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Da Redação
Publicado em 28 de fevereiro de 2013 às 07:29
- Atualizado há 3 anos
Thais Borgesthais.mascarenhas@redebahia.com.br>
Se você tem uma cabeleira de fazer inveja e alguém vier em sua direção com uma tesoura, fuja. De acordo com comerciantes do ramo, os casos de mulheres que são forçadas a entregar os cabelos a assaltantes são mais comuns do que se imagina. >
A “modalidade” de roubo ganhou repercussão com o caso de uma estudante de 14 anos que teve a cabeleira roubada por outra adolescente, 17 anos, em Mussurunga, como o CORREIO mostrou nesta quarta. Segundo a família da vítima, a autora do crime já tinha planos: fazer um megahair. >
Lojas vendem cabelo de todo tipo, mas cliente tem que ir cortar lá (Foto: Robson Mendes)>
Poder revender a mercadoria roubada sem ser descoberto é um dos motivos para o crescimento deste tipo de crime, na opinião de quem trabalha com a venda (lícita) de cabelos. “Quando os policiais vão descobrir, o cabelo já foi até vendido”, diz a gerente da loja Madeixas Cabelos Naturais, Leona Santana.“Clientes chegam aqui para comprar o cabelo depois de passar por um assalto. Já teve uma até que foi assaltada no Estádio de Pituaçu”, lembra Leona. >
Na loja que ela gerencia, um megahair custa, em média, R$ 700. Os mais longos podem variar de R$ 1 mil a R$ 1,8 mil. “É um pouco caro para a realidade de algumas pessoas, então, às vezes eles (os assaltantes) já têm clientes certas para vender”. >
Loiras naturais devem tomar ainda mais cuidado. Para ter o cabelo com a cor menos comum, tem gente que paga até R$ 3 mil. O mais popular, ainda assim, é o castanho cacheado. “É o mais cobiçado, estilo Taís Araújo”, revelou Leona.>
Medo Foi justamente por ter cabelos cacheados que a operadora de caixa Daiane dos Anjos, 27, foi mais uma vítima deste tipo de crime, no ano passado. Dona de cachos castanhos que iam até a metade das costas, ela foi surpreendida dentro de um ônibus que pegou no Terminal da França. >
“Eu estava dormindo, daí ele sentou no banco atrás de mim e disse que era um assalto”, contou. Segundo Daiane, o bandido mandou que ela descesse no ponto de ônibus seguinte. >
Assustada e sem entender o que estava acontecendo, a jovem obedeceu. Já na rua, o homem ordenou que ela parasse de andar. “Achei que ia levar minha bolsa, mas ele veio, amarrou meu cabelo e cortou”, lembra. >
O homem não estava armado, mas ameaçou Daiane. “Ele mandou eu ir embora andando, sem olhar para trás e disse que tinha um amigo na esquina que me daria um tiro na cabeça se eu me virasse”, conta Daiane. >
Hoje, os cabelos naturais da operadora vão até os ombros e ela usa megahair para aumentar o volume. “Foi traumatizante. Não quero mais cabelo grande”, desabafa Daiane, que chegou a registrar queixa na 11ª Delegacia, de Tancredo Neves.>
Segundo Edna de Jesus, proprietária da loja Black and White, no Orixás Center, os roubos de cabelo não são recentes. “Já teve uma moça que chegou chorando aqui, porque levaram o cabelo dela na raça. E outras lojas já foram assaltadas, perderam tudo”, afirma.>
Em seu estabelecimento, a empresária só vende cabelos de quem aparece para vender lá mesmo. “Mas o mercado já não dá mais lucro como antes”, lamentou. >
Tem quem diga que nem tem valido a pena para os comerciantes. “A gente compra um cabelo por R$ 500, cortando direto da cliente, e acaba vendendo por R$ 650”, exemplificou a gerente de outra loja no Orixás Center, Maria Marlene dos Santos. “Estamos praticamente trocando dinheiro”. A visão de Maria, entretanto, não é a mesma dos ladrões. >
De acordo com comerciantes do Orixás Center, onde funcionam mais de 15 lojas de megahair, três estabelecimentos foram roubados nos últimos meses. Em 2011, a loja Kaki foi arrombada. Na época, os proprietários contaram um prejuízo de R$ 30 mil em cabelo. De acordo com a assessoria da Polícia Civil, não existe um levantamento específico sobre roubos de cabelos porque o crime é registrado como qualquer outro roubo. >
Adolescente teve o cabelo cortado em assalto em Mussurunga (Foto: Reprodução)>
Negócio Enquanto muitos comerciantes reclamam das vendas, quem quer lucrar com o próprio cabelo tenta aumentar o preço. A estudante de Comunicação Manuella Cardoso, 20, pretende ficar até dezembro sem cortar os fios. “Fui para São Paulo no Carnaval e vi muitas pessoas com placas dizendo que compravam cabelos. Daí, tive a ideia”, conta ela, que está com os cabelos quase na cintura.>
Com as madeixas loiras e onduladas, Manuella pode acabar ganhando bastante dinheiro, mas vai ter que ser boa de negócio. Na loja e salão de beleza Mistex, a proprietária, Nilda Gouveia, diz que não há uma tabela fixa com valores. “Às vezes eu compro um cabelo por RS 100 e vendo por R$ 300, por exemplo. Às vezes, só R$ 200. Então vai variando. Depende do cabelo”, conclui.>