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Perla Ribeiro
Publicado em 16 de agosto de 2026 às 11:00
Cuidar da saúde deveria ser uma forma de melhorar a qualidade de vida. Mas, em meio a uma avalanche de conteúdos sobre alimentação, exercícios, suplementos, skincare, sono e longevidade, a busca por uma rotina saudável também pode se transformar em fonte de cobrança, comparação e frustração. Um levantamento da PiniOn, empresa especializada em pesquisas de comportamento e mercado, mostra que 61% dos brasileiros afirmam sentir pressão para manter uma rotina considerada equilibrada. >
A cobrança é constante para 25,7% dos entrevistados, que dizem sentir necessidade de desempenhar bem hábitos como alimentação saudável, exercícios físicos, meditação e cuidados com a pele. Outros 59,6% afirmam experimentar essa sensação ocasionalmente. As redes sociais aparecem entre os principais ambientes que alimentam essa percepção. Instagram (48,1%), TikTok (38%) e YouTube (31,1%) são as plataformas mais citadas pelos entrevistados. >
O problema é que a ideia de saúde exibida nas redes muitas vezes está associada a rotinas difíceis de reproduzir na vida real: alimentação extremamente controlada, treinos frequentes, suplementos, dispositivos e uma série de hábitos que podem transformar o autocuidado em uma espécie de obrigação permanente. >
Alimentação saudável
Viver mais não significa necessariamente viver melhor>
Enquanto cresce a preocupação com hábitos saudáveis, outro dado mostra que o desafio não é apenas aumentar a expectativa de vida, mas preservar a qualidade desses anos. Um estudo publicado na revista científica The Lancet Public Health apontou que, em 2023, os brasileiros passaram, em média, 12,5 anos convivendo com doenças, limitações ou incapacidades. Em 1990, eram 10,4 anos. >
O cenário reforça a diferença entre simplesmente viver mais e conseguir envelhecer mantendo autonomia e qualidade de vida. Para Alexandre Pimenta, médico e responsável técnico nacional do AmorSaúde, rede de clínicas parceiras do Cartão de TODOS, essa mudança de perspectiva é fundamental. >
“Esse dado chama atenção para uma diferença muito importante: expectativa de vida não é a mesma coisa que expectativa de vida saudável. Não basta acrescentar anos à vida, precisamos acrescentar vida aos anos”, afirma. >
Saúde não precisa virar uma competição >
Nos últimos anos, o cuidado com o corpo passou a ser associado cada vez mais a rotinas sofisticadas, suplementos, tecnologias e protocolos complexos. Embora algumas dessas estratégias possam ter indicação em situações específicas, o médico destaca que elas não substituem os hábitos básicos que continuam sendo importantes para a prevenção de doenças. >
“Existe hoje uma tendência de transformar o cuidado com a saúde em algo extremamente complexo. Entretanto, os hábitos que mais protegem a saúde continuam sendo relativamente simples e conhecidos”, explica. >
Entre eles estão:
Nem todo mundo precisa tomar suplemento A popularização dos suplementos também faz parte dessa busca por uma vida mais saudável. Mas, segundo Alexandre, eles devem ser utilizados quando existe indicação médica. “A suplementação pode ser necessária em situações específicas. Porém, ela não deve ser vista como substituta da alimentação, do sono, do movimento e do acompanhamento médico. Em saúde, a constância dos hábitos básicos costuma produzir mais resultados do que protocolos complexos mantidos por poucas semanas”, afirma. >
Ou seja, comprar um suplemento ou adotar uma nova estratégia de saúde não compensa necessariamente noites maldormidas, sedentarismo ou uma alimentação desequilibrada. >
Prevenção começa antes de aparecer um sintoma>
Outro ponto importante é que sentir-se bem não significa necessariamente estar saudável. Algumas doenças podem evoluir durante anos sem apresentar sintomas claros. É o caso de condições como hipertensão arterial, diabetes, colesterol elevado, doença renal e alguns tipos de câncer. Por isso, consultas preventivas podem identificar alterações antes que elas provoquem problemas mais graves. >
“Sentir-se saudável não significa necessariamente que todos os indicadores estejam adequados. A consulta preventiva é importante justamente para construir um plano individual, e não para aplicar uma lista igual de exames a toda a população”, explica o médico. A atenção costuma aumentar a partir dos 40 anos, mas pessoas que apresentam fatores de risco podem precisar iniciar o acompanhamento preventivo mais cedo. >
Não precisa mudar a vida inteira de uma vez>
Para quem sente que cuidar da saúde exige tempo, dinheiro ou uma transformação radical da rotina, a recomendação é começar pelo possível. “Cuidar da saúde não precisa começar com uma academia cara, uma dieta sofisticada ou uma grande transformação da rotina. Pequenas mudanças, quando mantidas ao longo do tempo, produzem efeitos muito relevantes”, afirma Alexandre. >
Entre as atitudes que podem ser incorporadas ao cotidiano estão:
A melhor rotina saudável é aquela que cabe na vida real >
A busca por saúde não precisa ser uma tentativa permanente de alcançar uma rotina perfeita — e muito menos uma competição com o que aparece nas redes sociais. Para o médico, uma mudança possível e mantida ao longo do tempo é mais importante do que um protocolo impecável abandonado depois de poucas semanas. >
“É melhor realizar uma mudança possível e mantê-la do que adotar um protocolo perfeito por poucos dias. O objetivo é criar uma rotina sustentável que preserve autonomia, bem-estar e capacidade funcional”, afirma. No fim, longevidade saudável não significa apenas acumular mais aniversários. Significa chegar aos anos adicionais com independência, vínculos, lucidez e mobilidade, mantendo as condições para continuar fazendo aquilo que dá sentido à vida.>