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Moyses Suzart
Publicado em 19 de abril de 2026 às 05:00
Você provavelmente já cantou um refrão até perder a voz no Carnaval, dançou em um bloco ou guardou na memória alguma música que virou trilha sonora da sua vida. O que talvez não saiba é que, por trás de muitos desses sucessos, estão nomes que nem sempre ocuparam o centro do palco, mas ajudaram a construir, verso a verso, a identidade da música baiana, muitas vezes cantada por outros artistas. É justamente esse o ponto de partida do projeto Autorais, que reúne três figuras essenciais dessa engrenagem: Jorge Zárath, Tonho Matéria e Tenison Del Rey. >
Mais do que intérpretes, eles são responsáveis por mais de mil composições que ganharam o Brasil nas vozes de artistas consagrados, de Daniela Mercury a Chiclete com Banana, de Ivete Sangalo e Olodum. Eles também possuem importância ímpar nos palcos, mas os bastidores, com a mão na caneta ao invés do microfone, também brilharam. E agora estão mostrando isso no projeto. >
No palco, o que se vê é uma espécie de “revelação coletiva”. O público canta, reconhece, mas só depois descobre que aquelas músicas que atravessaram gerações nasceram ali, nas mãos de quem agora as apresenta. Não por acaso, a reação costuma ser imediata. “Quem vê o show pela primeira vez se surpreende, na verdade, com todas. Não só as minhas, quanto as de Tonho Matéria e as de Tenison Del Rey. Essa surpresa acontece quase que espontaneamente”, conta Jorge Zárath.>
Mesmo com três anos de estrada e passagem por grandes eventos, o projeto ainda circula majoritariamente no circuito corporativo, uma espécie de aquecimento para algo maior. No palco, no entanto, o potencial de conexão popular é evidente, talvez porque o repertório já não precise ser apresentado, ele já faz parte da memória afetiva de quem ouve. A força do Autorais está justamente nessa inversão. Em um cenário em que o intérprete costuma ser o rosto mais visível, o palco traz para o centro quem escreveu a história por trás dos hits.>
No caso de Jorge Zárath, essa história começa longe da Bahia. Nascido em Montevidéu, no Uruguai, ele desembarcou em Salvador aos 18 anos e rapidamente mergulhou na efervescência musical da cidade. A latinidade que carrega desde a origem acabou se tornando uma marca registrada. “Minhas composições acabam tendo uma melodia latina. Muitas vezes o público escuta minhas músicas e não percebe que sou eu, mas quem é do meio reconhece esse perfil”, explica.>
Essa assinatura ganhou ainda mais força com a vivência nos trios elétricos e nos blocos que ajudou a comandar ao longo dos anos. Para ele, a experiência direta com o público molda a própria construção da música. “A vivência de trio elétrico ajuda porque você sabe que no refrão as pessoas participam. A música baiana tem esse diferencial. É feita para gerar felicidade”, afirma.>
Ao longo das décadas, os três ajudaram a colocar de pé um repertório que atravessa gerações e carnavais. Estão por trás de músicas como “Estrelas”, “O Groove da Baiana” e “Nem Tudo Funciona de Verdade”, gravadas por Daniela Mercury; “Cabelo Raspadinho”, “Cidadão” e “Chicleteiro Eu, Chicleteira Ela”, com o Chiclete com Banana; “Se Joga”, na voz de Jau; “A Camisa e o Botão”, interpretada por Claudia Leitte; além de sucessos de Tonho Matéria como “Vulcão da Liberdade”, “Menina Me Dá Seu Amor”, “Rebola” e “Se Me Chamar Eu Vou”. Canções que muita gente sabe de cor, mas que, até encontrar o trio no palco, raramente associa a quem as criou. >
Se Zárath traz a mistura cultural e a experiência de palco, Tonho Matéria carrega no corpo e na música a força do samba-reggae e da identidade negra da Bahia. Ex-vocalista do Olodum, ele transformou essa base em linguagem universal. “A batida do Olodum, por ser única, me leva a pensar sempre nessas claves do samba-reggae. Muitas vezes é inevitável”, diz.>
No caso de Tonho, compor nunca foi apenas sobre música. A capoeira, a vivência social e a conexão com suas origens aparecem de forma direta no processo criativo. “A capoeira foi meu primeiro instrumento de luta e de compreensão musical. Em tudo tem capoeira, samba-reggae, samba afro, porque sou desse lugar original”, afirma.>
Essa ligação com o coletivo também se reflete na forma como suas músicas dialogam com o público. Algumas nascem já com a intenção de serem cantadas em coro, outras encontram esse caminho naturalmente. “A depender da linha melódica, eu penso no povo sim. Em outras é bem natural”, explica.>
Ao lado de Zárath e Tenison, ele define o Autorais como mais do que um encontro artístico. “Estar ao lado de dois grandes amigos é de grande responsabilidade. Formamos um super trio musical”, resume.>
Já Tenison Del Rey representa uma espécie de síntese da diversidade musical brasileira. Revelado no rock com a banda Faróis Acesos, ele construiu uma carreira marcada pela mistura de gêneros, do axé à MPB, do reggae à música nordestina. Suas músicas navegam sem rótulos. “Me considero um filho do tropicalismo. Um neo-tropicalista. Isso me deixa muito à vontade na hora de criar”, diz.>
Com mais de 400 músicas gravadas, ele faz da inquietação uma regra. Repetir fórmulas nunca foi uma opção. “Sempre fui inquieto. Não me interessa a repetição das fórmulas de sucesso. O novo é o que me seduz e me inspira”, afirma. Curiosamente, apesar de ter músicas gravadas por grandes nomes da música brasileira, Tenison não costuma compor pensando em intérpretes específicos.>
“Muitas vezes os intérpretes é que se encontram com as minhas canções, e não o contrário”, explica. Sua base criativa, no entanto, está profundamente ligada às raízes da música brasileira, especialmente à influência de mestres nordestinos. “As melodias, poesias e ritmias de Luiz Gonzaga e Jackson do Pandeiro podem municiar qualquer gênero da música brasileira. Com a música baiana não seria diferente”, diz.>
Juntos, Jorge Zárath, Tonho Matéria e Tenison Del Rey formam cronistas de uma era da música baiana que ajudaram a construir, muitas vezes nos bastidores. O Autorais surge, então, como uma espécie de ajuste de foco. Não para reivindicar protagonismo, mas para revelar ao público aquilo que sempre esteve ali, escondido atrás de vozes de outros artistas e refrões consagrados. Enquanto seguem rodando pelo circuito corporativo, é preciso reivindicar este trio para o público geral. Falta o que pra isso acontecer?>