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Perla Ribeiro
Publicado em 9 de agosto de 2026 às 07:00
A chegada de um filho costuma transformar completamente a rotina de uma família. O que pouca gente sabe é que essas mudanças não acontecem apenas na agenda ou nas prioridades: elas também ocorrem dentro do cérebro dos pais. Nas últimas décadas, pesquisas em neurociência têm mostrado que a paternidade provoca adaptações importantes no cérebro masculino, favorecendo habilidades relacionadas ao cuidado, à proteção, à empatia e ao fortalecimento dos vínculos afetivos com os filhos.>
Os estudos ajudam a explicar por que tantos homens relatam uma mudança profunda na forma de enxergar o mundo depois da chegada de uma criança. Exames de neuroimagem identificaram alterações na atividade de regiões cerebrais responsáveis pelas emoções, atenção, motivação e pela capacidade de interpretar sinais emitidos pelos bebês, como o choro e as expressões faciais.>
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Uma pesquisa publicada em 2022 na revista científica Cerebral Cortex revelou que homens que se tornaram pais pela primeira vez apresentaram mudanças na estrutura cerebral durante a transição para a paternidade, principalmente em áreas relacionadas à cognição social e ao processamento das emoções. Os pesquisadores observaram ainda que essas alterações eram mais evidentes entre os pais que participavam mais ativamente dos cuidados com o bebê, sugerindo que o cérebro masculino também se adapta às demandas da criação dos filhos.>
"O cérebro é altamente plástico, ou seja, tem capacidade de se reorganizar diante de novas experiências. A paternidade estimula circuitos neurais relacionados ao cuidado, à proteção e à conexão emocional com o filho, tornando o pai mais atento às necessidades da criança", explica o neurologista Woquiton Rodrigo, professor do curso de Medicina da UniFG Bahia.>
A paternidade também muda os hormônios>
As transformações não se limitam ao cérebro. Um estudo publicado em 2023 no Journal of Neuroendocrinology identificou que a paternidade também está associada a mudanças hormonais importantes. Entre elas, destacam-se a redução dos níveis de testosterona e alterações na ocitocina, conhecida como o hormônio do vínculo afetivo.>
Segundo os pesquisadores, homens que apresentaram níveis mais elevados de ocitocina durante a gestação da parceira desenvolveram mudanças mais expressivas em regiões cerebrais ligadas à empatia e ao cuidado. Eles também relataram maior conexão emocional com os filhos e menos dificuldades para se adaptar à nova rotina.>
O convívio faz diferença>
Os cientistas destacam que essas mudanças não dependem apenas da biologia. O contato diário com a criança exerce um papel fundamental na remodelação do cérebro paterno. "Atividades como dar banho, trocar fraldas, colocar o bebê para dormir, brincar ou simplesmente segurá-lo no colo estimulam áreas cerebrais relacionadas ao afeto e ao cuidado", afirma Woquiton Rodrigo.>
Não são apenas os pais biológicos>
As descobertas também ajudam a derrubar a ideia de que apenas as mães seriam biologicamente preparadas para cuidar dos filhos. Pesquisas mostram que pais adotivos e casais homoafetivos que assumem os cuidados diários das crianças apresentam padrões de ativação cerebral semelhantes aos observados em pais biológicos.>
Para os pesquisadores, isso reforça que a convivência, a experiência e o envolvimento na criação têm papel decisivo no desenvolvimento da parentalidade. Além dos benefícios para os filhos, especialistas destacam que participar ativamente da criação também fortalece os laços familiares, aumenta a sensação de bem-estar e favorece o desenvolvimento de competências emocionais que podem refletir positivamente em outras áreas da vida.>