Hagamenon Brito: o desastre do nosso amor não sai no jornal

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Publicado em 27 de outubro de 2015 às 02:35

- Atualizado há 10 meses

O avião sobrevoa as montanhas em alguma região próxima à divisa de Minas com a Bahia, e o Sol se põe diretamente atrás de nós. Você, de olhos fechados, deve pensar em mentiras que ainda não inventou para viver melhor. Eu,  iluminado pelos últimos reflexos da luz que ofusca Deus de tão próxima, penso em notícias melancólicas.

As montanhas, que às 18 horas parecem lixas de papel amassadas, revelam, entre brancas nuvens, sequências de ondas que nenhum surfista ousaria deslizar. É uma grande paisagem, do tipo que faz algumas pessoas pensarem em Deus ou em Michelangelo e que outras acham opressivas ou entediantes, uma vez que em tais paisagens seus egos não têm vez.

Você ao meu lado continua de olhos fechados. A sensação de isolamento dessa região me traz uma certa felicidade, como se Ana Moura cantasse só para mim a mais bela canção do seu (des)fado. Deveria lembrar com mais frequência dessas montanhas (como lembro do contorno dos lábios de Daniele quando pronunciaram a palavra adeus).

E agora acendem as luzes e o tubo comprido, com poltronas estofadas, transmite uma falsa aparência de conforto à medida que ganhamos ainda mais altura em direção às montanhas e à noite. Ao fechar os olhos, visualizo o furor de uma tempestade, sinto o ar tornar-se tenso, ouço os engasgos de um motor falhando, enquanto mergulhamos numa imensidão branca, minúsculos, perdidos.

E, no último instante, bem em frente, vislumbro o precipício terrível... Alguns dias mais tarde, a equipe de busca encontraria os destroços e os corpos espalhados. Eu, com toda a certeza, aparentemente ileso, tranquilo, um morto bonito, com leve sorriso nos lábios (como se fora um personagem alemão de Christopher Isherwood).

A minha seria a foto do desastre selecionada para a revista Veja. Daniele guardaria ao lado da cama um exemplar da edição. Veria a cena em pesadelos e acordaria gritando: “Foi tudo culpa minha. Eu o decepcionei. Eu o mandei para a morte. Serei castigada enquanto vida tiver!”.

Mas percebo que não há turbulência, tempestade alguma. Os motores roncam suavemente. A noite está clara e estrelada. E não existe mais Daniele, só você, tão seguro e anônimo, ao meu lado. A aeromoça, um tipo moreno e mignon, sai do toalete e endireita discretamente o uniforme azul e kitsch, enquanto desce pelo corredor.

Debruçando-se alternadamente sobre as poltronas, exibe seu sorriso de irmã mais velha e pergunta, em voz baixa, a um grupo de crianças: “Gostariam de comer alguma coisa? Já vamos servir lanche acompanhado por bebidas”. Abro a minha mesinha e sinto sede. Lá embaixo, as montanhas choram a solidão da natureza.

***É isso que você deseja? Que eu fique sozinho? Sempre à procura de alguém e sendo obrigado a admitir que não há ninguém para ocupar o seu lugar? O que espera que eu faça? Que entre para um monastério? Ou que passe o resto da vida contribuindo para o culto à sua santa pessoa?

Editando, escrevendo crônicas, explicando a sua falta, até que o público fique farto de ouvir o teu nome? É, admito que você me inventou. Só passei a existir depois que você me disse quem eu era. Fui o mais real dos seus personagens. As pessoas admiravam-se de mim e isso lhe agradava, mas não acho que você tenha sentido o mesmo.