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Luiz Dias
Agência Correio
Publicado em 13 de maio de 2026 às 04:00
Em 1951, Henrietta Lacks entrou em um hospital dos Estados Unidos para tratar um câncer de colo do útero. Sem saber, ela deixaria um grande legado na medicina moderna. Durante o atendimento, células retiradas de seu tumor seguiram para pesquisa.
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Elas se multiplicaram sem parar em laboratório, algo que cientistas buscavam havia décadas. Batizadas de HeLa, essas células ajudaram diversos estudos sobre câncer, mas também de diversas outras áreas, como vacinação, virologia e testes de remédios. Porém, todo esse avanço é envolto em uma grande polêmica.>
Henrietta Lacks era uma mulher negra, mãe de cinco filhos, nascida no Estado da Virgínia, nos Estados Unidos. Ela se mudou para Baltimore em busca de trabalho e atendimento médico em um período marcado por segregação racial.>
Em fevereiro de 1951, ela foi atendida no hospital Johns Hopkins com sangramentos e dores, ali ela descobriria um câncer no colo do útero já agressivo. Henrietta morreu em outubro daquele ano, aos 31 anos.>
Howard Jones
ginecologista que a examinou, em entrevista à BBC em 1997Enquanto Henrietta era tratada, uma amostra de seu tumor foi enviada ao laboratório do pesquisador George Gey. O objetivo era cultivar células humanas fora do corpo, um procedimento que costumava falhar nos distantes anos 50, mas que dessa vez rendeu resultados incríveis.>
Ao contrário das demais, as células de Henrietta não morreram como as demais amostras. Elas cresciam rápido, resistiam ao cultivo em laboratório e podiam ser divididas em novos lotes para outros cientistas.>
Dessa maneira, as células tumorais de Henrietta cultivadas foram distribuídas em larga escala para a comunidade científica para todo tipo de experimento.>
As células HeLa participaram de avanços importantes no século 20. Elas foram usadas em pesquisas sobre a vacina contra a poliomielite, estudos sobre vírus, testes de medicamentos e investigações sobre câncer.>
Principais avanços movido pela HeLa
O impacto foi tão grande que a Organização Mundial da Saúde reconheceu Henrietta Lacks, de forma póstuma, por sua contribuição à ciência. A homenagem também reforçou a injustiça por trás da descoberta.>
Por volta de 1970, quase duas décadas após a morte de Henrietta, sua família descobriu que sua amada familiar continuava "viva", fragmentada em milhões de colônias de suas células ao redor do mundo. No entanto, nunca houve consentimento, ou sequer um comunicado, sobre esse uso pela comunidade científica à família.>
Algumas das principais alegações de descendentes da mulher são que houve abuso por parte da comunidade médica. Segundo eles, empresas lucraram com uma linhagem celular criada a partir de material retirado sem autorização.>
A família processou empresas que lucraram com células HeLa, retiradas dela sem consentimento em 1951. A Thermo Fisher, Novartis e Viatris fecharam acordos confidenciais, sem julgamento público nem valor divulgado.>
A ação contra a Ultragenyx ainda não terminou. Até agora, a Justiça apenas permitiu que o caso avance, sem condenação ou indenização definida. Portanto, não houve decisão final pública contra as empresas.>
Em 2013, um estudo publicado na revista científica Nature analisou o genoma e o epigenoma de uma linhagem HeLa. Essa pesquisa ajudou a entender melhor as alterações presentes nessas células de câncer, mas também foi um ponto de virada no processo dos descendentes pelo controle dessas células.>
O trabalho também acendeu um alerta. Mesmo sendo células tumorais cultivadas havia décadas, os dados genéticos poderiam revelar informações sensíveis sobre os descendentes de Henrietta.>
Depois da repercussão, os Institutos Nacionais de Saúde dos Estados Unidos firmaram um acordo com a família Lacks. Desde então, o acesso a dados completos do genoma HeLa passou a ter controle específico.>
Dois representantes da família passaram a participar do grupo que avalia pedidos de acesso. Essa, teoricamente, foi uma tentativa de equilibrar o interesse científico com respeito à privacidade de quem herdou parte daquela história.>