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Canetas emagrecedoras podem fazer mulheres perderem músculo, afetar a fertilidade e causar queda de cabelo; entenda

Mulheres são maioria entre quem busca medicamentos associados ao GLP-1, e especialista alerta para consequências que podem aparecer durante o emagrecimento rápido

  • Foto do(a) author(a) Perla Ribeiro
  • Perla Ribeiro

Publicado em 10 de setembro de 2026 às 13:02

Queda de cabelo
Queda de cabelo Crédito: Reprodução

As mulheres lideram a procura por medicamentos associados ao GLP-1 no ambiente online. No primeiro semestre de 2026, elas responderam por 602,8 mil pedidos, volume 75,2% maior que o registrado entre os homens, segundo levantamento da Serasa Experian. O mercado de medicamentos da categoria movimentou mais de R$ 1 bilhão e cresceu 149,3% no período.

O aumento da procura, porém, também chama atenção para o uso das chamadas canetas emagrecedoras sem indicação médica e sem acompanhamento profissional. Para o cirurgião bariátrico César De Fazzio, diretor do Instituto de Cirurgia Digestiva (ICD), em Brasília, uma parcela das mulheres utiliza os medicamentos principalmente com objetivo estético. “Uma parcela grande das mulheres que usa caneta não está tratando a obesidade. Está buscando resultado estético, sem indicação clínica e sem acompanhamento. Quando ela chega a mim, geralmente já é depois que alguma coisa deu errado”, afirma.

Uso indiscriminado das canetas emagrecedoras tem preocupado especialistas por Reprodução

Perda de músculo pode passar despercebida

Um dos principais riscos apontados pelo especialista é a perda de massa muscular durante o emagrecimento. Como os medicamentos reduzem o apetite, a ingestão de alimentos também pode cair — e a proteína costuma estar entre os nutrientes deixados de lado.

Quando o consumo de proteína diminui enquanto existe um déficit calórico, o organismo pode utilizar o próprio tecido muscular como fonte de energia. Dados de estudos de composição corporal citados pelo médico mostram que, nas análises com semaglutida, cerca de 40% do peso perdido correspondia a massa magra. Com a tirzepatida, essa proporção ficou em torno de 25%. O problema é que a balança não diferencia gordura de músculo. Assim, uma pessoa pode comemorar uma grande redução no peso enquanto também perde uma quantidade significativa de massa muscular.

Por que o risco pode ser maior para mulheres?

A preocupação ganha relevância entre as mulheres de meia-idade, justamente uma das faixas que mais aparecem no levantamento. Entre as pessoas de 36 a 50 anos, foram registrados 481,6 mil pedidos de medicamentos associados ao GLP-1 no primeiro semestre. O segundo maior volume ficou entre aquelas de 51 a 70 anos, com 336,1 mil pedidos — e essa faixa apresentou crescimento de 229% em relação ao ano anterior.

Segundo De Fazzio, mulheres já partem, em média, de uma quantidade menor de massa muscular e densidade óssea em comparação aos homens. Além disso, durante a perimenopausa e a menopausa, a redução do estrogênio pode acelerar a perda de músculo e osso. “É exatamente o perfil que menos pode emagrecer rápido e sem suporte nutricional”, explica o cirurgião.

Músculo também interfere no metabolismo

A perda de massa muscular não representa apenas uma questão estética. O tecido muscular participa da captação de glicose e contribui para o metabolismo basal. Por isso, segundo o especialista, uma redução excessiva da massa muscular pode favorecer alterações na sensibilidade à insulina e contribuir para um reganho de peso mais rápido quando o tratamento é interrompido.

Um consenso publicado em julho na revista The Lancet Diabetes & Endocrinology por três entidades europeias voltadas à obesidade recomenda, entre outras medidas, aporte proteico acima de 1,2 grama por quilo de peso por dia e treinamento de força estruturado durante o tratamento.

Canetas podem afetar menstruação e fertilidade?

O emagrecimento acelerado também pode provocar alterações temporárias no ciclo menstrual. A irregularidade tende a melhorar após a estabilização do peso. Por outro lado, a melhora da sensibilidade à insulina pode beneficiar mulheres com condições metabólicas que prejudicam a ovulação. Com isso, a fertilidade pode retornar antes mesmo de o ciclo menstrual voltar ao normal. Isso cria um risco importante para quem não pretende engravidar.

“A paciente que tinha dificuldade de engravidar e relaxou na contracepção pode engravidar sem planejar, em um momento inadequado para a gestação”, alerta De Fazzio. O especialista recomenda interromper o análogo de GLP-1 pelo menos dois meses antes de tentar engravidar, já que não há dados suficientes sobre a segurança desses medicamentos durante a gestação.

No caso da tirzepatida, estudos de absorção também apontaram redução de cerca de 20% nos níveis hormonais do anticoncepcional oral após o início do tratamento. Por isso, o fabricante orienta o uso de método contraceptivo não oral nas primeiras semanas de tratamento ou após o aumento da dose.

Queda de cabelo também pode aparecer

Outro efeito relatado entre mulheres que perdem peso rapidamente sem acompanhamento é a queda acentuada de cabelo, conhecida como eflúvio telógeno. Como o cabelo é formado principalmente por proteína, a ingestão insuficiente de nutrientes durante um período de perda acelerada de peso pode afetar o ciclo dos fios. A queda costuma aparecer dois a três meses depois do início do emagrecimento.

Entre os nutrientes relacionados ao problema estão ferro, zinco, vitamina B12, ácido fólico e vitamina D. Segundo o médico, estoques baixos de ferro, por exemplo, podem passar despercebidos em exames de rotina.

Tratamento não deve ser feito sozinho

Para reduzir os riscos, o acompanhamento precisa ir além da prescrição do medicamento. A proposta envolve nutricionista para acompanhar o consumo de proteínas e nutrientes, médico para monitorar exames, profissional de educação física para estruturar o treinamento de força e psicólogo para trabalhar a relação com alimentação e imagem corporal. A recomendação também é reforçada pelo consenso citado na The Lancet Diabetes & Endocrinology, que considera esse acompanhamento parte do tratamento, e não apenas um cuidado complementar.

Outro ponto levantado pelo especialista é o impacto psicológico que pode acompanhar a recuperação do peso depois da interrupção da medicação. Para De Fazzio, a questão pode ser especialmente pesada para mulheres devido à cobrança estética. “O reganho não é vivido como um evento fisiológico. É vivido como um veredito”.

Segundo ele, mulheres podem associar a perda de peso à maneira como passam a ser tratadas socialmente, o que faz com que o retorno dos quilos seja interpretado como uma falha pessoal. “Ninguém acha que o paciente falhou moralmente quando a pressão sobe depois que ele para o anti-hipertensivo. Com a obesidade, a culpa vai toda para a pessoa, e precisamos mudar isso”. Para o cirurgião, o problema não está no paciente, mas na tentativa de conduzir sozinho um tratamento que exige acompanhamento especializado.