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Garoto de programa, briga por R$ 50 e fuga: a morte do irmão de humorista da Globo que parou Salvador

Vítima conheceu suspeito no Porto da Barra e foi morta em apartamento

  • Foto do(a) author(a) Wendel de Novais
  • Wendel de Novais

Publicado em 3 de julho de 2026 às 05:06

Sidclay confessou ter esfaqueado Mauro em apartamento
Sidclay confessou ter esfaqueado Mauro em apartamento Crédito: Arquivo CORREIO

O assassinato do gerente de documentação e pesquisa do Instituto de Radiodifusão Educativa da Bahia (Irdeb), Mauro José Mascarenhas Pimentel dos Santos, 46 anos, é um dos casos de maior repercussão da crônica policial baiana dos anos 2000.

Irmão do humorista Cláudio Manoel, então integrante do Casseta & Planeta, Mauro foi encontrado morto a facadas no banheiro do apartamento onde morava, no bairro da Federação, em Salvador, em novembro de 2007.

O crime mobilizou a polícia, provocou forte comoção entre familiares, colegas de trabalho e integrantes do movimento LGBTQIA+ e terminou, meses depois, com a condenação do ex-detento Sidclay Costa Silva a 22 anos de prisão por latrocínio.

Mauro foi morto a facadas no próprio apartamento por Arquivo CORREIO

Dia do crime

A descoberta do crime aconteceu na tarde de 5 de novembro de 2007. Mauro não havia comparecido ao trabalho nem atendia às ligações dos colegas ao longo do dia. Preocupada com o desaparecimento, uma funcionária do Irdeb decidiu ir até o apartamento dele, levando uma cópia da chave que o gerente mantinha guardada em sua gaveta no órgão.

Ao entrar no imóvel, localizado no Edifício Cedro, no Condomínio Vereda do Bosque, a colega encontrou manchas de sangue espalhadas pela sala. Seguindo o rastro, chegou ao banheiro, onde localizou Mauro sem vida, com diversas perfurações provocadas por faca no rosto e no tórax. Em estado de choque, ela chamou a polícia.

Peritos do Departamento de Polícia Técnica encontraram no apartamento uma faca limpa, que poderia ter sido utilizada no crime, além de um preservativo usado e um cigarro de maconha. A cena levantou diferentes hipóteses para a investigação.

Cláudio Manoel, o 'Seu Creysson' do Casseta & Planeta por Arquivo CORREIO

Inocente foi alvo

As primeiras suspeitas recaíram sobre o mecânico elétrico Marcos dos Santos Silva, que morava com Mauro desde 2004. Ele chegou a ser conduzido à delegacia e tratado inicialmente como principal suspeito. No entanto, exames de lesão corporal mostraram que Marcos não apresentava qualquer ferimento compatível com uma luta corporal recente. Diante da ausência de provas, ele foi liberado poucas horas antes do sepultamento da vítima.

Enquanto a polícia buscava respostas, familiares e amigos prestavam as últimas homenagens a Mauro no Cemitério Jardim da Saudade. Bastante abalado, Cláudio Manoel viajou a Salvador para acompanhar o enterro do irmão e fez um apelo para que o responsável pelo crime fosse encontrado. “Meu irmão era uma pessoa muito querida por todos e acabou morto de uma forma tão brutal. Espero que os culpados sejam punidos”, declarou na ocasião.

Colegas do Irdeb também lembraram Mauro como um profissional respeitado e querido. Letícia Barbosa, que encontrou o corpo, afirmou que ele era “mais do que um colega de trabalho”. Já a jornalista Maria Alcina Pipolo destacou sua competência e amizade. Diante da violência do assassinato, o Grupo Gay da Bahia chegou a levantar a hipótese de que Mauro pudesse ter sido vítima de um crime motivado por homofobia, cobrando uma investigação.

As investigações, porém, ganharam um rumo diferente poucos dias depois. Com autorização judicial, policiais rastrearam as últimas ligações realizadas pelo telefone celular de Mauro após o crime. O trabalho permitiu identificar um chip registrado em nome de outra pessoa, utilizada pelo suspeito.

Sidclay confessou ter matado Mauro por Arquivo CORREIO

Chip como pista

A partir desse rastreamento, investigadores chegaram a um homem em Jaguaripe, que revelou ter apenas emprestado seu CPF para que um conhecido comprasse o chip telefônico. A informação levou os policiais até familiares do suspeito e, posteriormente, à cidade de Aracaju, em Sergipe.

Na madrugada de 13 de novembro, após cerca de 24 horas ininterruptas de diligências e mais de 600 quilômetros percorridos, agentes da 7ª Delegacia localizaram e prenderam Sidclay Costa Silva, de 23 anos, ex-detento com antecedentes por furto. Ele estava escondido na casa da mãe, no Bairro Industrial, na capital sergipana.

Levado para Salvador, Sidclay confessou que havia conhecido Mauro poucas horas antes do crime em um bar no Porto da Barra. Segundo seu relato, os dois combinaram um programa sexual no valor de R$ 50 e seguiram para o apartamento da vítima, onde beberam vodca e mantiveram relações sexuais.

Ataque por R$ 50

Em depoimento, o acusado afirmou que matou Mauro após um desentendimento relacionado ao pagamento do programa e à recusa em manter determinado tipo de relação sexual. Segundo sua versão, a vítima teria pegado uma faca para atacá-lo, obrigando-o a reagir durante uma luta corporal.

A Polícia Civil, entretanto, descartou essa versão. Os investigadores destacaram que Sidclay não apresentava lesões compatíveis com uma briga, enquanto Mauro sofreu diversos golpes de faca e apresentava hematomas pelo corpo. Além disso, não fazia sentido, segundo a polícia, que a vítima tentasse matar um desconhecido dentro do próprio apartamento.

Outro elemento reforçou a conclusão dos investigadores. Após o homicídio, Sidclay roubou o telefone celular e o aparelho de DVD de Mauro, revirou móveis e guarda-roupas em busca de dinheiro e fugiu para Sergipe no dia seguinte. Para a delegada Maria Dahil Sá Barreto, responsável pelo caso, o conjunto das provas demonstrava que o objetivo principal era o roubo, caracterizando o crime como latrocínio.

Desabafo e condenação

Durante a apresentação do suspeito, Cláudio Manoel ficou frente a frente com o homem acusado de matar seu irmão. Em um dos momentos mais marcantes do caso, o humorista desabafou: “Do fundo do meu coração, espero que você apodreça na prisão”. Em seguida, fez um alerta para que as pessoas redobrassem os cuidados ao conhecer desconhecidos, ressaltando, porém, que a imprudência da vítima jamais justificaria um crime daquela violência.

Menos de um ano depois, a Justiça condenou Sidclay Costa Silva a 22 anos de prisão por latrocínio. A sentença acolheu o entendimento defendido pela Polícia Civil e pelo Ministério Público de que Mauro foi morto para que seus bens fossem roubados, afastando a tese apresentada pelo acusado de que o homicídio teria ocorrido apenas após uma discussão.

O assassinato de Mauro José Mascarenhas marcou profundamente familiares, amigos e colegas de trabalho. Além da repercussão nacional provocada pelo parentesco com um dos integrantes do Casseta & Planeta, o caso evidenciou os riscos da violência urbana e da criminalidade patrimonial. Quase duas décadas depois, o crime continua sendo lembrado como um dos episódios policiais de maior impacto na Bahia, tanto pela brutalidade da execução quanto pela rápida elucidação que levou à prisão e condenação do responsável.

Tags:

Mauro José Mascarenhas Pimentel dos Santos Sidclay Costa Silva seu Creysson Humorista da Globo