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O que aconteceu com os lobos de Chernobyl 40 anos após o desastre nenhum especialistas foi capaz de prever

Estudo revela sinais de adaptação genética em animais que vivem na zona de exclusão nuclear

  • Foto do(a) author(a) Agência Correio
  • Agência Correio

Publicado em 2 de abril de 2026 às 07:00

Pesquisa internacional aponta mudanças no sistema imunológico dos lobos expostos à radiação
Pesquisa internacional aponta mudanças no sistema imunológico dos lobos expostos à radiação Crédito: Freepik

Entre ruínas, silêncio e contaminação radioativa, um grupo de lobos segue vivendo onde humanos não podem mais ficar. Na zona de exclusão de Chernobyl, esses animais desafiam previsões e despertam o interesse da ciência.

Monitorados por pesquisadores ao longo de anos, os lobos revelam sinais biológicos inesperados que podem ajudar a entender como organismos lidam com ambientes extremos.

Cães da região estão evoluindo de forma acelerada por Imagem gerada por IA

Os dados mais recentes mostram que a área, marcada pelo pior acidente nuclear da história, está longe de ser um vazio biológico. Pelo contrário, abriga uma população ativa de predadores no topo da cadeia alimentar.

Lobos em um território considerado letal

Logo após o desastre de 1986, acreditava-se que Chernobyl se tornaria um espaço permanentemente inabitável. Diferente de Hiroshima e Nagasaki, onde a radiação caiu rapidamente, o material radioativo ali se fixou no solo.

Décadas depois, ainda existem áreas proibidas para humanos. Mesmo assim, os lobos circulam, caçam e se reproduzem na região, formando uma população considerada estável por pesquisadores que acompanham o local.

Esse contraste chamou atenção da comunidade científica. Afinal, viver em um ambiente com isótopos de longa duração exigiria estratégias biológicas que ainda não eram totalmente compreendidas.

O que a ciência descobriu até agora

Para investigar o fenômeno, pesquisadores da Universidade de Princeton acompanharam os lobos por anos. Eles usaram dosímetros para medir a radiação acumulada no corpo de cada animal monitorado.

Além disso, amostras de sangue ajudaram a identificar alterações no sistema imunológico. Os cientistas encontraram uma assinatura biológica associada à maior resistência ao desenvolvimento de tumores.

O dado é relevante porque os lobos acumulam radiação ao se alimentar de presas contaminadas. Mesmo assim, apresentam respostas celulares que sugerem adaptação ao estresse radioativo contínuo.

Limites, hipóteses e cuidados

Apesar dos resultados animadores, os próprios autores do estudo fazem ressalvas. Não é possível afirmar que os lobos são imunes ao câncer ou que a radiação tenha criado uma proteção definitiva.

Fatores como isolamento geográfico, reprodução entre grupos próximos e ausência de interferência humana também influenciam a genética desses animais ao longo das gerações.

Segundo os cientistas, o cenário é complexo. As evidências indicam adaptação, mas ainda não permitem conclusões absolutas sobre os mecanismos envolvidos.

Quando a ausência humana muda tudo

A retirada das pessoas transformou a zona de exclusão em um refúgio inesperado para a vida selvagem. Hoje, a densidade de lobos ali é maior do que em muitas áreas protegidas da Europa Oriental.

O biólogo Shane Campbell-Staton explicou ao programa Short Wave, da NPR, que a falta de caçadores e atividades humanas reduz outros tipos de ameaça. Para ele, “essa separação dos humanos acaba sendo algo muito melhor do que ter que lidar com o câncer”.

Esse paradoxo também aparece em estudos com outros animais da região, como cães selvagens, reforçando a ideia de que a pressão humana pesa tanto quanto a ambiental.

Pistas que podem chegar à medicina

Agora, a ciência tenta avançar um passo além. Pesquisadores analisam se os caminhos imunológicos observados nos lobos podem inspirar novas abordagens contra o câncer em humanos.

Segundo Campbell-Staton, “começamos a colaborar com biólogos do câncer e empresas do setor para nos ajudar a interpretar esses dados”. A expectativa é identificar alvos terapêuticos no futuro.

Enquanto isso, os lobos de Chernobyl seguem caminhando entre prédios abandonados e florestas contaminadas, lembrando que a natureza, às vezes, encontra caminhos onde menos se espera.