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As décadas de 1960 e 1970 produziram por acaso uma das gerações mais fortes emocionalmente da história moderna

A ciência explica como a liberdade das décadas passadas, com brincadeiras que tinham chaves no pescoço e joelhos ralados, criou adultos prontos para qualquer dificuldade

  • Foto do(a) author(a) Raphael Miras
  • Foto do(a) author(a) Agência Correio
  • Raphael Miras

  • Agência Correio

Publicado em 2 de junho de 2026 às 16:00

Brincadeiras com a família estimulam a comunicação de forma natural na infância (Imagem: Andy Dean Photography | Shutterstock)
Brincadeiras com a família estimulam a comunicação de forma natural na infância Crédito: Imagem: Andy Dean Photography | Shutterstock

Se hoje criar filhos virou um exercício de vigilância constante e agendas cronometradas, especialistas olham para o passado para entender por que as gerações de 1960 e 1970 se tornaram tão resilientes.

O que hoje o Instagram chamaria de "descuido" era, na época, apenas a vida comum: crianças com autonomia para explorar o bairro e resolver seus próprios B.Os.

Afonso Cláudio (ES) por REprodução

O poder da "liberdade vigiada de longe"

A força emocional desses adultos nasceu nas brincadeiras de rua, longe da supervisão direta dos pais. Psicólogos chamam esse modelo de “negligência benigna”, um distanciamento saudável.

Sem um adulto para intervir em cada conflito, as crianças aprendiam a negociar, lidar com frustrações e seguir em frente por conta própria.

As “crianças de chave no pescoço” ilustram bem esse cenário: voltavam da escola, cuidavam da própria rotina e administravam o tempo até o fim do dia. Esse contexto exigia amadurecimento. Problemas eram resolvidos ali mesmo, sem o "colo imediato" que hoje muitas vezes impede o aprendizado.

"Calos na alma" e autoconfiança

Enfrentar rejeição, medo ou pequenos acidentes sem proteção constante criava os chamados “calos emocionais”. Esses mecanismos ajudaram essas gerações a lidar melhor com desafios na vida adulta, sem paralisar diante da ansiedade.

Estudos de Harvard reforçam que o brincar livre — sem intervenção de adultos — é essencial para a saúde mental. Ao superar desafios sozinha, a criança aprende uma lição central: confiar em si mesma.

O custo da redoma de vidro

Hoje, o cenário é diferente. Entre telas e o receio da violência, a infância se tornou altamente controlada. Especialistas alertam que, ao eliminar qualquer desconforto, os pais acabam "roubando" da criança a chance de desenvolver resistência ao estresse.

O resultado é uma geração mais protegida fisicamente, mas mais vulnerável emocionalmente. A tentativa de evitar riscos pode acabar reduzindo a capacidade de enfrentar o mundo real.

Como resgatar esse espírito hoje?

Não se trata de expor crianças a riscos, mas de adaptar aquela liberdade ao contexto atual. Algumas práticas:

Deixe a discussão acontecer: antes de intervir em conflitos, dê tempo para que as crianças tentem resolver sozinhas.

Desplugue o tédio: ofereça tempo livre sem telas. O tédio estimula criatividade e autonomia.

Permita erros simples: evite corrigir tudo. A criança precisa perceber sozinha as consequências.

Pé na grama e olho longe: incentive atividades ao ar livre em ambientes seguros, mantendo apenas uma supervisão distante.