Voz de Ellie, do premiado jogo The Last of Us, é de artista baiana

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31.01.2021, 07:00:00

Voz de Ellie, do premiado jogo The Last of Us, é de artista baiana

Nascida em Salvador, Luiza Caspary dubla protagonista feminina em um dos jogos mais cultuados da história da indústria eletrônica

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O sucesso de uma baiana não é exatamente uma novidade, um segredo ou uma revelação, como canta Gal Costa na música ‘Minha Voz, Minha Vida’, de 1982.

Luiza Caspary, no entanto, subverte completamente as expectativas ao atingir o estrelato vocal em outra vertente. Nascida em Salvador, aos 31 anos, a artista é sucesso absoluto no público geek por dublar para o português uma das personagens mais icônicas do universo dos games: a adolescente Ellie, da franquia The Last Of Us - lançada originalmente em 2013.

O premiado jogo, produzido pela gigante americana Sony, é considerado um dos melhores da história da indústria eletrônica.  Em junho passado, durante o lançamento da parte II, alcançou cifras milionárias recordes, avançando também em conversas para uma adaptação de roteiro numa série de TV.

A história do game é ambientada em um mundo pós-apocalíptico e dominado por zumbis infectados, mas passa longe de ser mera ficção científica ou puro entretenimento descartável. Temas como drogas, solidão, feminismo e relações LGBT estão presentes na trama e, em meio a tiros, explosões e produção de bombas caseiras, fazem parte da densa narrativa e dos inúmeros desafios do jogador.

 Ellie é a protagonista do jogo The Last Of Us II e luta contra zumbis infectados (Foto: Divulgação)

“Nenhum dos meus trabalhos artísticos até hoje teve o mesmo alcance da Ellie. Recebo muitos pedidos dos fãs para que grave áudios xingando eles, falando palavrão mesmo, exatamente como Ellie faz no jogo. Acho engraçado demais porque é algo extremamente inusitado”, diz Luiza, aos risos.

Para combater monstros canibais e sobreviver em um espaço inóspito, no qual a presença humana foi reduzida a pequenas aldeias com recursos limitados, palavras de ternura não cabem. Ellie, portanto, solta a voz abusando de palavrões como “porra”, “caralho”, “vá se foder” e “filho da puta”...

“Eu sempre fui muito palavrônica, então não tive dificuldade de encaixar os meus próprios pra dublar Ellie. É curioso porque, quando a gente recebe o texto do jogo, a depender do tradutor que entregou a parte, tem uns que usam “cacete”, outros que usam “caramba”, outros que usam “caralho”. Eu resolvi deixar tudo numa forma só, do jeito que imaginei que a Ellie falaria em situações dramáticas, como as que ela enfrenta durante o jogo”, diz Luiza.

Bahia, arte e acessibilidade
Embora tenha o registro de soteropolitana na certidão de batismo, a verdade é que Luiza nasceu na Bahia muito por acaso. O pai Luiz Affonso, gaúcho, em 1986, recebeu um convite para dar aula de astronomia na Escola de Engenharia Eletromecânica da Bahia (EEMBA), até hoje presente no bairro de Nazaré. A mãe Márcia Caspary, paulista, foi junto, carregando a primogênita do casal, a recém-nascida Marina.

Em Salvador, nasceria justamente a segunda filha, Luiza, que viveria apenas mais um ano por estas bandas, antes de voltar com a família para o Rio Grande do Sul. A única baiana da família diz ter qualidades muito próprias, absorvidas justamente do ambiente onde foi gestada.

Luiza Caspary é cantora, atriz e dá voz a personagem Ellie (Foto: Renata Monteiro/Divulgação)

“Eu tenho um lado muito caloroso, de querer conhecer gente diferente, me aproximar de muitos mundos e ser mais despojada, mais fácil de fazer amizades e ter contato. Tenho certeza que é por conta de ter nascido em Salvador”, assegura.

Ainda na infância, Luiza foi se aproximando das artes, muito por influência da mãe, atriz. Atuou em peças (em uma delas com a presença ilustre de Paulo Autran na plateia), passou para as aulas de canto e aprendeu a compor suas próprias músicas.

Filiada à MPB, já adulta, passou a atuar em peças publicitárias – contabiliza mais de 10 mil no currículo – e trilhou o caminho na audiodescrição. O recurso permite narrar cenas do que está acontecendo (em filmes, peças, óperas) para pessoas com deficiência visual, intelectual, dislexia ou mesmo para idosos. 

Em seus clipes, Luiza Caspary adotou permanentemente as Libras, língua brasileira de sinais, engajando-se na causa da acessibilidade.

Vídeo de Luiza durante o festival de acessibilidade

“Não costumo dizer que esta é uma bandeira minha, porque não tenho esse lugar de fala. Mas meus trabalhos estão muito ligados à acessibilidade sim, pois quero me comunicar com o público, com todos os públicos. E esta é uma forma de comunicação, de me conectar com tanta gente... Pessoas que, muitas vezes, não são lembradas nas produções audiovisuais. Uma das maiores emoções que tive na vida foi cantar uma música no palco e perceber um público enorme me acompanhando e se comunicando por Libras”, relembra, orgulhosa.

De volta à terra
Após uma viagem a Pernambuco, participando do Festival de acessibilidade Ver Ouvindo, resolveu esticar o roteiro em mais uns dias e fazer uma escala em Salvador. Na época, aos 25 anos, retornava pela primeira vez à cidade natal, desde a partida ainda como cria de colo.

“Foi um sentimento lindo voltar. Fiquei encantada com o Pelourinho, com o jeito amigável das pessoas e o clima que envolve a cidade. Eu e minha mãe fomos até o prédio onde morávamos e até apertamos o interfone pra rever o apartamento... Infelizmente, ninguém atendeu. Queria muito ver o lugar onde vivi meu primeiro ano”.

Do encantamento veio a promessa feita a si mesma de, muito em breve, uma nova visita. Como consequência, também, uma livre adaptação de imaginar como Ellie viveria se abandonasse a distopia futurista dos games e assentasse praça justamente na Bahia.

“Ellie se daria muito bem em Salvador. Ela tá tão acostumada com pessoas tão raivosas e com tanta disputa que, na Bahia, ela teria todo o acolhimento que sempre sonhou. Acho que ela iria tirar o tênis, botar uma rasteirinha... Largar a arma e trocar por uma bike. Seria uma pessoa menos solitária e mais feliz”, brinca.

A Bahia é pop. A última de nós que acolheria bem essa menina Ellie.

[Coluna dedicada ao primo Rodrigo Uzêda, parceiro de vídeo-game desde a tenra infância]

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