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Ronco alto não é só incômodo: veja quando o barulho pode esconder uma doença

Ronco frequente, pausas na respiração, engasgos e sonolência durante o dia podem indicar apneia do sono e precisam ser investigados

  • Foto do(a) author(a) Perla Ribeiro
  • Perla Ribeiro

Publicado em 6 de setembro de 2026 às 07:30

Ronco depois dos 50 não é “coisa da idade”: entenda por que o problema aumenta após a menopausa
Ronco alto não é só incômodo: veja quando o barulho pode esconder uma doença Crédito: Imagem gerada pela IA

“Você ronca?” A pergunta costuma aparecer em tom de brincadeira entre casais e familiares, mas o barulho durante a noite pode esconder um problema de saúde que vai muito além do incômodo. No Brasil, cerca de 40% da população adulta ronca, segundo a Associação Brasileira do Sono. Embora seja comum, principalmente com o avanço da idade, o ronco frequente pode ser um dos sinais da Apneia Obstrutiva do Sono (AOS), distúrbio que compromete a qualidade do descanso e está associado a problemas cardiovasculares. 

Segundo a pneumologista e especialista em Medicina do Sono Carla Alvarenga, da MedSênior, muitas pessoas convivem com a condição durante anos sem perceber que o sono está sendo prejudicado. “Quem tem apneia pode acreditar que dormiu a noite inteira, mas o cérebro desperta diversas vezes para restabelecer a respiração. Esses despertares passam despercebidos, mas impedem que o sono seja realmente reparador”, explica.

A camomila ajuda a combater contra a ansiedade e a insônia (Imagem: teatian | Shutterstock) por Imagem: teatian | Shutterstock

Nem todo ronco significa doença

Roncar de vez em quando não significa necessariamente que exista um distúrbio do sono. O sintoma pode aparecer durante gripes, crises alérgicas e períodos de congestão nasal, além de ser favorecido pelo consumo de bebidas alcoólicas ou pelo hábito de dormir de barriga para cima. Nessas situações, o ronco tende a desaparecer quando o fator responsável é resolvido.

O alerta aumenta quando o barulho é frequente e intenso ou aparece acompanhado de outros sinais, como pausas na respiração, engasgos durante o sono, dor de cabeça ao acordar, sonolência excessiva durante o dia e dificuldade de concentração. “Nem toda pessoa que ronca tem apneia do sono, embora o ronco frequente seja um dos sintomas mais comuns da doença”, afirma Carla. Na AOS, a respiração pode ser interrompida ou ficar repetidamente reduzida durante o sono. Isso provoca quedas na oxigenação e despertares breves, muitas vezes imperceptíveis para quem está dormindo.

O problema pode afetar coração, memória e disposição

Na Apneia Obstrutiva do Sono, as interrupções da respiração acontecem diversas vezes durante a noite. Com isso, a oxigenação diminui e o sistema cardiovascular é submetido a maior esforço. A condição está associada a maior risco e pior controle da hipertensão, arritmias, doenças cardiovasculares e AVC, além de alterações metabólicas, como diabetes tipo 2.

Os efeitos também podem aparecer durante o dia. Alterações de memória, irritabilidade, falta de disposição e maior risco de quedas estão entre as consequências relacionadas ao sono inadequado. Entre os fatores que aumentam a probabilidade de desenvolver apneia estão obesidade, aumento da circunferência do pescoço, tabagismo, consumo de álcool antes de dormir e alterações anatômicas das vias aéreas. “A obesidade é um dos principais fatores de risco para a apneia do sono, mas não é o único. Pessoas magras também podem apresentar o problema. Por isso, é importante avaliar o conjunto de sintomas e não apenas o peso corporal”, destaca a especialista.

Roncar depois dos 60 não deve ser considerado normal

O envelhecimento provoca algumas mudanças naturais no sono. De acordo com a Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia (SBGG), é esperado que, com o passar dos anos, o sono fique mais leve, apresente mais despertares e tenha redução do período de sono profundo. Isso não significa, porém, que ronco intenso, pausas respiratórias e sonolência excessiva durante o dia sejam consequências normais da idade.

“É importante diferenciar o que faz parte do envelhecimento das alterações que indicam uma doença. Muitas pessoas acreditam que dormir mal é normal depois dos 60 anos, quando, na verdade, podem estar convivendo com um distúrbio tratável”, alerta Carla. Um sono de qualidade é importante para funções como memória, equilíbrio hormonal, recuperação muscular e funcionamento do sistema imunológico. Quando o descanso é interrompido repetidamente, esses processos podem ser prejudicados.

Melatonina não trata ronco nem apneia

Na tentativa de dormir melhor, algumas pessoas recorrem à melatonina por conta própria. O problema é que o suplemento não trata todos os distúrbios do sono e não deve ser usado indiscriminadamente. “A melatonina pode ter indicação em situações específicas, principalmente relacionadas ao ritmo do sono, mas não trata o ronco nem a apneia do sono”, explica a médica. Por isso, diante de ronco persistente, pausas respiratórias, engasgos ou sonolência durante o dia, o mais importante é investigar a causa em vez de tentar solucionar o problema apenas com suplementos.

Quando procurar um médico?

Alguns sinais indicam que o ronco merece uma avaliação profissional:

  • Ronco alto e frequente;
  • Pausas na respiração observadas por familiares;
  • Engasgos durante o sono;
  • Sonolência excessiva durante o dia;
  • Dor de cabeça ao acordar;
  • Dificuldade de memória e concentração;
  • Hipertensão de difícil controle;
  • Cansaço ao acordar, mesmo depois de passar a noite na cama.

A investigação permite identificar se existe um distúrbio do sono e definir a melhor estratégia para cada caso. Dependendo da situação, o tratamento pode envolver mudanças no estilo de vida, perda de peso, dispositivos específicos ou outras abordagens. “Dormir bem não significa apenas passar muitas horas na cama. É durante o sono que o organismo recupera funções físicas e cognitivas fundamentais”, afirma Carla. Para a especialista, reconhecer alterações como o ronco persistente e a apneia precocemente pode ajudar a preservar a saúde, a autonomia e a qualidade de vida, especialmente durante o envelhecimento.