Cadastre-se e receba grátis as principais notícias do Correio.
Maiara Baloni
Publicado em 15 de julho de 2026 às 08:06
O preço que você paga no prato de comida e na hora de abastecer o carro no posto tem relação direta com o caminho que esses produtos fazem pelas estradas, trilhos e portos até chegar à sua cidade. Para desvendar esse mapa invisível da economia brasileira, o IBGE reuniu de forma inédita registros de rodovias, ferrovias, portos e dutos no estudo “Logística dos Transportes 2024”, divulgado nesta segunda-feira (13). >
O levantamento cruza dados de diversos órgãos federais, como a Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT), a Agência Nacional de Transportes Aquaviários (ANTAQ), a Agência Nacional de Aviação Civil (ANAC), o Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (DNIT) e a Empresa de Pesquisa Energética (EPE), para mostrar onde estão os maiores gargalos do país e explicar como a falta de opções de transporte encarece as compras do dia a dia. >
Rodovias baianas
O estudo mostra que o abastecimento do país se concentra em grandes eixos que ligam as áreas de produção aos grandes centros urbanos e aos portos para exportação. No caso dos grãos (como soja e milho) e dos combustíveis, o fluxo corre do Centro-Oeste e do interior do país em direção aos portos de Santos (SP), Paranaguá (PR) e Itaqui (MA). >
Para o consumo do dia a dia, como comida e produtos industriais, a circulação acontece perto das grandes capitais e regiões metropolitanas. É nesse vai e vem diário que o país se mostra extremamente dependente dos caminhões, que fazem a ligação final de quase tudo o que consumimos.>
A Bahia ocupa uma posição de destaque no Nordeste, funcionando como a principal porta de entrada e saída de mercadorias da região. O estado ganha relevância pelas rodovias federais que cortam seu território, servindo de caminho obrigatório para ligar a produção nordestina aos mercados do Sudeste. Além disso, os portos de Salvador e de Aratu são fundamentais para movimentar cargas pesadas, como produtos químicos e combustíveis. >
Por outro lado, o estado perde competitividade pela falta de opções. A produção agrícola do interior baiano precisa rodar distâncias enormes de caminhão porque a rede de ferrovias é fraca, praticamente não existe e a que existe é pouco integrada. Sem trilhos para baratear o custo das viagens longas, o transporte fica mais lento, as rodovias ficam sobrecarregadas e o frete sobe, o que acaba pesando no bolso de quem produz e de quem consome.>
A pesquisa do IBGE deixa claro que o Brasil é um país que roda no asfalto. As estradas são as grandes campeãs de movimento, pois são as únicas com capilaridade para chegar a praticamente qualquer município e entregar mercadorias direto nos supermercados e comércios locais. >
As ferrovias carregam volumes gigantescos, mas ficam restritas a cargas pesadas como minério de ferro e grãos, correndo apenas em corredores bem específicos controlados por poucas empresas. Já os portos são os gigantes do comércio com outros países e da cabotagem (o transporte por navio entre cidades da nossa própria costa), mas eles não funcionam sozinhos, dependem sempre de trens e caminhões para trazer e levar as mercadorias de dentro do país até a beira da água.>
A forma como essas cargas circulam pelo país ajuda a explicar por que a inflação aperta no supermercado e no posto de gasolina. Quando um caminhão precisa rodar por estradas ruins, o gasto com manutenção aumenta. Se o preço do óleo diesel sobe ou o pedágio fica mais caro, o custo da viagem dispara imediatamente. >
Como a comida que chega à sua mesa viaja quase sempre de caminhão, qualquer aumento no frete é repassado para o preço da batata, do arroz e da carne. As regiões do país que conseguem combinar o transporte de navio ou trem para as distâncias longas e usar o caminhão só no trecho final conseguem gastar menos com logística e segurar melhor os preços, enquanto quem depende só da estrada fica muito mais exposto a esses aumentos.>