Surto de salmonela já infectou mais de 300 pessoas; veja 19 mitos e verdades que podem estar colocando sua cozinha em risco
Ovos contaminados estão no centro de investigação na Europa, mas cuidados dentro de casa também fazem diferença para evitar a contaminação por bactérias
Perla Ribeiro
Publicado em 2 de setembro de 2026 às 05:00
Surto de salmonela já infectou mais de 300 pessoas; veja 19 mitos e verdades que podem estar colocando sua cozinha em risco Crédito: Imagem gerada pela IA
Um surto de salmonela que já atingiu mais de 300 pessoas na Europa e provocou uma morte no Reino Unido voltou a chamar atenção para um risco que pode estar mais perto do que parece: os hábitos adotados dentro da própria cozinha.
O episódio está relacionado ao consumo de ovos contaminados da produtora Laerco BV, na Bélgica. A suspeita levou a Agência Federal para a Segurança da Cadeia Alimentar da Bélgica (FASFC) a ampliar o recall dos produtos na região.
No Brasil, porém, não há registro de risco relacionado a esse surto. >
O país não importa ovos in natura da União Europeia e mantém controles sanitários sobre os alimentos comercializados.
O cenário britânico também ajuda a dimensionar o problema. Dados provisórios do Sistema de Saúde Pública do Reino Unido apontam que a Inglaterra registrou 2.020 notificações laboratoriais de Salmonella não tifoide no primeiro trimestre de 2026, contra 1.588 no mesmo período de 2025. O aumento foi de 27,2%.
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O que é salmonela?
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Salmonela é o nome dado a um grupo de bactérias que pode provocar infecções gastrointestinais. A principal forma de transmissão é pelo consumo de água ou alimentos contaminados, mas a bactéria também pode chegar ao organismo por meio do contato com animais, ambientes contaminados e, com menor frequência, entre pessoas.
Ovos e aves estão entre os alimentos mais associados à salmonela, mas não são os únicos. Carnes, leite não pasteurizado, frutas, verduras e outros produtos também podem carregar a bactéria.
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Os sintomas mais comuns são:
diarreia;
cólicas abdominais;
febre;
náuseas;
vômitos em alguns casos.
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Na maioria das pessoas, a infecção é autolimitada e desaparece sem tratamento específico. Crianças pequenas, idosos, pessoas imunossuprimidas e outros grupos mais vulneráveis, porém, têm maior risco de complicações.
Em casos graves, a bactéria pode atravessar a barreira intestinal e chegar à corrente sanguínea. A partir daí, pode se espalhar pelo organismo e provocar infecções sistêmicas e até sepse, quadro potencialmente fatal.
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No surto britânico, duas pessoas desenvolveram infecção na corrente sanguínea e uma morte foi associada ao episódio. As autoridades não divulgaram detalhes sobre a vítima enquanto a investigação continua.
“A Salmonella é um microrganismo altamente adaptado. Ela contamina água e alimentos, impactando a saúde pública de forma massiva”, explica Alberto Gonçalves Evangelista, pesquisador do Biopark.
Ele atua no Novo Arranjo de Pesquisa e Inovação (NAPI) Alimentos Saudáveis, que desenvolve estratégias para controlar a circulação de bactérias e de genes de resistência antimicrobiana entre o campo e a mesa do consumidor.
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O risco pode estar na maneira de preparar a comida
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O surto investigado na Europa envolve ovos, mas o episódio também chama atenção para outra questão: o que acontece depois que o alimento chega à cozinha.
Durante a investigação, as autoridades identificaram possíveis episódios de contaminação cruzada em dois estabelecimentos analisados.
Esse tipo de contaminação acontece quando microrganismos presentes em um alimento cru chegam a outro alimento, principalmente àquele que já está pronto para consumo. >
O transporte pode ocorrer pelas mãos, facas, tábuas, pratos, bancadas e outros utensílios.
Um exemplo é o hábito de lavar o frango cru antes de cozinhar.
A prática parece higiênica, mas pode espalhar microrganismos presentes na carne pela pia, torneira, bancada, utensílios e alimentos próximos por meio de respingos. O que torna o frango seguro é o cozimento adequado, associado a medidas para evitar a contaminação cruzada.
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Também não adianta confiar apenas nos sentidos. Um alimento contaminado por salmonela pode continuar com cheiro, sabor, cor e aparência normais.
Por isso, procedência, higiene das mãos, separação entre alimentos crus e prontos, refrigeração adequada e cozimento correto são medidas mais importantes do que simplesmente observar se a comida parece estar boa.
E alguns hábitos comuns ainda confundem higiene com segurança microbiológica. >
Confira o que é mito e o que é verdade:>
1. Dá para saber se um alimento está contaminado pelo cheiro ou pela aparência
MITO. A salmonela pode estar presente sem provocar alterações perceptíveis de cheiro, sabor, cor ou aparência.
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2. Ovos podem transmitir salmonela mesmo quando parecem normais VERDADE. A contaminação não necessariamente provoca alterações visíveis no ovo ou na casca.
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3. Ovo caipira ou orgânico não tem salmonela MITO. O método de produção, sozinho, não garante que o alimento esteja livre da bactéria.
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4. Lavar o ovo antes de guardá-lo elimina o risco MITO. A lavagem doméstica pode comprometer barreiras naturais da casca e não substitui os cuidados de armazenamento, manipulação e cozimento.
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5. Lavar o frango cru deixa a carne mais segura MITO. A água não elimina de forma segura as bactérias presentes na carne e os respingos podem espalhar microrganismos pela cozinha.
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6. Cozinhar corretamente ajuda a eliminar a salmonela VERDADE. Temperaturas suficientemente altas destroem a bactéria. O alimento precisa atingir cozimento adequado também no interior.
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7. Congelar mata a salmonela MITO. A bactéria pode sobreviver ao congelamento. A baixa temperatura dificulta sua multiplicação, mas não é um método confiável para eliminá-la.
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8. A geladeira mata a bactéria MITO. A refrigeração ajuda a controlar a multiplicação bacteriana, mas não necessariamente destrói a salmonela que já está presente.
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9. Uma salada pode ser contaminada pelo frango cru sem encostar nele VERDADE. Uma faca, tábua, mão ou superfície que entrou em contato com carne crua pode transportar microrganismos para alimentos que serão consumidos sem cozimento.
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10. Só frango e ovos transmitem salmonela MITO. Água, carnes, leite não pasteurizado, frutas e verduras também podem estar envolvidos em contaminações. Surtos já foram associados inclusive a alimentos como chocolate e pasta de amendoim.
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11. Limão ou vinagre eliminam a salmonela MITO. A acidez desses ingredientes não substitui o cozimento adequado e não transforma automaticamente um alimento contaminado em seguro.
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12. Preparações com ovo cru exigem cuidado extra VERDADE. Maionese caseira, mousses, tiramisù e outras preparações com ovos sem cozimento podem utilizar ovos pasteurizados para reduzir o risco.
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13. Se o frango está branco por dentro, ele está necessariamente seguro MITO. A cor e a aparência não são as formas mais confiáveis de determinar se todas as partes do alimento atingiram temperatura suficiente para destruir microrganismos.
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14. Salmonelose pode matar VERDADE. Embora a maioria das pessoas se recupere, a bactéria pode chegar à corrente sanguínea e provocar infecções sistêmicas, sepse e outras complicações graves, especialmente em pessoas mais vulneráveis.
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15. Toda salmonelose precisa de antibiótico MITO. A maioria dos casos é autolimitada. Antibióticos são indicados principalmente em situações específicas, em pacientes de maior risco ou diante de infecções mais graves, conforme avaliação médica. O uso por conta própria também pode contribuir para a resistência antimicrobiana.
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16. Crianças pequenas, idosos e imunossuprimidos precisam de atenção especial VERDADE. Esses grupos têm maior probabilidade de desenvolver formas graves da infecção e complicações.
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17. Depois que o alimento foi cozido, o risco acaba MITO. Uma carne corretamente cozida pode ser contaminada novamente se for colocada no mesmo prato usado para o alimento cru ou entrar em contato com mãos e utensílios contaminados.
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18. Esponjas velhas podem acumular e espalhar bactérias VERDADE. Como permanecem úmidas e retêm resíduos de alimentos, as esponjas podem favorecer a sobrevivência e a multiplicação de microrganismos. Não existe um intervalo científico universal que determine a troca em um número específico de dias. Elas devem ser bem enxaguadas, mantidas o mais secas possível e substituídas quando estiverem desgastadas, com mau cheiro ou sem condições de ser adequadamente higienizadas. Esponjas que tiveram contato com líquidos de carnes ou aves cruas exigem atenção especial.
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19. Medidas simples conseguem reduzir o risco VERDADE. Lavar corretamente as mãos, separar alimentos crus daqueles prontos para consumo, cozinhar adequadamente, manter os perecíveis refrigerados e evitar preparar comida para outras pessoas enquanto estiver com sintomas gastrointestinais estão entre os principais cuidados.
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O que o surto ensina para quem está em casa?>
O episódio europeu não significa que ovos ou frango precisem ser retirados da alimentação. O principal alerta é outro: a segurança dos alimentos depende de uma sequência de cuidados, desde a origem do produto até o momento em que ele chega ao prato. E alguns dos maiores riscos podem estar justamente em hábitos que parecem representar mais higiene, mas que, na prática, não eliminam a bactéria e ainda podem espalhá-la pela cozinha. >