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Perla Ribeiro
Publicado em 3 de setembro de 2026 às 05:10
O Brasil está envelhecendo — e a transformação já começa a mudar uma pergunta que vai muito além da saúde e da aposentadoria: quem estará por perto quando milhões de brasileiros chegarem à velhice? Entre 2000 e 2023, a proporção de pessoas com 60 anos ou mais quase dobrou no país, passando de 8,7% para 15,6% da população. A projeção do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) indica que, em 2070, essa parcela poderá chegar a 37,8% dos brasileiros.>
Ao mesmo tempo, os lares também estão mudando. Dados do Censo 2022 mostram que 28,7% das pessoas com 60 anos ou mais que eram responsáveis pela unidade doméstica viviam sozinhas. Entre os fatores associados pelo IBGE estão a saída dos filhos de casa, o divórcio e a viuvez. É do encontro dessas duas transformações que surge uma nova necessidade: como preparar uma casa para uma pessoa envelhecer sozinha, mas sem ficar desassistida em uma emergência?>
Novo residencial para idosos em Salvador
Casa inteligente ganha função de proteção>
A resposta pode estar em tecnologias que já fazem parte das chamadas casas inteligentes, mas que ganham uma função diferente quando aplicadas ao envelhecimento. É o que propõe Lucas Silva, especialista em desenvolvimento estratégico de negócios, gestão e inovação. A ideia é desenvolver uma residência monitorada para idosos que moram sozinhos, sem a presença permanente de enfermeiros ou cuidadores.>
O projeto nasceu a partir da experiência de Silva no setor de construção nos Estados Unidos, onde trabalhou com a implementação de elevadores residenciais compactos para idosos e pessoas com dificuldade de locomoção. Os equipamentos foram instalados em mais de 20 estados americanos, principalmente em casas de idosos e veteranos de guerra.>
A proposta agora vai além da adaptação física do imóvel e combina automação residencial, monitoramento e mecanismos de resposta a emergências. “É uma casa toda monitorada, voltada para o idoso que mora sozinho, sem enfermeiro, sem cuidador”, explica.>
Em uma situação de queda, por exemplo, o sistema poderia identificar o episódio e iniciar uma sequência de ações previamente definida, como alertar pessoas próximas, comunicar familiares e solicitar atendimento de emergência. A ideia também prevê a integração de dispositivos pessoais ao sistema de automação da residência.>
Quedas são um dos principais riscos>
A preocupação tem uma dimensão importante. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), as quedas são a segunda principal causa de mortes por lesões não intencionais no mundo. Cerca de 684 mil pessoas morrem todos os anos em decorrência desses acidentes, segundo a organização, e os adultos com mais de 60 anos concentram o maior número de mortes relacionadas a quedas.>
Além disso, aproximadamente 37,3 milhões de quedas por ano são graves o suficiente para exigir atendimento médico. Nesse cenário, a tecnologia pode acrescentar uma camada de proteção justamente no momento em que não existe outra pessoa dentro da casa para perceber que algo aconteceu.>
Não basta colocar barras de apoio>
Tradicionalmente, preparar uma casa para o envelhecimento significa pensar em adaptações físicas: barras de apoio, pisos menos escorregadios, menos degraus e espaços com melhor circulação. Essas medidas continuam importantes, mas a tecnologia pode complementar essa estrutura.>
Em uma residência monitorada, sensores e sistemas de automação poderiam identificar alterações ou eventos inesperados e acionar pessoas previamente cadastradas.>
Para Silva, a evolução das casas inteligentes abre espaço para uma mudança de conceito: equipamentos antes voltados principalmente para conforto, como iluminação, climatização e controle de aparelhos, podem também ser utilizados para segurança, autonomia e resposta rápida.>
Até os móveis precisam acompanhar o envelhecimento>
A adaptação também envolve algo menos lembrado: o mobiliário. Para Laércio Marchioni Filho, empresário e especialista em móveis planejados de alto padrão, uma residência pensada para acompanhar o envelhecimento precisa considerar circulação, ergonomia, facilidade de acesso e altura de armários e superfícies.>
“Um móvel pode ser perfeitamente funcional hoje e se tornar uma dificuldade conforme a mobilidade do morador muda. Quando o projeto considera o envelhecimento desde o início, é possível pensar em soluções que facilitem o acesso e preservem a autonomia dentro da própria casa”, explica. A lógica é evitar que a adaptação aconteça somente depois que uma limitação aparece.>
Morar sozinho não significa perder autonomia>
Uma das questões centrais desse modelo é justamente separar independência de desassistência. Uma pessoa idosa pode morar sozinha, manter sua rotina e tomar suas próprias decisões. O problema surge quando ocorre uma emergência e não há ninguém no imóvel para perceber o que aconteceu.>
A proposta das residências monitoradas é criar uma espécie de rede de segurança sem exigir a presença permanente de um cuidador. “Tudo precisa estar integrado em um sistema de automação para prestar o socorro urgente”, afirma Silva. A OMS também aponta a criação de ambientes mais seguros entre as estratégias de prevenção de quedas, especialmente diante do envelhecimento da população.>
Tecnologia também traz novos desafios>
A expansão desse tipo de solução, porém, não elimina outras questões. Pelo contrário: quanto mais funções uma residência automatizada assumir, mais importantes se tornam temas como privacidade, proteção de dados, confiabilidade dos sensores e segurança dos sistemas.>
Também será necessário considerar o que acontece em situações de falha de conexão ou dos próprios equipamentos, além do custo de instalação e dos limites para decisões automatizadas. Afinal, uma casa que monitora seu morador precisa encontrar um equilíbrio entre proteger sem vigiar excessivamente e ajudar sem retirar sua autonomia.>
O debate tende a ganhar força conforme a população brasileira envelhece. Em 2023, 15,6% dos brasileiros tinham 60 anos ou mais. Se a projeção do IBGE se confirmar, essa parcela chegará a 37,8% em 2070. Isso significa que o envelhecimento deverá transformar não apenas os sistemas de saúde, previdência e assistência, mas também a arquitetura das casas, dos prédios e das cidades. Em um país com mais idosos e famílias cada vez mais diversificadas, preparar-se para viver mais pode começar por uma pergunta simples: a casa onde você pretende envelhecer estará preparada para cuidar de você quando ninguém mais estiver por perto?>