Volta às aulas: saiba como a mochila pesada pode afetar a coluna

bahia
27.01.2019, 06:00:00

Volta às aulas: saiba como a mochila pesada pode afetar a coluna

Sociedade Brasileira recomenda que mochila deve ter até 10% do peso do usuário

Menos é mais. Eis um conhecimento que os pais precisam adquirir antes de encher a mochila dos filhos e mandá-los para a escola.  É que, de acordo com a Sociedade Brasileira de Ortopedia e Traumatologia (Sbot), a mochila deve ter até 10% do peso do usuário, evitando assim, uma sobrecarga na coluna. Ou seja, se o estudante pesa 50 quilos, o ideal é que, somando todos os materiais que estão dentro, não ultrapasse cinco quilos. Caso isso ocorra, os riscos para a saúde começam a surgir.

Quem literalmente sentiu esse peso nas costas foi a estudante do 3º ano do Ensino Médio, Angélica Nunes, 17 anos, que precisou enfrentar sessões de pilates por muitos anos para corrigir a postura e amenizar as dores causadas pelo peso excessivo da mochila escolar. 

Angélica teve que recorrer ao pilates por conta das dores na coluna provocadas pelo excesso de peso na mochila
(Foto: Mauro Akin Nassor)

Ela, que planeja cursar medicina, disse ao CORREIO que os pais sempre tiveram noção dos riscos à saúde causados pelo excesso de livros e materiais na mochila, mas “não podiam fazer nada, já que era necessário levar tudo para a escola”.

A solução encontrada foi, além do pilates, a novidade adotada pelo colégio onde ela estuda em Salvador: os famosos armários escolares.

“Foi uma alternativa que eu e meus pais encontramos, porque eu só precisava transportar para casa o livro do exercício do dia, mais nenhum outro peso. Claro que a mochila continuava - e continua - pesada, porque cadernos, classificadores e outros materiais também têm peso, mas já foi uma ajuda”, disse a jovem.

Angélica contou ainda que, com a chegada do 3º do Ensino Médio e as mudanças implantadas no método educacional do colégio, as coisas melhoraram muito. “Eles passaram a adotar os livros e módulos digitais, que a gente tem acesso pela internet. Então, não é mais necessário o material físico, que pesa”, explicou.

A mesma alternativa foi utilizada por Fernando Portugal, 59 anos, pai de dois filhos em idade escolar, de 11 e 12 anos. “A preocupação com o peso não tem a ver com a mochila, mas, sim, com a escola. Comprei, até o ano passado, mochilas com rodas e alças, mas eles [os filhos] só queriam usar as alças. Neste ano, comprei boas mochilas só com alças”. 

Mas, desde 2018, Fernando já tinha adotado a tática dos armários disponíveis na própria escola onde os filhos estudam. “Em razão do peso das apostilas e livros, fui à escola e consegui que guardassem, nos armários que cada um tem, parte desse material”, contou. 

A medida foi adotada mesmo Fernando desconhecendo o limite dos 10% estabelecido pela Sbot. “Não conhecia essa regra e, apesar de ter conseguido aliviar a carga das mochilas, acredito que terei de monitorar o peso ao longo do ano”, afirmou.

O médico ortopedista Daniel Araújo, que atua no Hospital Santa Izabel, em Salvador, também reforçou a importância de, hoje em dia, as escolas oferecerem armários para as crianças e adolescentes diminuírem os materiais transportados nas mochilas e, consequentemente, o peso carregado no dia a dia.

“Além disso, os pais devem estar atentos à programação das aulas do dia dos filhos, para evitar que eles levem materiais desnecessários”, afirmou o ortopedista.

Cuidados

Mas, nem todas as escolas dispõem dessa tecnologia. Nestes casos, quando não há alternativas, o presidente da seccional baiana da Sociedade Brasileira de Ortopedia e Traumatologia, Rogério Meira Barros, explicou que existem determinadas regras que devem ser observadas tanto pelos pais quanto pelas próprias escolas.

Segundo ele, além da regra dos 10%, os materiais mais pesados devem ser colocados no centro da mochila e próximo às costas do jovem; devem ser escolhidas mochilas de alças acolchoadas, firmes e reguláveis, com largura mínima de 4 centímetros, e os modelos com cinto abdominal ajudam a equilibrar o peso.

O médico também destacou que os pais devem dar preferência às mochilas feita de materiais leves. “Além de tudo isso, é necessário que a criança ou o adolescente carregue uma mochila que esteja posicionada em até 5 centímetros de distância da linha da cintura”, o que, segundo ele, evita a má postura.

O professor do curso de Fisioterapia do Centro Universitário Estácio da Bahia, Marcelo Lemos, ressaltou que devem ser tomados cuidados também na forma de uso das mochilas.

“Brinquedos e outros objetos que não façam parte dos materiais escolares não devem ser colocados nas mochilas. Colocar uma garrafa de água mais pesada na bolsa lateral da mochila também pode contribuir para o desequilíbrio”, afirmou.

O ortopedista Daniel Araújo, dos Hospital Santa Izabel, afirmou que é necessário adequar o tamanho da mochila ao tamanho do jovem que a carrega.

“O ideal é que, até os 8 anos, crianças usem mochilas de rodinha. Após essa idade, é possível que façam uso das mochilas de alça, devendo, no entanto, ser observado se as alças são do estão mesmo tamanho, para evitar peso maior em um dos lados do corpo”, disse.

Ainda segundo Daniel, muitas crianças têm a mania de usar a mochila pendurada em apenas um dos ombros. “Isso é muito ruim para a saúde corporal, porque há uma descompensação em um dos lados, o que pode desencadear a famosa escoliose - quando a pessoa tem um ombro mais baixo do que o outro”, explicou.

Cenário baiano

Dados do DataSus apontam que, na Bahia, entre janeiro de 2014 e novembro de 2018, 3.577 crianças e adolescentes, entre 1 e 19 anos, foram internados pelo Sistema Único de Saúde com problemas nas articulações e na coluna, entre eles escoliose, problemas na cervical, cifose e lordose.

O número representa cerca de 15% do total de internamentos registados no período de 5 anos, o que, por sua vez, corresponde a uma média de 10 internamentos por dia de jovens nesta faixa etária. A estudante Luciana Silva, 15 anos, que vai iniciar o 2º ano do Ensino Médio em 2019, foi uma das que precisaram de atendimento médico.

Em 2016, quando tinha 13 anos, a adolescente começou a sentir muitas dores nos ombros e em parte da coluna, o que fez os pais buscarem ajuda de especialistas - fisioterapeutas e ortopedistas. O resultado foi o diagnóstico de uma escoliose.

“É importante que os pais façam o acompanhamento frequente da postura dos filhos”, ressaltou Daniel Araújo.

O presidente da Sbot-Ba, Rogério Meira Barros, destacou que, quando a mochila está acima do peso e mal utilizada, “há uma mudança na postura do jovem e isso vai fazer com que ele tenha dor lombar”, disse.

Ainda segundo ele, “com a má utilização da mochila, o jovem vai projetar o corpo mais para frente, tendo reflexo na coluna cervical, o que, por sua vez, vai desencadear outros problemas em toda a coluna, como a torácica e a lombar, causando, inicialmente, dores, e podendo, no futuro, causar posturas viciosas, como escoliose ou cifose”, explicou. A escoliose de Luciana vem sendo corrigida com fisioterapia e sessões de pilates.

Mas, há casos em que a malformação óssea, apesar de não ter sido causada por mochilas pesadas ou má postura, se calcifica e é necessário recorrer a cirurgias. “Eu estou cuidando de uma paciente, que é do interior da Bahia, e, por ser muito tímida, os pais nunca a observavam sem camisa, de biquíni. Quando descobriram a escoliose, o grau de inclinação já estava maior do que 40 - o que recomendado para corrigir com fisioterapia - e ela vai ter de fazer uma cirurgia complexa de coluna”, disse Daniel Araújo.

O ortopedista ressaltou a importância de os pais sempre acompanharem os filhos em idas a pediatras e ortopedistas. “Independente de notar algum problema, é sempre recomendado a ter acompanhamento com pediatra, além de consulta de rotina com ortopedista.. Mas, o que se observa é que os pais deixam para levar quando detectam problemas mais graves, o que pode ser tarde demais”, afirmou. 

Outros vilões

Além das mochilas pesadas e utilizadas de maneiras inadequadas por crianças e adolescentes, existem outros vilões que contribuem para o surgimento precoce de problemas de coluna. Para Daniel Araújo, o principal deles é o celular.

“O grande vilão hoje é o celular, que, com o mau uso, causa a chamada ‘cifose do celular’, quando a pessoa fica com o pescoço inclinado para baixo”, explicou o ortopedista. “Os músculos da região do pescoço e dos ombros ficam contraídos e pouco oxigenados, o que provoca sensação de formigamento e queimação. Quanto maior o grau de inclinação, maior a probabilidade de sentir dor no longo prazo”, explicou.

Ainda de acordo com Daniel, a má postura na frente da televisão, ao jogar video-game, sentar no sofá e em cadeiras ou durante qualquer hora do dia, pode levar a problemas sérios de coluna, de forma estruturada, inclusive. Por isso, é necessário a prática de atividades físicas, a reeducação da postura por meio de fisioterapeutas, além de idas frequentes a ortopedistas.

Nas escolas, além da mochila pesada, outra vilã é a má postura na hora de assistir às aulas. De acordo com o médico ortopedista e sub especialista em cirurgia de coluna minimamente invasiva, da Clínica Ortosul, Rodrigo Souza Lima, ao cumprirem jornadas de, em média, cinco horas por dia, alunos de diferentes idades deixam de lado a preocupação com a saúde da coluna.

“O resultado pode aparecer imediatamente, com dores e problemas posturais. Outros, mais graves, surgem no futuro, como dores crônicas e até mesmo doenças degenerativas precoces”, ressaltou.

Principais doenças

Cerca de 80% das crianças entre 8 e 10 anos já apresentam dores nas costas, de acordo com uma pesquisa realizada na Espanha, em 2018. O estudo apontou que a mochila dos estudantes estava com peso médio de quase 7 kg, sendo que 60% carregavam o equipamento com peso superior a 10% do peso corporal.

Na mesma pesquisa, 1 em cada 4 alunos mencionaram ter sofrido com dores nas costas por mais de 15 dias durante o ano anterior. Dentre os que relataram sentir dor, 70% foram diagnosticado com escoliose, outros 30% com dores lombares ou contraturas musculares involuntárias contínuas.

Números da Organização Mundial da Saúde apontaram que 85% da população mundial adulta sente ou já sentiu dores nas costas, sendo que 70% dos problemas de coluna na fase adulta têm como causa o efeito cumulativo do excesso de peso e esforço repetitivo na adolescência.

O médico ortopedista Daniel Araújo declarou que “o risco aumenta com a idade e com o tempo de uso da mochila pesada”. Para ele, quanto antes for diagnosticado o problema na criança ou adolescente, há mais chances de reversão.

“Se demorar, por exemplo, o problema se torna uma cifose estruturada, sendo necessário corrigir com cirurgia”, afirmou.

O presidente da seccional baiana da Sbot, Rogério Meira Barros, ressaltou que a cifose estruturada, no entanto, não é causada pelo excesso de peso nas mochilas. Ela se desencadeia por outros problemas de saúde, que podem ser intensificados com o peso excessivo nas costas ou má postura - “mas, isso não é uma causa”, disse o médico.

Tratamentos

Os tratamentos para os problemas de coluna são variados, de acordo com a Sociedade Brasileira de Ortopedia e Traumatologia (Sbot). O médico Daniel Araújo explicou que, no caso da escoliose, quando a curvatura for inferior a 20 graus, a pessoa deve apenas manter a observação do problema com idas frequentes ao ortopedista e fisioterapeuta.

De acordo com o presidente da seccional baiana da Sbot, “essa é a chamada escoliose funcional, que pode ser corrigida com idas ao fisioterapeuta, pilates, RPG e exercício físico”. O peso excessivo de mochilas pode ser atribuído como uma das causas do problema.

Já quando a curvatura estiver entre 25 e 30 graus, principalmente em crianças e adolescentes ainda em fase de crescimento, é recomendada a utilização de órteses, os famosos colete. O equipamento vai ser escolhido, segundo Daniel, a depender do tipo de curvatura. A partir destes casos, já não se pode mais apontar as mochilas pesadas como causa do problema, mas, sim, como intensificadoras da escoliose e das dores.

No entanto, quando a curvatura atinge 40 graus, como explicou o ortopedista, a situação é considerada grave e reversível apenas com cirurgia.

“Mesmo assim, não há certeza de que a cirurgia vai corrigir 100% o desvio na coluna”, afirmou. Rogério Meira Barros afirmou que esses são os casos de escoliose estrutural, que acontece em decorrência de outras doenças.

Os casos de lordose, em estágio inicial, exigem tratamento como acompanhamento médico, RPG e fisioterapia. No entanto, em caso de dores, não são descartados o uso de anti-inflamatórios, analgésicos e relaxantes musculares.

Os casos mais graves, segundo o médico Daniel Araújo, podem exigir também o uso de coletes. Já as cirurgias para estabilização da coluna vertebral são recomendadas para adultos em situações especiais, quando nenhum outro tratamento for suficiente.

Confira abaixo as principais dicas para uma mochila (ou postura) ideal:

  • Conferir sempre o que crianças e adolescentes carregam na mochila, lembrando que o peso total não deve ultrapassar 10% do peso corporal do jovem;
  • Evitar materiais soltos dentros das mochilas. As melhores são as que possuem compartimentos para separar os materiais, sendo que os mais pesados devem ser sempre colocados no centro e próximo às costas;
  • Mesmo se a mochila for de carrinho, é importante que ela também tenha alças e que estas sejam usadas ao subir as escadas. Além disso, o puxador das mochilas deve ficar na altura do quadril da criança, evitando que ela incline o corpo para caminhar;
  • Ao comprar a mochila, a melhor escolha é a que tem duas tiras, alças acolchoadas, reguláveis e firmes, com largura mínima de 4 centímetros;
  • Além das alças, as mochilas devem ter um cinto abdominal, que ajudam a equilibrar o peso, fazendo com que a criança ou adolescente não tensione para frente ou para trás;
  • Mochilas muito pesadas, além de lesões na coluna, podem causar problemas no pescoço, joelhos e quadril.

Confira sete dicas para evitar dores nas costas:

  • Manter a boa postura: a dica é manter a posição “neutra” da coluna, aquela com a curvatura natural da lombar, sem esforço;
  • Carregar objetos próximos ao corpo: ao carregar objetos, principalmente os mais pesados, quando mais próximos eles estiverem do corpo, menor será o impacto na coluna;
  • Sentar de maneira correta: é comum dizer que a posição ideal é aquela que os joelhos e quadris estão dobrados a 90º. No entanto, essa posição faz com que se perda a curvatura neutra da coluna. Então, a dica é sentar com um ângulo entre as coxas e o tronco seja maior do que 90º. Para isso, é importante ter um apoio abaixo dos quadris, como uma almofada;
  • Ter intervalos entre tempos longos sentado: em caso de estudante ou quem trabalha sentado, é importante levantar algumas vezes para alongar o corpo, devendo evitar inclinar o tronco para frente, com os braços pendurados;
  • Manter o condicionamento físico: é importante praticar exercícios regularmente, para manter o bom condicionamento físico e evitar dores musculares;
  • Evitar dobrar a coluna ao acordar: a melhor forma de se espreguiçar é mantendo o corpo e a coluna esticados. Curvar para frente após um longo período deitado é prejudicial à coluna;
  • Em caso de dores contínuas, procurar um profissional: se automedicar é um grande erro. Então, caso as dores de coluna persistam, é fundamental que se busque a ajuda de um médico especializado.

*Com supervisão do chefe de reportagem Jorge Gauthier


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