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Heider Sacramento
Publicado em 18 de maio de 2026 às 22:42
A Globo queria causar impacto logo no primeiro capítulo de “Quem Ama Cuida”. E conseguiu. A nova novela das nove, criada por Walcyr Carrasco e Claudia Souto, estreia com cara de superprodução e entrega uma sequência de enchente impressionante, daquelas que entram facilmente entre os momentos mais ambiciosos da dramaturgia recente da emissora. >
Dirigida por Amora Mautner, a trama aposta em uma estética sofisticada, com fotografia que parece mirar nas séries de streaming. Há enquadramentos calculados, símbolos visuais e até um curioso padrão: praticamente toda cena tem algum ponto focal em vermelho. Em muitos momentos funciona muito bem, embora às vezes a direção pareça preocupada demais em soar moderna.>
A enchente que muda a vida da protagonista Adriana, vivida por Leticia Colin, é o grande ponto alto da estreia. A sequência é tensa, cara e muito bem executada. Ao mesmo tempo, fica o receio de que a novela concentre boa parte do orçamento nesses primeiros capítulos e depois passe a depender excessivamente de estúdio.>
Também chama atenção o uso intenso de trilhas com cara de hit de TikTok, numa tentativa clara de dialogar com as redes sociais. Já os efeitos climáticos oscilam: enquanto algumas cenas da chuva impressionam pelo realismo, outras exageram na computação gráfica e deixam a inteligência artificial perceptível demais.>
Quem Ama Cuida
O elenco ajuda bastante a sustentar a grandiosidade do projeto. Antonio Fagundes domina a cena como o milionário Arthur Brandão. Isabel Teixeira entrega mais uma vilã afiada, ainda que presa ao arquétipo da mulher rica caricata de animal print. Tony Ramos traz humanidade ao núcleo popular, enquanto Tata Werneck surpreende pela contenção dramática.>
Já Leticia Colin estreia abaixo do esperado. Sua protagonista ainda parece emocionalmente anestesiada diante das tragédias do capítulo. Falta intensidade. Chay Suede também sofre um pouco pelo desgaste de imagem após tantos protagonistas recentes na Globo, enquanto Dan Stulbach parece uma escolha equivocada para viver seu pai.>
O enredo ainda é bastante familiar. Mocinha injustiçada, casamento por interesse, assassinato, disputa por herança e vilões ambiciosos formam um novelão clássico embalado com estética mais sofisticada. Não há exatamente novidade na história, mas existe capricho na forma como ela é apresentada.>
A abertura é bonita, mas pouco marcante, lembrando produções como “Império”, “Fina Estampa” e “Verdades Secretas”. Já o encerramento do capítulo, mostrando histórias reais inspiradas no tema do cuidado, surge como um dos acertos mais sensíveis da estreia.>
No saldo geral, “Quem Ama Cuida” começa como uma novela promissora. Amora Mautner entrega um primeiro capítulo impactante e faz a Globo investir pesado em uma produção visualmente arrebatadora. Agora, o desafio será sustentar toda essa potência estética quando a água baixar.>