Acesse sua conta
Ainda não é assinante?
Ao continuar, você concorda com a nossa Política de Privacidade
ou
Entre com o Google
Alterar senha
Preencha os campos abaixo, e clique em "Confirma alteração" para confirmar a mudança.
Recuperar senha
Preencha o campo abaixo com seu email.

Já tem uma conta? Entre
Alterar senha
Preencha os campos abaixo, e clique em "Confirma alteração" para confirmar a mudança.
Dados não encontrados!
Você ainda não é nosso assinante!
Mas é facil resolver isso, clique abaixo e veja como fazer parte da comunidade Correio *
ASSINE

Filhote da jiboia mais rara do mundo é encontrado em São Paulo

Serpente ainda é pouco conhecida pela ciência; ela está sob cuidados de especialistas e será monitorado por pesquisadores

  • Foto do(a) author(a) Perla Ribeiro
  • Perla Ribeiro

Publicado em 2 de abril de 2026 às 10:48

Filhote da jiboia mais rara do mundo é encontrado em São Paulo
Filhote da jiboia mais rara do mundo é encontrado em São Paulo Crédito: Divulgação

Considerada a mais rara do mundo da espécie, a jiboia-do-ribeira (Corallus cropanii) foi encontrada no estado de São Paulo. O animal, que possui cerca de 80 centímetros e é considerado jovem, foi localizado por um morador da comunidade do Guapiruvu, em Sete Barras, está sob cuidados de especialistas e será monitorado por pesquisadores. O morador estava dirigindo e, ao fazer uma curva, a lanterna do carro iluminou o animal no caminho. As informações são do G1 Campinas.

Este é o 25º indivíduo de jiboia-do-ribeira conhecido pela ciência desde a descrição da espécie, em 1953. O número inclui também animais mortos registrados ao longo das décadas. “Esta jiboia foi a primeira da espécie encontrada neste município. A gente não sabe ao todo como está o status populacional desse bicho ali. Existem várias perguntas que precisam ser respondidas e algumas delas a gente consegue responder pelo monitoramento”, explicou a coordenadora técnica do Projeto Jiboia-do-Ribeira e técnica das Coleções de Herpetologia do Museu de Zoologia da USP (MZUSP), Daniela Gennari, em entrevista ao G1.

Filhote da jiboia mais rara do mundo é encontrado em São Paulo por Divulgação

Para a equipe do projeto, o animal é o quinto indivíduo acompanhado diretamente pelos pesquisadores em dez anos de trabalho. Antes dele, duas fêmeas e um macho foram monitorados na natureza: Dona Crô (2017), Esperança (2020) e Ribeiro (2022). No fim do ano passado, uma fêmea adulta foi localizada no município de Juquiá (SP). O animal foi resgatado e segue sob monitoramento. Por ser a primeira ocorrência da espécie na cidade, a serpente recebeu o nome de Juquiá. A fêmea tem cerca de 1,70 metro de comprimento e está sendo mantida no Instituto Rio Itariri, em Pedro de Toledo (SP), em um espaço preparado especialmente para a espécie.

O registro ocorre no ano em que o Projeto Jiboia-do-Ribeira completa 10 anos de atuação no Vale do Ribeira, com estudos científicos, monitoramento e atividades de educação ambiental com comunidades da região. “Ele tem 80 centímetros, é um jovem, o primeiro indivíduo imaturo que foi encontrado vivo até agora. Para nós é simbólico por isso e também pelo fato de ele ter sido encontrado na localidade onde começamos as atividades do projeto em 2016”, ressalta Daniela Gennari.

Ela explica que o trabalho de educação ambiental desenvolvido pelo projeto tem ajudado moradores da região a reconhecer a espécie e entender sua importância para a conservação. Graças a essa parceria com a comunidade, os pesquisadores agora acompanham de perto um animal saudável, que pode ajudar a revelar novas informações sobre a espécie.

Coordenador científico do projeto e colaborador do Instituto Butantan, o pesquisador Bruno Rocha define que a descoberta do jovem trouxe uma mistura de sentimentos. “A emoção é igual desde o primeiro indivíduo encontrado, que foi a Dona Crô, em 2017. É o mesmo tipo de sentimento: uma grande felicidade, mas desta vez com aquela sensação de ‘Eureka’ que todo cientista quer sentir. Estamos lidando com algo novo. Somado a isso vem o peso da responsabilidade de trabalhar com uma espécie que é deficiente de dados e extremamente rara”, diz, em entrevista ao G1.

Segundo ele, cada novo registro representa anos de trabalho e dedicação da equipe. “Já estávamos dedicados à Juquiá, e quando apareceu o filhote foi um arrepio tremendo”. O novo indivíduo também está em ambiente controlado, com acompanhamento veterinário e realização de exames. Os dois animais estão em cidades diferentes, e os pesquisadores seguem monitorando ambos. A expectativa é que, no futuro, as duas jiboias sejam reintroduzidas na natureza, iniciando uma nova etapa de monitoramento.

O Projeto Jiboia-do-Ribeira é uma iniciativa independente coordenada pelos pesquisadores Bruno Rocha e Daniela Gennari. O trabalho conta com apoio de instituições como Museu de Zoologia da USP, Instituto Butantan, RAN/ICMBio, Fundação Florestal, Parque Estadual Intervales, Parque Estadual Carlos Botelho, Associação Amigos da Mata, Instituto Rio Itariri e Legado das Águas, entre outros parceiros.

Considerada uma espécie fantasma da herpetologia, a jiboia-do-ribeira (Corallus cropanii) foi descrita em 1953 pelo pesquisador Alphonse Richard Hoge a partir de um exemplar que chegou de Miracatu (SP) ao Instituto Butantan. Durante décadas, a espécie permaneceu praticamente sem registros. Informações iniciais vieram de indivíduos entregues ao instituto em 1969 e 1978. O interesse científico voltou a crescer em 2002, quando surgiu a foto de um exemplar morto. “Era uma fêmea. Ela forneceu um tecido fresco para ser sequenciado pela primeira vez”, conta Bruno.

Em 2017, após anos de buscas, pesquiadores encontraram o primeiro indivíduo vivo monitorado pelo projeto: uma fêmea batizada de Dona Crô, com 1,75 metro de comprimento. Os pesquisadores descobriram que a espécie é arborícola, podendo permanecer nas copas das árvores a até 20 metros de altura. Ela vive em áreas de floresta bem preservadas e apresenta metabolismo lento e locomoção vagarosa.

O monitoramento também mostrou que a espécie tem comportamento sazonal. Durante o inverno, por exemplo, pode permanecer meses no mesmo local sem se alimentar. “Quando a gente fala de mudanças climáticas, elas podem vir a ser uma atrocidade para essa espécie. A gente precisa entender os impactos dessas mudanças tanto na paisagem quanto para o animal em si”, comenta Daniela.

A jiboia-do-ribeira é considerada uma das serpentes mais raras do mundo por vários fatores. Um deles é o endemismo: a espécie ocorre apenas no Vale do Ribeira, região montanhosa com características ambientais específicas. “É um bicho que está no estado de São Paulo e a gente ficou mais de 64 anos sem ver um vivo. Isso mostra o quão difícil é enxergá-la e encontrá-la”, diz Daniela.

  • Características:
  • A jiboia-do-ribeira possui fossetas labiais, pequenas cavidades na região da boca usadas para detectar calor.
  • O animal tem ventre amarelado e manchas pretas no dorso.
  • A locomoção lenta é outra característica marcante da espécie.
  • A espécie é mais ativa à noite.
  • Se alimenta principalmente de pequenos mamíferos, como roedores.

Segundo especialistas, essas informações ajudam a evitar confusão com serpentes peçonhentas, como a jararacuçu.