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Perla Ribeiro
Publicado em 13 de abril de 2026 às 13:37
A queixa de cansaço persistente tem se tornado cada vez mais frequente nos consultórios médicos. Em paralelo, o diagnóstico de burnout ganhou popularidade e passou a ser frequentemente associado a quadros de exaustão física e mental. No entanto, nem todos os casos têm origem ocupacional ou psicológica, o que acende um alerta importante para o risco de subdiagnóstico de alterações hormonais, especialmente em mulheres.>
Do ponto de vista clínico, a fadiga é um sintoma inespecífico, que pode estar associado a diferentes condições, incluindo disfunções endócrinas, como alterações nos níveis de estrogênio, progesterona e hormônios tireoidianos.“A fadiga é um sintoma transversal, que exige um olhar clínico ampliado. Nem toda paciente exausta está em burnout. Na prática, muitas já chegam com esse diagnóstico, mas apresentam sinais consistentes de desregulação hormonal quando avaliadas de forma mais criteriosa”, afirma a ginecologista e obstetra Daniella Campos, diretora médica da Clínica Elsimar Coutinho, em São Paulo.>
Fadiga como expressão sistêmicaA fadiga pode ser definida como uma sensação subjetiva de exaustão, associada à redução da capacidade funcional física e cognitiva. No contexto do burnout, está relacionada ao estresse ocupacional crônico. Já nas alterações hormonais, reflete uma desorganização do eixo endócrino, com repercussões amplas no organismo.>
Entre as condições mais frequentemente associadas a esse quadro estão:
Essas condições impactam diretamente o metabolismo, a qualidade do sono, o humor e a função cognitiva, simulando quadros de exaustão emocional. Quando o cansaço ganha contextoIsoladamente, a fadiga tem valor diagnóstico limitado. No entanto, quando associada a outros sinais clínicos, pode indicar um desequilíbrio hormonal subjacente.>
Entre os principais sintomas associados estão:
“O cansaço, por si só, raramente explica o quadro. O que orienta o diagnóstico é o conjunto de sintomas e, principalmente, o contexto hormonal daquela paciente. É isso que direciona o raciocínio clínico”, ressalta a médica.>
A influência do estilo de vida e seus limites>
Fatores como estresse crônico, privação de sono, alimentação inadequada e sedentarismo exercem influência direta sobre o sistema endócrino e podem contribuir para quadros de desregulação hormonal.Ainda assim, há uma lacuna importante na prática clínica: a baixa frequência de avaliações hormonais preventivas. Em muitos casos, a investigação só é iniciada quando o impacto na qualidade de vida já é significativo. Outro ponto relevante é o viés diagnóstico. >
Entre os principais pilares da investigação estão:
Quando tratar apenas o sintoma não é suficiente
A condução terapêutica baseada em diagnósticos imprecisos tende a gerar respostas parciais ou insatisfatórias. Intervenções focadas exclusivamente em mudanças comportamentais ou suporte psicológico, embora relevantes, podem não ser suficientes quando há um componente hormonal envolvido.>
“Sem a identificação da causa de base, o tratamento perde eficácia. A paciente pode apresentar melhora transitória, mas a tendência é de persistência ou progressão dos sintomas ao longo do tempo”.Uma abordagem integradaDiante de quadros de fadiga persistente, especialmente quando associados a outros sinais sistêmicos, a recomendação é clara: investigação médica completa. A abordagem integrada — que considera aspectos hormonais, metabólicos e psicossociais é hoje a forma mais consistente de estabelecer diagnóstico e conduzir o tratamento com precisão, conclui Daniella Campos.>