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Mariana Rios
Publicado em 26 de junho de 2026 às 19:28
Pesquisadores da Prefeitura de Belo Horizonte identificaram uma frequência de reações alérgicas graves à vacina contra a dengue Qdenga superior à estimada nacionalmente após monitorarem mais de 146 mil doses aplicadas em crianças e adolescentes de 6 a 14 anos. Diante dos resultados, os autores recomendam que o imunizante seja administrado apenas em unidades de saúde preparadas para atender emergências, e não em escolas, shoppings ou outros locais sem estrutura clínica.>
O estudo foi desenvolvido em parceria com a Faculdade de Saúde Santa Casa de Belo Horizonte e o Hospital Eduardo de Menezes.>
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Ao todo, foram registradas 28 notificações de reações alérgicas, das quais nove foram classificadas como anafilaxia e duas como choque anafilático — uma forma mais grave da reação, caracterizada por queda acentuada da pressão arterial e que exige aplicação imediata de adrenalina. A taxa encontrada foi de 61,6 casos por milhão de doses aplicadas, acima da estimativa nacional de 36,4 casos por milhão divulgada pelo Ministério da Saúde.>
Apesar da gravidade potencial dessas reações, todos os pacientes receberam atendimento médico, tiveram recuperação completa e receberam alta em menos de 24 horas. Outro dado observado pelos pesquisadores é que todos os episódios ocorreram após a primeira dose da vacina, com início dos sintomas, em média, 31 minutos após a aplicação.>
"As reações de hipersensibilidade são conhecidas como reações alérgicas. A pessoa apresenta vermelhidão, coceira e mal-estar. O que preocupa são as reações graves, como a anafilaxia. A grande mensagem do artigo é que devemos ter cautela. Não recomendamos que essa vacina seja aplicada fora de unidades de saúde, como em escolas ou shoppings", afirma o pesquisador Alexandre Sampaio Moura, um dos autores do estudo.>
Após a identificação dos casos, o Ministério da Saúde acionou o Instituto Nacional de Controle de Qualidade em Saúde (INCQS), que descartou contaminação bacteriana nos lotes da vacina ao não encontrar endotoxinas nas análises laboratoriais.>
Os pesquisadores avaliam que o número mais elevado de notificações em Belo Horizonte pode estar relacionado à eficiência da vigilância de eventos adversos no município. Segundo eles, profissionais das salas de vacinação registram os casos em tempo real na plataforma nacional de farmacovigilância, o que favorece a identificação de ocorrências.>
"Nós vimos reações em vários lotes. Essa frequência pode ser secundária a um sistema de vigilância mais atento. Belo Horizonte tem uma equipe muito atenta às notificações. Pode ser que em outros locais haja subnotificação e a nossa taxa seja mais real do que a de outros municípios, embora o estudo não tenha como confirmar isso", explica Moura.>
Os autores destacam que a pesquisa avaliou exclusivamente a Qdenga, vacina desenvolvida pela farmacêutica Takeda, sem relação com o imunizante contra a dengue produzido pelo Instituto Butantan, que utiliza outra tecnologia.>
No dia 8 de junho, o Ministério da Saúde determinou a suspensão da aplicação da vacina contra a dengue desenvolvida pelo Instituto Butantan em todo o país. A decisão ocorreu após o registro de duas mortes consideradas suspeitas e que estão sob investigação das autoridades sanitárias.>
Agora, a rede de farmacovigilância e o Ministério da Saúde investigam quais fatores podem estar associados às reações alérgicas e quais mecanismos biológicos explicam esses episódios. O objetivo é ampliar o conhecimento sobre o evento adverso e garantir que a vacinação ocorra em ambientes preparados para prestar atendimento imediato, quando necessário.>
Em nota, a Takeda afirmou que os resultados devem ser interpretados com cautela por refletirem dados de um único município e de um período específico, entre fevereiro de 2024 e fevereiro de 2025. A empresa acrescenta que acompanha diariamente as notificações registradas no sistema e-SUS Notifica, do Ministério da Saúde, e incorpora essas informações ao seu banco global de farmacovigilância.>
Segundo a fabricante, os dados analisados não alteram o perfil de segurança da Qdenga, que continua sustentado por estudos clínicos, acompanhamento de longo prazo e pesquisas realizadas em diferentes países. A companhia ressalta ainda que reações de hipersensibilidade e anafilaxia já constam na bula como eventos adversos conhecidos e potencialmente associados à vacinação.>
A Takeda informa que a vacina está aprovada em mais de 40 países, disponível comercialmente em 31 deles e recomendada pela Organização Mundial da Saúde (OMS) para programas de vacinação em países onde a dengue é endêmica. No Brasil, segundo a empresa, mais de 10 milhões de doses já foram aplicadas, enquanto mais de 24 milhões foram distribuídas em todo o mundo desde o lançamento do imunizante.>