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Seu relógio sabe como está seu coração? Veja o que os números realmente significam

Zona 2, VO₂ máximo, recuperação e variabilidade cardíaca ajudam a acompanhar o desempenho, mas os dados dos dispositivos não substituem exames médicos

  • Foto do(a) author(a) Perla Ribeiro
  • Perla Ribeiro

Publicado em 4 de outubro de 2026 às 07:00

Smartwatches ajudam nos treinos, mas uso excessivo pode gerar ansiedade e até lesões
Smartwatches ajudam nos treinos, mas uso excessivo pode gerar ansiedade e até lesões Crédito: Freepik

Relógios inteligentes e pulseiras fitness transformaram o pulso em uma espécie de painel de acompanhamento da saúde. Durante uma caminhada, corrida ou treino, o dispositivo pode mostrar frequência cardíaca, zonas de esforço, VO₂ máximo, calorias gastas e até alterações no ritmo do coração.

Mas saber interpretar esses números é tão importante quanto acompanhá-los. Um valor exibido na tela pode ser útil para observar tendências, mas não significa necessariamente que o aparelho esteja fazendo um diagnóstico. A Organização Mundial da Saúde estima que as doenças cardiovasculares sejam responsáveis por cerca de 17,9 milhões de mortes por ano no mundo. No Brasil, dados do Cardiômetro, da Sociedade Brasileira de Cardiologia, apontam cerca de 350 mil mortes anuais relacionadas a doenças cardiovasculares.

Monitore, não julgue: o relógio deve ser usado como uma ferramenta de orientação, e não como um avaliador do desempenho diário. Se o corpo indicar necessidade de descanso, o ideal é respeitar esse sinal, mesmo que a meta do aplicativo não tenha sido cumprida. por Freepik

Para a cardiologista Patrícia Tavares, os wearables podem ser aliados na prevenção, desde que os dados sejam vistos dentro do contexto de cada pessoa. “Os wearables são aliados importantes da saúde, pois ajudam a acompanhar, fora do consultório, as tendências dos dados de atividade física, frequência cardíaca e sono. No entanto, a precisão varia conforme o aparelho, o algoritmo, o ajuste no pulso, o tipo de exercício e as características da pessoa”.

Zona 2 não é igual para todo mundo

A chamada zona 2 se tornou um dos termos mais populares entre quem pratica exercícios. Ela corresponde, de maneira geral, a uma faixa de esforço moderado e contínuo. O problema é que muitos relógios calculam essa zona a partir de uma estimativa da frequência cardíaca máxima, frequentemente usando a fórmula “220 menos a idade”.

Essa conta representa uma média populacional. Na prática, duas pessoas com a mesma idade podem apresentar frequências cardíacas máximas diferentes. Medicamentos também interferem nessa relação. Quem utiliza betabloqueadores, por exemplo, costuma apresentar uma frequência cardíaca mais baixa durante o exercício. Por isso, a intensidade também pode ser avaliada por métodos que não dependem exclusivamente dos batimentos, como a escala de percepção de esforço de Borg e o teste da fala.

O que o relógio estima e o exame consegue medir?

Para definir as zonas de treinamento com maior precisão, um dos exames utilizados é o teste cardiopulmonar de exercício, também conhecido como ergoespirometria. Durante o procedimento, o paciente realiza esforço em uma esteira ou bicicleta enquanto uma máscara analisa o ar inspirado e expirado. O exame permite avaliar o consumo de oxigênio e outros parâmetros relacionados à resposta do organismo ao exercício.

É diferente do que acontece com o smartwatch, que utiliza dados do treino e algoritmos para fazer uma estimativa. Segundo Patrícia, a escolha da intensidade não deve ser baseada apenas no número mostrado na tela. “Não é simplesmente dizer ‘treine na zona 2’ ou ‘treine na zona 4’. Precisamos saber qual é o objetivo daquela pessoa: saúde cardiovascular, emagrecimento, melhora metabólica, corrida de longa distância, ganho de performance ou longevidade”.

VO₂ máximo: um número que merece atenção

Outro indicador popular nos relógios é o VO₂ máximo, estimativa da quantidade máxima de oxigênio que o organismo consegue utilizar durante um esforço intenso. A aptidão cardiorrespiratória é considerada um importante indicador relacionado à saúde. Mas existe uma diferença entre o número estimado pelo relógio e uma medição feita em laboratório.

O dispositivo calcula o valor a partir de informações como frequência cardíaca e características do exercício. Já a ergoespirometria mede diretamente as trocas gasosas durante o esforço. Por isso, o número exibido no relógio pode ser mais útil para acompanhar a tendência ao longo do tempo do que para interpretar um valor isolado.

Frequência cardíaca de recuperação também importa

Depois que o exercício termina, o coração não volta instantaneamente à frequência de repouso. A chamada frequência cardíaca de recuperação observa quanto os batimentos diminuem no primeiro minuto após o esforço. Uma queda mais rápida costuma indicar uma boa resposta ao exercício. Já uma recuperação persistentemente mais lenta, especialmente quando aparece em treinos semelhantes, pode ser uma informação relevante para levar ao médico. Outro dado acompanhado pelos relógios é a frequência cardíaca de repouso, registrada quando o corpo está parado.

O que significa a variabilidade da frequência cardíaca?

A variabilidade da frequência cardíaca (VFC) mede pequenas diferenças no intervalo entre um batimento e outro. O indicador é usado por muitos dispositivos para estimar recuperação e nível de estresse fisiológico. Sono ruim, consumo de álcool e infecções, por exemplo, podem alterar esse parâmetro. Mas olhar apenas para um dia pode levar a interpretações equivocadas. “O dado serve para observar tendências ao longo de semanas, e não para avaliar um dia isolado”, explica a cardiologista.

Calorias são o dado menos preciso

Se existe um número que merece ainda mais cautela nos relógios, é o de calorias gastas. O dispositivo combina informações do usuário com dados da atividade e utiliza algoritmos para estimar o gasto energético. O resultado pode variar bastante em relação ao gasto real. Por isso, o número não deve ser tratado como uma medida exata para decidir quanto comer ou tentar “compensar” uma refeição depois do treino.

Quando uma avaliação mais precisa é necessária, existem exames específicos. A calorimetria indireta, por exemplo, pode medir o gasto energético de repouso, enquanto o teste cardiopulmonar permite avaliar o organismo durante o exercício.

Relógio pode detectar arritmia?

Alguns dispositivos conseguem registrar alterações no ritmo cardíaco e produzir um traçado semelhante ao de um eletrocardiograma. Esse recurso pode ajudar a identificar sinais compatíveis com fibrilação atrial, uma das arritmias sustentadas mais comuns. 

Mas há uma limitação importante: o relógio registra o coração a partir de uma única derivação, enquanto o eletrocardiograma convencional utiliza 12. Além disso, o dispositivo não diagnostica infarto ou isquemia. Um resultado aparentemente normal também não exclui uma doença cardíaca.

Quando o corpo fala mais alto que o relógio?

A tela do smartwatch não deve ser usada para tranquilizar alguém que apresenta sintomas. Dor no peito, falta de ar, palpitações importantes ou desmaio durante o exercício precisam ser avaliados, independentemente do que o dispositivo esteja mostrando.

“Se a pessoa sente palpitações, desmaia, apresenta falta de ar ou dor no peito durante o exercício, ela precisa ser avaliada independentemente do que o relógio está mostrando. O dispositivo pode levantar uma dúvida, mas não confirma a causa”, orienta Patrícia.

Dependendo do caso, a investigação pode incluir eletrocardiograma, Holter, teste ergométrico, ecocardiograma, MAPA ou teste cardiopulmonar de exercício. O principal benefício dos wearables está menos em perseguir um número perfeito e mais em observar mudanças ao longo do tempo. “ A questão não é perseguir um número perfeito. É construir bons hábitos de forma sustentável e controlar fatores de risco com avaliação profissional quando necessário”, resume a cardiologista.