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Moyses Suzart
Publicado em 19 de abril de 2026 às 05:00
Um templo etílico >
Guardião de relíquias da cachaça, Gino resiste ao tempo e às ofertas milionárias para preservar um acervo único>
Reginaldo Passos estava confiante de que era sua tarde de glória. Nem o calor de uma quinta-feira de outono, que transformara Salvador numa sucursal do inferno mesmo chovendo, tirava o desejo dele de esquentar o corpo com uma cachaça. Mas não era qualquer uma. Era aquela com uma garrafa que lembrava um rosto indígena, escura e empoeirada encostada na parede, quase como um santo graal, o elixir da vida. “Tome”, diz Passos, jogando a chave do seu carro no balcão, em troca da garrafa ou de umas míseras doses. “Guarde seu carro, aqui você nunca vai beber dela”, retruca Seu Gino, dono de um bar ao lado do Elevador Lacerda, com mais de mil tipos de cachaça do Brasil, entre outras bebidas do mundo. “Aquela garrafa nem quem fabricou tem mais”, completa Gino, que mistura seu estabelecimento entre uma budega raiz e museu informal sobre o mundo da bebida alcoólica mais brasileira do mundo.>
O Recanto do Gino fica em um dos perímetros mais turísticos de Salvador. De frente para o Mercado Modelo, ao lado do Elevador mais famoso do planeta, dá até para ver de longe os azulejos azuis do museu da música, mas nenhum desses lugares é tão imponente quanto o caos espelhado na parede do bar. O olhar se perde na esculhambação organizada, num museu sem catálogo, mas com muita história para contar sobre a cachaça nossa de cada dia. Algumas garrafas, de tão raras, chegaram a ser matéria de desejo das próprias pessoas que as criaram. “O dono da cachaça Saborosa, já com mais de 90 anos, veio aqui pessoalmente ver que eu tinha garrafas dos anos 60 ainda aqui, fechadas, intocadas. Ele não tinha, queria levar, mas não levou”, lembra Gino, com seus 74 anos, 50 dedicados à água ardente.>
No seu museu, há mais de 7 mil garrafas, entre marcas que superam a casa do milhar. Algumas nem o rótulo têm mais, apenas papéis amarelados que perderam as cores ao longo dos anos. “Essa aqui (ele pega um pau de bambu e toca na garrafa com todo cuidado) é o Trio Jacaré, do final dos anos 40, é mais velho que o próprio bar, que é de 1960. Teve gente que me ofereceu muito dinheiro, mas não há preço que compre. Se abrir e beber, acaba sua importância histórica. Enquanto eu estiver vivo, ninguém abre nem compra”, conta Gino.>
Se alguém duvida das raridades, dê uma rápida pesquisa na cachaça Havana, uma das mais famosas do país. Uma garrafa desta marca, envelhecida dos anos 90, custa nos sites de compra, em média, cerca de R$ 1.500. Gino tem três exemplares dos anos 60, incalculáveis. O preço médio desta destilaria é R$ 700 o litro de safras atuais, pois a forma de fabricação ainda é feita de forma bem artesanal, envelhecida, inclusive. Agora imagine quanto não deve custar a dele. “É para apreciar. Aqui eu vendo cachaças, mas estas raras são uma forma de conservar a nossa história da cachaça, mostrar ao turista, ao baiano sobre a cultura da cachaça. Quem vem aqui, explico qualquer coisa que quiser, sou um guia, posso conversar o dia todo. Mas não me venha fazer oferta”, conta Gino, enquanto atende clientes, quase todos amantes de uma cachacinha.>
“Claro, é a proposta, né? Mas aqui tem cerveja, vendo cigarro, tem comida de budega raiz, como torresmo, calabresa e carne de sertão, a casa recepciona todo mundo que quiser conhecê-la e beber também, não aquelas lá de cima, as daqui”, disse Gino, apontando para as cachaças disponíveis, incluindo as regionais, como o Cambuí e o Cravinho, melhor que a do Pelourinho, inclusive.>
Recanto do Gino: o bar em Salvador onde a cachaça virou patrimônio histórico
Gino é a caricatura de um dono de bodega. Uma camisa de botão social aberta da metade pra cima, um óculos escuro mesmo dentro do recinto e um relógio de metal com a pulseira folgada que lembra muito Sinhozinho Malta, de Roque Santeiro. O cenário casa bem com sua skin moralizadora: posters antigos de propaganda de cerveja na parede, uma máquina de pegar ursinhos de pelúcia desativado, um mostruário de comidas típicas de budega, como torresmo e calabresas, aquele acrílico com cigarros de todas as marcas, cadeiras e mesas de plásticos espalhados e, claro, muita cachaça pendurada para todo lado. Sem dúvida se trata de um lugar que deveria ser tombado pelo Iphan. >
“Para mim é um ponto turístico de Salvador. Sou baiano, mas já moro na França há 20 anos. Deixo de ir na praia, mas não deixo de visitar o Recanto do Gino e trazer pessoas que vêm comigo de fora. E toda vez tento convencer ele a me vender uma cachaça antiga, mas ele se recusa. Aí me contento em beber as mais novas, que jeito, né? Nem oferecendo uma casa o homem vende uma garrafa dessa. O que já teve de gente especialista em cachaça vindo aqui para tentar negociar, não é brincadeira”, conta Antônio Carlos, mais conhecido como Tio Capoeira, que estava retornando a Paris naquele dia, mas fez questão de dar uma passadinha lá antes. >
Fazer amizade com Gino também não é muito difícil. Contador das melhores histórias sobre cachaça, é difícil segurá-lo quando ele resolve abrir o alambique e convidar o cidadão para degustar algumas cachaças do recinto, tirando as invioláveis, claro. Um aviso: se for visitar o lugar, não vá de carro, pois não tem como negar um copinho. “Olha esse aqui, é o famoso cambuí, mas cada vez mais raro, pois está muito difícil achar a fruta”, disse Gino, enquanto oferecia um copo. “Repare nas bolinhas, isso determina se a cachaça é boa mesmo”, explica, enquanto oferece a cachaça Gabriela, a da Fazenda, o Jatobá, o Cravinho, entre outras. Um caminho em volta…>
Sabe o que é mais interessante? Gino não bebe. Zero álcool. No início de sua formação como guardião da cachaça, até dava umas bicadas, mas sempre de maneira profissional, quase científico. Ele acha deselegante beber até cair e deixar o cachorro lambendo a cara. Atualmente, nada, no máximo um cheirinho na ‘mardita’. “Tem mais de 30 anos que não coloco uma gota de álcool na boca. E mesmo assim sou um apreciador delas. Curioso, né? Conheço mais que muita gente que bebe e não consegue sentir a diferença entre uma cachaça envelhecida e uma sem qualidade. Bebe só para ficar bêbado (risos). E hoje, além de conhecer todas as marcas, também conheço só pelo olhar e pelo cheiro”, conta Gino, que ainda faz um aviso preocupante:>
“Penso em me aposentar deste ofício no ano que vem ou no final deste ano. Não sei, ando cansado, apesar de amar o que faço. Mas ainda não sei, eu tenho um dever pelo zelo disso tudo aqui, me prende aqui. Meus filhos estão criados, formados, cada um com sua profissão graças ao Recanto. Nenhum vai querer. Tenho que saber quem vou escolher, quem vai saber conservar este legado”, conta Gino, ainda sem saber quem será seu substituto, enquanto Reginaldo observa atento a conversa. >
“Gino não pode sair daqui. Ele é parte disso tudo. Brincadeiras à parte, prefiro ficar sem beber aquela maravilha ali na parede do que não ter Gino aqui. Ele é amigo de todo mundo aqui, conhecido fora do país e do estado, uma referência. Qualquer cachaça que ele oferece aqui é de qualidade. Se tiver que beber alguma coisa rara, quero que venha dele”, conta Reginaldo, com a chave do carro já recolhida. >
Gino ainda acredita que o Comércio voltará a ter seus tempos de glória e seu bar será mais que uma referência. Será um ponto turístico ou de museu, como os da Música e do Carnaval. “Estamos vendo melhorias acontecerem. Sinto uma melhora, mas podemos avançar ainda mais. Eu aqui só fico aberto até 17h. Mas se tivesse movimento, se as pessoas começassem a conviver aqui à noite, ficaria mais. Ainda acredito neste dia de poder ensinar a história da cachaça para todos”, completa Gino, quase um guia turístico do próprio estabelecimento.>
“Aqui ultrapassamos as fronteiras. Tenho bebidas destiladas de todo mundo, aquela do Chile ali (aponta para uma garrafa em formato de moai), está aqui desde os anos 80, ainda na caixa original. Aqui tem da Europa, tenho até absinto”, resume Gino. Neste momento, enquanto uma cliente pede um cigarro, Reginaldo pede um gole de absinto. “O povo já fala dessa bebida, me dá um pouco aí, Gino”, pede o cliente mais pidão do lugar. Obviamente recebeu um não. “Faz parte do acervo, esquece”. >
Reginaldo saiu sem a relíquia, sem o absinto e, provavelmente, sem dirigir, apesar de permanecer com seu carro. Contudo, saiu com algo melhor: mais uma história para contar daquele bar onde pedir nem sempre significa levar. No Recanto do Gino, a regra é clara, cachaça boa até tem, mas as melhores continuam penduradas, intocáveis, como o próprio dono, firme, teimoso e insubstituível. Lá, a cachaça é menos produto e mais patrimônio, servido nem sempre no copo, mas na conversa.>