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Você sabe diferenciar controle de jornada no trabalho de assédio?

Supervisão do home office cresceu. Saiba como não ultrapassar limites

  • Foto do(a) author(a) Carmen Vasconcelos
  • Carmen Vasconcelos

Publicado em 27 de março de 2023 às 06:00

 - Atualizado há 3 anos

. Crédito: Girts Ragelis/Shutterstock/Reprodução

Programas que gravam as ligações ou reuniões, têm acesso às webcams dos funcionários, monitoramento de toques nas teclas ou rastreio da atividade do computador com capturas de tela periódicas. Um estudo da ferramenta de segurança na internet Express VPN, realizado em 2021, que contou com participação de 2 mil empregadores e 2 mil profissionais em trabalho remoto ou em esquema híbrido, demonstrou que cerca de 80% dos patrões usam software de monitoramento.

Mais que promover resultados, o excesso de controle pode, justamente, ter efeito contrário, tornando os colaboradores mais arredios, os ambientes de trabalho tóxicos e a retenção de talentos mais difícil, sem contar no número de processos na Justiça do Trabalho.

O sócio-diretor do Grupo IRKO, empresa de serviços profissionais do Brasil, Edson Teixer admite que, com a pandemia, muitas empresas migraram para o trabalho remoto e, desde então, ou mantiveram este regime ou passaram a adotar um regime híbrido e que muitas companhias, inclusive, contrataram funcionários em outras cidades ou estados.

“Acho que um primeiro passo, que já faz bastante diferença, é implementar um controle de entregas – idealmente, via software, mas isso também pode ser feito por meio de planilhas, por exemplo. Assim, o supervisor faz uma espécie de auditoria do trabalho”, sugere. Lorene Sampaio destaca que nenhuma supervisão remota precisa extrapolar os limites do que é feito no modelo presencial (Foto: Divulgação) Professora de Gestão em Recursos Humanos e Administração na Unijorge, Lorene Paixão Sampaio diz que a supervisão não deve exagerar no contato com o colaborador e, tampouco, sobrecarregar nas atividades. 

A advogada e professora do curso de Direito Cinzia Barreto de Carvalho observa que as garantias e regras de proteção ao trabalho previstas no ordenamento jurídico do País contempla o ambiente de trabalho remoto e que as formas de controle no ambiente laboral não pode ser um método de controle invasivo a ponto de constranger quem está trabalhando. 

 “O controle também não pode ser discriminatório, seja ele por quaisquer razões: por questão de gênero, de raça, de orientação, ou outro tipo de discriminação, isso não pode acontecer, tampouco que ofusque a forma de produção, o jeito de trabalhar desses empregados”, esclarece. 

Controle

Lorene Sampaio destaca que a supervisão precisa, antes de tudo, entender a situação de cada colaborador, uma vez que cada colaborador possui uma rotina e um processo diferenciado um do outro. “A partir destas informações, a supervisão deve elaborar uma estratégia de monitoramento, estabelecendo um vínculo com o colaborador através de ligações, e-mails e videochamadas para fortalecer a comunicação. Mas, sem entrar em contato a todo momento”, explica. 

A administradora destaca que informar horários e políticas do home office são fundamentais para conhecimento do colaborador. “É importante também demonstrar que o compartilhamento de informações entre a equipe ajuda na busca pelos resultados, por isso estabelecer metas e regras (como reuniões diárias e até um momento de um encontro informal, como um café online) ajudará a engajar e manter os colaboradores ativos e unidos”, afirma a administradora.

Teixeira ressalta a importância de realizar reuniões semanais curtas, já que, o número de calls aumentou exponencialmente nos últimos anos, para alinhar demandas e trocar experiências. “Essas conversas servirão para que o gestor consiga, também, identificar quem está passando por dificuldades e precisa de maior acompanhamento”, orienta.

“Outro fator a ser considerado é não trazer sempre os aspectos negativos e evitar críticas para não desmotivar os colaboradores durante as videoconferências. Trazer confiança e amparo aos colaboradores é papel da supervisão, por isso a interação deve ser uma prioridade e refletir a atenção diante da situação”, reflete Lorene. 

A advogada lembra que o artigo 225 da Constituição Federal garante, como direito fundamental, um meio ambiente de trabalho digno e o art. 1o, III da Constituição assegura a dignidade da pessoa humana, logo, o local de trabalho deve ser um espaço humanizado, que garanta a efetividade dos direitos humanos do trabalhador, de forma equilibrada.  Cinzia Barreto de Carvalho reforça que o ambiente de trabalho deve ser humanizado (Foto: Divulgação) “Na CLT, há previsão de proteção contra agressões à saúde do trabalhador, decorrentes de agentes físicos, químicos e biológicos.  Não há alusão expressa, porém às condutas que afetam o universo psicológico, o que pode ser suprido com interpretação das regras constitucionais”, reforça.

Espelhos

Para o representante do IRKO, é  preciso que o funcionário saiba que está sendo parcialmente monitorado e que a empresa deixe claro que há um respeito em relação a ele no monitoramento dessas atividades. “Independentemente da estratégia da companhia para acompanhar as atividades de seu time remoto, acho que é muito importante que as empresas desenvolvam algo que está acima de tudo isso: o senso de pertencimento”, defende. 

Para o empresário, se há um propósito maior entre os colaboradores, o trabalho deixa de visar horas ou salário e o processo de gestão de produtividade fica facilitado. “Aqui é preciso deixar claro que, obviamente, a remuneração adequada e o equilíbrio entre trabalho e vida pessoal são muito importantes”, completa. Na tarefa de equilibrar controle e respeito, Lorene sugere que os líderes expressem apoio ao colaborador, desenvolvendo ações como: a orientação do trabalho remoto de forma clara e objetiva, criando atividades para assistência psicológica e emocional, indicações das regras e metas através de rotinas adequadas e, por fim, uma comunicação efetiva com todos os colaboradores (incentivando e fortalecendo a interação).  Edson Teixer salienta a importância de gestores que praticam a escuta ativa e reconheçam a boa atuação da equipe (Foto: Divulgação) Para Lorene, os gestores possuem um papel fundamental nas ações de seus colaboradores, pois ele funciona como um espelho. “Uma supervisão descontrolada e que demonstra preocupação traz insegurança e perdas significativas para os colaboradores e para a empresa. Sem uma supervisão adequada não há resultados satisfatórios, pois afetará a equipe com estresse e ansiedade”, ressalta.  

 Edson Teixer acredita que, para que isso aconteça, é preciso ter lideranças transparentes, que incluam os funcionários nos objetivos e missões da companhia, pratiquem a escuta ativa e reconheçam o trabalho bem-feito. “Não apenas monetariamente, mas também com palavras de apoio, premiações, quando possível, e reconhecimento perante os outros membros do time”, finaliza.

Controle legal

•    O artigo 6º da Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), introduzido em 2011, referencia que “os meios telemáticos e informatizados de comando, controle e supervisão se equiparam, para fins de subordinação jurídica, aos meios pessoais e diretos de comando, controle e supervisão do trabalho alheio”;

•    Segundo as leis, cabe ao empregador instruir e controlar as atividades do colaborador, no entanto ao haver descontrole se pode configurar assédio moral; 

•    O assédio decorrente de mensagens ou de vídeo conforma desrespeito a integridade e privacidade do colaborador, havendo punição para a empresa que a executar.