Cadastre-se e receba grátis as principais notícias do Correio.
Rodrigo Daniel Silva
Publicado em 4 de setembro de 2026 às 05:30
“Por vocês, eu dou a minha vida, porque a minha vida é da Bahia e dos baianos”. A frase foi dita certa vez pelo ex-senador Antonio Carlos Magalhães durante um discurso que, hoje disponível no YouTube, já soma mais de 45 mil visualizações. >
Amigos e familiares afirmam que o amor pela Bahia foi uma das marcas mais fortes da trajetória pública de ACM, que, se estivesse vivo, completaria 99 anos nesta sexta-feira (4). Segundo eles, foi justamente esse sentimento que o levou, ao longo de décadas, a travar diversas batalhas políticas e institucionais em defesa dos interesses do estado.>
Para o ex-conselheiro do Tribunal de Contas dos Municípios (TCM) Fernando Vita, amigo pessoal de Antonio Carlos por décadas, ACM soube usar sua grande capacidade de articulação política para defender os interesses da Bahia ao longo da vida pública. Um dos episódios que, segundo ele, melhor simboliza essa atuação foi a batalha para trazer a Ford ao estado. A montadora permaneceu instalada em Camaçari por cerca de duas décadas, até encerrar suas atividades em 2021, durante o governo de Rui Costa (PT).>
Vita relembra que, desde o início da década de 1990, havia um forte interesse do governo baiano em atrair grandes indústrias. Chegaram a ser mantidas conversas com grupos de países asiáticos para ter a produção de automóveis no estado. Paralelamente, as montadoras americanas Ford e General Motors (GM) avançavam em negociações para instalar fábricas no Rio Grande do Sul.>
Antes de voltar os olhos para a Bahia, a Ford havia negociado um investimento de US$ 1,3 bilhão no estado gaúcho, ainda durante o governo de Antônio Britto (MDB). O cenário, porém, mudou após a derrota de Britto para o petista Olívio Dutra. O novo governo se recusou a manter todos os benefícios concedidos anteriormente às montadoras, o que abriu uma janela de oportunidade para que a Bahia entrasse na disputa pela fábrica da Ford.>
O governo baiano chegou a publicar um anúncio no jornal O Estado de S. Paulo com uma provocação direta às duas montadoras: “GM e Ford, venham para a Bahia. Aqui a gente honra os compromissos”.>
Mas trazer a Ford para o estado exigiria uma articulação que ultrapassava as fronteiras da Bahia. Então presidente do Senado, Antonio Carlos Magalhães entrou em campo junto ao governo federal, comandado por Fernando Henrique Cardoso (FHC), para viabilizar a edição de uma medida provisória que garantisse novos incentivos fiscais às empresas do setor automotivo. Após uma intensa articulação política liderada por ACM, a medida foi aprovada, o que pavimentou o caminho para a instalação da montadora em Camaçari.>
Para Vita, o episódio ajuda a dimensionar uma das principais características de Antonio Carlos: a capacidade de transitar por diferentes ambientes e construir pontes com personagens dos mais variados campos.>
“ACM era um grande mágico político. Ele conversava dentro da política e conversava com todo mundo, do deputado de mais baixo clero ao presidente da República, do cardeal primaz ao mais mísero pastor evangélico. Então, ele abria várias frentes de conversa”, ressaltou Vita.>
Para o ex-senador Waldeck Ornelas, a morte de Antonio Carlos Magalhães, em julho de 2007, deixou uma lacuna na Bahia: a ausência de uma voz com força política suficiente para mobilizar diferentes setores e defender os interesses do estado no cenário nacional. Na avaliação dele, essa atuação estava diretamente ligada ao amor profundo que ACM mantinha com a Bahia.>
“ACM sempre foi um grande defensor dos interesses da Bahia. Ele sempre deixava claro que ficaria em defesa dos interesses da Bahia. E, com isso, conseguiu que o estado efetivamente tivesse uma participação crescente durante o período de sua atuação política”, declarou.>
A instalação da Ford em Camaçari, porém, não foi o único episódio em que Antonio Carlos teve papel de destaque nas articulações políticas em favor do desenvolvimento econômico baiano. Filho do ex-senador, o empresário Antonio Carlos Júnior recorda que o pai também teve atuação decisiva na implantação do Polo Petroquímico de Camaçari, um dos projetos que transformaria a economia do estado.>
Na década de 1970, diz Antonio Carlos Júnior, a economia baiana ainda tinha forte dependência de atividades tradicionais, sobretudo da produção de cacau. A implantação do polo ajudou a acelerar o processo de industrialização e a mudar o perfil econômico da Bahia.>
Idealizado ainda no governo de Luiz Viana Filho, o projeto avançou durante a primeira gestão de ACM no governo da Bahia e foi concretizado na administração seguinte, comandada por Roberto Santos.>
“Ele era governador. Foi lá e lutou. Conseguiu a garantia do então presidente da Petrobras, Ernesto Geisel, que depois viria a ser presidente da República, para a implantação do polo. E aí conseguiu implantá-lo exatamente naquela época. Então, se não tivesse o Polo Petroquímico, o que seria da Bahia dos anos 70 para cá?”, afirmou Antonio Carlos Júnior.>
Waldeck Ornelas avalia que o próprio Polo Petroquímico perdeu parte de sua relevância nos últimos anos e relaciona esse processo à ausência de uma mobilização política mais intensa em torno de sua modernização.>
“Tem perdido importância relativa recentemente por causa da defasagem tecnológica. Mas, aparentemente, não há nenhuma mobilização nem nenhum acompanhamento para que essa situação possa ser superada”, ponderou.>
Para o ex-prefeito de Salvador e neto de Antonio Carlos, ACM Neto, o avô fez da Bahia a grande causa de sua vida. “Seu amor pelo estado, pelo jeito de ser do baiano e pela cultura de nossa terra se transformou em trabalho, coragem e grandes realizações. ACM foi muito importante para impulsionar o processo de industrialização com o Polo Petroquímico de Camaçari, foi o maior responsável pela chegada da Ford, construiu o Centro Administrativo da Bahia e marcou Salvador com as grandes avenidas de vale que ajudaram a modernizar a cidade. Com protagonismo e força política, ACM levou a voz da Bahia ao cenário nacional, sem jamais deixar de lado o orgulho de ser baiano”, ressaltou.>
Antonio Carlos Magalhães também teve atuação marcada pela defesa de pautas sociais e pela mobilização em torno de iniciativas voltadas às parcelas mais pobres da população, inclusive na Bahia. Entre essas bandeiras, defendeu com vigor a valorização do salário mínimo e a criação de mecanismos permanentes de combate à pobreza.>
Em julho de 1999, apresentou no Senado uma proposta destinada a financiar ações de combate e erradicação da pobreza. A iniciativa enfrentou resistências no meio político e também de entidades como a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), que se posicionou de forma contrária sob o argumento de que a medida poderia representar aumento da carga tributária. Mesmo diante das críticas, ACM manteve-se firme na defesa do projeto.>
“O Fundo de Combate à Pobreza foi um negócio que ele ‘craneou’ nos mínimos detalhes, deu forma e levou ao Congresso. O governo encampou, e fez com que, do ponto de vista de orçamento, Fernando Henrique destinasse recursos para os primeiros programas sociais, que vieram a ser reunidos e virar o Bolsa Família”, afirmou Fernando Vita.>
Em uma ocasião, ao ser questionado se havia algum cálculo político por trás de suas recorrentes declarações de amor à Bahia, Antonio Carlos respondeu sem hesitar: “Não. Aí é um caso de amor à terra, mais do que uma estratégia política”.>