Cadastre-se e receba grátis as principais notícias do Correio.
Raquel Brito
Publicado em 24 de junho de 2023 às 06:00
Em dias de apresentação, Marcos Oliveira acorda cedo para se arrumar. Primeiro, vem a maquiagem dos olhos, depois a pele. A segunda etapa é vestir a meia, a cinta modeladora, os seios de silicone e o sutiã. Na fase final, vem a lace, essencial para o traje. No fim dos preparativos, já não é mais Marcos quem está ali, e sim Cléo Vianna, a quem ele descreve como sua 'drag junina'. >
Marcos é professor de dança e integra, desde 2016, a quadrilha Cia. Junina da Ilha, em Vera Cruz. “Eu dancei de 2016 a 2019, sempre como cavalheiro. Mas, todos esses anos, com uma coisa estranha no meu corpo. Eu já me sentia estranho. É aquela coisa que a gente sente, mas não consegue explicar. Por mais que eu tentasse dar o máximo de mim, não conseguia”, diz. A dança das damas, por outro lado, sempre o encantou – as saias rodadas, a performance e os passos. Só não achava possível estar nesse lugar. >
Foi vendo colegas transexuais e travestis dançando em papéis de feminilidade que Oliveira percebeu que talvez estivesse ali a solução para a estranheza que sentia. Desde então, começou sua luta para dançar de dama e, em 2020, apesar das críticas que recebia e das incertezas que passou a sentir, Cléo Vianna veio ao mundo. >
A história de Cléo não é a única do tipo. As quadrilhas estilizadas são uma parte fundamental do São João nordestino e, hoje, a maioria das que estão destaque na Bahia têm drag queens, travestis e mulheres trans entre os brincantes. A presença desses grupos traz a essa manifestação cultural mais um caráter de resistência que as quadrilhas podem ter; além de reinventar as divisões de gênero tão definidas que existem no costume de dançar quadrilha, mas sem deixar de lado a essência dos festejos juninos.>
Entretanto, até pouco tempo, essa participação era podada nas quadrilhas baianas. Até oito anos atrás, o estatuto da Federação Baiana de Quadrilhas Juninas (Febaq) não reconhecia a participação da população lgbt+ no corpo de dança dos grupos. As quadrilhas que desobedecessem a regra estavam sujeitas à perda de pontos. >
Em 2017, as coisas começaram a mudar. Com auxílio do Grupo Gay da Bahia (GGB) e de uma advogada convidada, a Febaq alterou o texto do artigo referente à inclusão de pessoas transexuais e travestis nos festejos juninos. Hoje, é assim que consta no estatuto: “Artigo 4.3: Na apresentação da Quadrilha estará permitida a participação de Travestis e Transexuais que, comprovadamente, vivam socialmente de acordo com a identidade de gênero auto-declarada”.>
Marcelo Cerqueira, presidente do Grupo Gay da Bahia, afirma que a Federação baiana procurou o grupo para avaliar como deixar as quadrilhas mais inclusivas. “Antes, essas pessoas podiam participar das quadrilhas, mas não podiam ter um par. Elas podiam ser atração, destaque, mas não podiam ter um par para dançar, porque o critério de julgamento é muito rígido nas competições. E não ter o casal binário é uma falta grave. Mas, essa regulação está mudando aos poucos, porque a presença de transexuais e travestis é muito grande em todos os estados nordestinos”, explica Cerqueira. >
Segundo a Febaq, antes de 2017, outras tentativas foram feitas em assembleias para regulamentar a entrada dessa população, mas só em 2017 a liberação foi aprovada. “Realmente, a presença de travestis e transexuais no corpo de dança já era permitida pelas principais federações nordestinas e a Bahia precisava acompanhar essa transformação em relação aos gêneros, reconhecendo esse direito de participação democrática. Com essa inclusão, tivemos a certeza que demos um passo muito importante, em respeito à diversidade LGBT”, afirmou a federação.>
Ainda não existem dados pontuais sobre a participação da comunidade LGBTQIA+ nas quadrilhas estilizadas da Bahia, mas a federação garante que pretendia começar um censo, no qual a pauta estaria inclusa, ainda em 2020. Por conta da pandemia, precisaram interromper a pesquisa. De acordo com a Febaq, o censo será retomado ainda no segundo semestre deste ano. >
Tiffany Cardoso, mulher transexual de 37 anos, sempre amou dançar, mas não conhecia de perto a dança junina. Foi navegando pelas redes sociais, enquanto estava na Europa, que ela encontrou o perfil do presidente da quadrilha soteropolitana Imperatriz do Forró. Desde então, tudo mudou. Segundo ela, já no primeiro ensaio do qual participou, sabia que aquele era o seu lugar. >
“Quando eu vi a Imperatriz no meu primeiro dia, de repente eu imaginei que aquele lugar era meu. Eu tinha que estar ali de qualquer jeito, porque eu me apaixonei rápido pela galera e pela quadrilha. Foi um pouco assustador, porque as pessoas vinham falar comigo, me ajudar. É muito gostoso sentir essa preocupação, eles são uma segunda família”, afirma.>
Numa tentativa de fugir da perspectiva de violência, as quadrilhas juninas servem, hoje, como um refúgio para membros da comunidade LGBTQIA+. De acordo com o dossiê de assassinatos e violências produzido pela Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra) em 2022, a Bahia foi o sétimo estado que mais matou transexuais e travestis no ano passado, com sete casos durante o ano. >
O lugar na análise de 2022 foi melhor que no ano anterior, quando a Bahia figurou em segundo lugar, com 13 vítimas. Ainda assim, no ranking absoluto, com dados analisados entre 2017 e 2022, a Bahia está entre os três mais violentos: com 79 mortes, estado ficou em terceiro lugar dos que mais mataram essa população durante esses cinco anos.>
Para Leandro Santolli, coordenador do Fórum Permanente de Quadrilhas, órgão civil que luta por políticas públicas nesses grupos, os festejos tradicionais juninos, especialmente em regiões do interior, onde têm um impacto cultural mais forte, oferecem uma oportunidade para que os jovens que não se adequam aos padrões possam se expressar, se relacionar e serem reconhecidos dentro de suas comunidades. >
“A participação em quadrilhas juninas oferece uma chance de integração social e fortalecimento de laços comunitários com outras pessoas que têm experiências semelhantes, encontrando um senso de pertencimento e solidariedade. A aceitação e a celebração da diversidade dentro das quadrilhas juninas ajudam a criar um ambiente mais inclusivo e tolerante em comunidades que, muitas vezes, são tradicionalmente conservadoras”, diz Santolli.>
Esse foi o caso de Alisson Negrini - nas quadras de dança, atende por Alessandra Negrini, como a atriz -. Brincante da Imperatriz do Forró, Negrini tem 21 anos e começou a dançar nos festejos juninos aos 19. “A Imperatriz para mim é uma família. Eu fui acolhida, bem recebida, e o presidente sempre me apoiou, sempre falou 'você tem capacidade, Negrini'. E foi isso que me fez criar expectativa no mundo junino. Eu sou muito grata por ser a Rainha G da quadrilha”, diz.>
Rainha G, ou “rainha gay”, título mencionado por Negrini, é a categoria que reconhece os destaques em diversidade de cada quadrilha. Cada grupo elege a sua rainha G e a sua dama G, que carregam a faixa até o ano seguinte. Santolli, coordenador do Fórum de Quadrilhas, diz que essa inclusão na categoria é um sinal de progresso. >
Para a jovem Alisson, receber esse título foi de extrema importância. “A categoria me trouxe muita coisa, porque ali pode ter uma drag, pode ter uma trans, pode ter um homossexual. Hoje, tem uma drag preta, que sou eu. É muito gratificante poder representar todos, todas e todes”, diz.>
*Com a orientação da subchefe de reportagem Monique Lôbo>
O projeto São João em todo canto é uma realização do jornal Correio com patrocínio da Via Bahia e apoio da Larco Petróleo. >