajudaram a sustentar o racismo por aqui. Felizmente, essas são histórias que a nova história já conta:

Ditadura Militar
A historiografia clássica do tema deixou a impressão de que a população negra brasileira esteve apática e alienada das mudanças sociopolíticas promovidas pelo regime autoritário instaurado pelo golpe de 1964. Contudo, estudos recentes têm demonstrado que os movimentos negros e outras articulações lideradas por indivíduos negros foram parte significativa das ações de resistência à ditadura.

Resistência Quilombola
A resistência quilombola foi tradicionalmente narrada desde uma perspectiva bélica e masculina. Nos últimos anos, a historiografia tem reconhecido a importância das mulheres na manutenção dos quilombos, bem como evidenciado como relações econômicas e sociais estabelecidas entre os quilombos e as áreas vizinhas foram centrais para a longevidade de experiências quilombolas.

Museus e histórias negras
Os museus naturalizaram narrativas em que o homem branco era protagonista da história do Brasil, enquanto indivíduos e coletividades negras e indígenas, quando mencionados, ficavam reduzidos à subalternidade. Uma renovação historiográfica possibilitou casos de reconfiguração do pensamento nesses espaços, permitindo destacar a centralidade desses grupos na formação social brasileira.

Democracia racial
A historiografia tradicional negou a existência do racismo, bem como a possibilidade de analisar historicamente a racialização num país fundado na escravidão de africanos, indígenas e seus descendentes. Porém, a virada historiográfica iniciada nos anos de 1980, marcou o reconhecimento da ação de pessoas negras escravizadas, libertas e livres, incluindo povos indígenas, num cotidiano marcado pela hierarquização racial.

Retorno à África
Durante muito tempo, foi dito que os retornos de libertos para a África foram feitos exclusiva- mente contra seus desejos, sobretudo no contexto de repressão que se seguiu à Revolta dos Malês, em 1835. A liberdade entre africanos libertos ficou ainda mais ameaçada. Porém, novas pesquisas mostram que eles também organizaram projetos coletivos de retorno. Propunham outra inserção para si na África e no mundo atlântico, reconexão religiosa e familiar.

Bondade inglesa
É verdade que a chave do abolicionismo inglês era a ampliação de mercados consumidores via inserção de libertos? Há vários equívocos aí, a começar por desconsiderar o crescimento das ações rebeldes dos escravizados e libertos e sua participação no consumo de mercadorias. Além disso, combater o tráfico escravista foi o centro do discurso europeu para justificar a ocupação colonial em África na segunda metade do século XIX.

Escravidão indígena
A escravização de indígenas foi menos importante que a de africanos. Não é nada disso. Pesquisas históricas comprovam que a escravidão indígena foi um processo duradouro e essencial para a montagem da empresa colonial no Brasil. Em várias regiões do país, essa prática foi contemporânea à escravização de africanos. Juntos, eles criaram formas importantes de resistência como quilombos e mocambos no Nordeste e na Amazônia.

Liberdade negra
O Brasil foi o último país a abolir a escravidão. Certo. A liberdade da gente negra foi iniciada em 1888. Errado. Desde o início do século XIX, o Brasil tinha a maior população negra livre e liberta das Américas. Pelo Censo de 1872, para cada 10 pretos e pardos, 6 nasceram livres ou conquistaram alforria. Mas liberdade não significava cidadania. Estudos sobre trajetórias de livres e libertos têm sido centrais para o entendimento do racismo no Brasil.

Famílias negras
O costume de dizer que gente escravizada era coisa ou mercadoria apagou imagens de experiências familiares entre escravizados e libertos. Porém, a nova historiografia evidencia redes de solidariedade e afetividades, além de negociações e estratégias para resguardar da opressão escravista formações familiares, sanguíneas ou não. Arranjos familiares negros se dinamizavam diante das novas condições vivenciadas por africanos e seus descendentes no Brasil.

Associativismo negro
Aprendemos que a escravidão interditava possibilidades de associação pública entre africanos e seus descendentes, o que praticamente bloqueava nosso interesse por articulações coletivas entre eles para além do cativeiro. Pesquisas sobre clubes e imprensa negra, irmandades, sociedades de apoio mútuo, partidos e sindicatos demonstram que eles criaram caminhos para promover saúde, educação, trabalho, lazer e cidadania.


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