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Perla Ribeiro
Publicado em 4 de outubro de 2026 às 07:05
Receber o diagnóstico de Alzheimer muda a dinâmica da família, mas não significa que a pessoa precise deixar de fazer tudo sozinha. A perda de autonomia acontece de forma progressiva, e muitas habilidades podem permanecer preservadas, principalmente nos primeiros estágios da doença. Por isso, um dos principais desafios de familiares e cuidadores é encontrar o ponto de equilíbrio entre oferecer proteção e permitir que a pessoa continue participando da própria rotina.>
Escolher uma roupa, organizar objetos pessoais, preparar parte de uma refeição ou realizar pequenas tarefas domésticas são atividades que podem continuar sendo feitas, desde que estejam de acordo com as condições e a segurança de cada pessoa. O assunto ganha ainda mais importância diante do envelhecimento da população brasileira. O país já reúne mais de 35 milhões de pessoas com 60 anos ou mais, o equivalente a cerca de 16,6% da população, segundo dados do IBGE. A projeção é de que esse grupo se aproxime de 70 milhões de pessoas em 2050 e represente quase um terço dos brasileiros.>
Alzheimer é um mistério desvendado aos poucos
O envelhecimento também amplia a atenção para as demências. Segundo o Relatório Nacional sobre a Demência, do Ministério da Saúde, cerca de 1,8 milhão de pessoas viviam com demência no Brasil em 2019. A estimativa é de que esse número chegue a 5,7 milhões até 2050.>
Para o neurologista Tiago Garcia de Oliveira, especialista em Distúrbios do Movimento da MedSênior, o diagnóstico não deve fazer a família antecipar limitações que ainda não existem. “Um diagnóstico de Alzheimer não significa que, a partir daquele momento, a pessoa se tornou incapaz de fazer tudo sozinha. A perda de autonomia acontece de maneira progressiva e varia de uma pessoa para outra”.>
Não faça pela pessoa o que ela ainda consegue fazer>
O medo de acidentes ou erros pode levar familiares a assumir rapidamente tarefas que ainda poderiam ser realizadas pelo paciente. Embora a intenção seja proteger, essa atitude pode diminuir a participação da pessoa no cotidiano. A orientação é acompanhar, orientar e ajudar quando necessário, mas evitar substituir automaticamente todas as atividades.>
“Fazer tudo pela pessoa pode parecer uma forma de cuidado, mas é importante permitir que ela continue utilizando as habilidades que estão preservadas”, explica o neurologista. A família pode, por exemplo, deixar que a pessoa escolha entre algumas roupas, ajude a organizar a mesa ou participe do preparo de uma refeição, desde que a atividade seja segura.>
Antes de eliminar uma tarefa, tente adaptá-la>
Uma atividade que ficou difícil não precisa necessariamente desaparecer da rotina. Dividir a tarefa em etapas menores, manter horários previsíveis, deixar objetos de uso frequente sempre no mesmo lugar e utilizar instruções simples são maneiras de facilitar a execução. A ideia é adaptar o cotidiano à medida que as dificuldades aparecem, em vez de retirar atividades antes que isso seja realmente necessário.>
Uma casa organizada também favorece a independência>
O ambiente pode ser um aliado importante para quem tem Alzheimer. Boa iluminação, retirada de tapetes soltos e obstáculos e manutenção dos objetos em locais conhecidos podem tornar a rotina mais previsível e segura. À medida que as dificuldades aumentam, outros cuidados podem ser necessários. Medicamentos, produtos de limpeza, objetos cortantes e utensílios que ofereçam risco devem receber atenção especial.>
Isso não significa transformar a casa em um ambiente restritivo, mas identificar quais mudanças são realmente necessárias em cada fase. O diagnóstico também não precisa significar isolamento. Caminhadas, exercícios adequados à condição física, encontros com familiares e amigos, música e outras atividades prazerosas podem continuar fazendo parte da rotina.>
Sempre que possível, vale preservar interesses e hábitos que já faziam parte da vida da pessoa, fazendo adaptações quando necessário. “A atividade física e o convívio social ajudam a manter uma rotina ativa e com significado. Sempre que possível, vale preservar aquilo de que a pessoa já gostava”, afirma Tiago Garcia de Oliveira.>
Ajude sem infantilizar>
Mesmo quando algumas capacidades começam a diminuir, a pessoa deve continuar sendo incluída nas conversas e decisões sempre que tiver condições de participar. Uma estratégia é simplificar as escolhas. Em vez de apresentar muitas alternativas de uma vez, familiares podem oferecer duas opções adequadas e permitir que a própria pessoa escolha.>
Gostos, preferências e hábitos construídos ao longo da vida também devem continuar sendo considerados. “A pessoa continua tendo uma história, gostos e preferências. A doença não deve apagar isso. Preservar a autonomia também passa por escutá-la e permitir que participe das decisões que ainda é capaz de tomar”, destaca o especialista.>
Quando é hora de aumentar a supervisão?>
Preservar a autonomia não significa ignorar os riscos. Episódios frequentes de desorientação, dificuldade para tomar medicamentos corretamente, acidentes domésticos ou problemas para realizar atividades cotidianas com segurança podem indicar que é necessário aumentar a supervisão.>
O nível de ajuda também pode mudar ao longo do tempo. Uma atividade realizada de forma independente hoje pode exigir acompanhamento no futuro. “A ideia não é retirar toda a autonomia diante da primeira dificuldade, mas também não manter uma independência que já não seja segura”, explica o neurologista.>
O cuidado precisa acompanhar cada fase>
Não existe uma regra única sobre quanto de independência uma pessoa com Alzheimer deve manter. O que funciona depende das capacidades preservadas, da evolução da doença, da rotina e das condições de segurança. Por isso, o acompanhamento médico e multiprofissional ajuda a identificar quando uma atividade pode continuar, quando precisa ser adaptada e quando passa a exigir supervisão.>
Mais do que antecipar perdas, o cuidado deve considerar aquilo que a pessoa ainda consegue fazer e decidir hoje. Preservar pequenas escolhas, manter atividades significativas e oferecer ajuda apenas na medida necessária pode fazer diferença na qualidade de vida e na sensação de autonomia ao longo da evolução da doença.>