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Donaldson Gomes
Publicado em 18 de maio de 2026 às 17:18
A agenda ESG deixou de ser um diferencial reputacional para se consolidar como um componente estratégico da competitividade empresarial. Em um cenário marcado pela intensificação das mudanças climáticas, pela pressão por transparência e pelo avanço de temas como integridade da informação e inteligência artificial, empresas de todos os portes são desafiadas a incorporar critérios socioambientais e de governança ao centro de suas decisões. >
Nesta entrevista, Caio Magri, presidente do Instituto Ethos, defende que sustentabilidade não pode ser tratada como uma área isolada ou uma ação de marketing, mas como um eixo estruturante da estratégia de negócios. Ele analisa os riscos de uma transição climática socialmente excludente, destaca a necessidade de preparar pequenas e médias empresas para esse novo contexto e alerta para o impacto sistêmico da desinformação sobre a democracia, o ambiente institucional e a confiança nos mercados. >
Para Magri, as organizações que efetivamente geram valor são aquelas capazes de alinhar discurso, governança e prática, transformando compromissos públicos em metas concretas, indicadores verificáveis e decisões que contribuam para o desenvolvimento sustentável e para o fortalecimento das instituições. O presidente do Instituto Ethos será um dos palestrantes no Fórum ESG Bahia, nos próximos dias 20 e 21.>
Quem é>
Caio Magri é sociólogo, foi gerente de políticas públicas da Fundação Abrinq pelos Direitos da Criança (1995-2000); Coordenador do Programa de Políticas Públicas para a Juventude da Prefeitura de Ribeirão Preto (SP) (2001-2003); Integrou a equipe da Assessoria Especial do ex-presidente da República Luiz Inácio Lula da Silva, em 2003. Atua no Instituto Ethos desde 2004, quando iniciou como assessor de Políticas Públicas. Em 2014 tornou-se diretor-executivo e em 2017 foi nomeado diretor-presidente.>
Como as empresas podemtransformar o compromisso em execução, integrando a sustentabilidade à estratégia das lideranças e às cadeias produtivas?
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O primeiro passo é deixar de tratar sustentabilidade como um departamento, uma área, um relatório ou uma ação de marketing. Ela precisa estar no centro da estratégia empresarial com metas, governança, orçamento, indicadores, corresponsabilização da liderança e impacto direto sobre as decisões de investimento, de inovação, compras, riscos e de remuneração variável dos executivos e dos trabalhadores e trabalhadoras. Na prática, isso significa que o conselho de administração e a alta direção devem assumir responsabilidade explícita sobre os temas socioambientais, climáticos, de integridade, de direitos humanos. Não basta declarar o compromisso, é preciso traduzir em planos de ação, metas mensuráveis, gestão de riscos, por exemplo, e mecanismos de prestação de contas. E o conselho de administração tem que ser o curador dessas decisões tomadas para que a gestão as implemente. Outro ponto decisivo, e você tocou na questão, é olhar para as cadeias produtivas, para as cadeias de valor. Uma grande parte dos impactos socioambientais das empresas não nas operações internas e diretas, mas nas suas relações com fornecedores, nos territórios, com a logística, com o uso da terra, energia, matéria-prima e relações de trabalho. >
O senhor defendeu que a COP30, realizada em Belém no ano passado, deveria ser a “COP do Petróleo” e não apenas a “da floresta”. Por que? >
Eu fiz essa afirmação num debate realizado pela Confederação Nacional de Transportes (CNT), no meio do ano de 2025, olhando para a COP que estava sendo organizada para acontecer em novembro em Belém.Eu fiz essa afirmação num debate realizado pela Confederação Nacional de Transportes (CNT), no meio do ano de 2025, olhando para a COP que estava sendo organizada para acontecer em novembro em Belém. De alguma forma isso aconteceu. A COP trouxe a agenda dos combustíveis fósseis, a necessidade do “phase out”, do afastamento, da saída, da transição para o petróleo e isso graças ao esforço enorme feito pela presidência da COP, pelo Ministério do Meio Ambiente, pelo governo brasileiro em pautar essa agenda. A floresta é central, não é porque estávamos organizando na Amazônia que ela tomaria um papel estratégico pontual, ela é fundamental e central para todos os biomas globais, especialmente para o Brasil e para a Amazônia. Mas a crise climática não será resolvida apenas com conservação e restauração florestal, ainda que seja absolutamente fundamental o investimento nessa direção. A principal causa estrutural do aquecimento global está na queima dos combustíveis fósseis. Se a COP 30 fosse tratada apenas como a COP da floresta, corríamos o risco de deslocar o debate do seu núcleo mais difícil, ou seja, a necessidade de reduzir de forma planejada, com uma transição organizada, segura, a dependência global do petróleo, gás e carvão. E a gente está vendo agora a situação colocada pelo conflito Estados Unidos e Irã, onde, de novo, se coloca uma oportunidade fundamental de acelerar o processo da transição energética. >
Uma pesquisa do Ethos indicou que 61% das empresas não sabem o que é “transição climática justa”. Como garantir que ninguém fique para trás?>
Esse dado é muito relevante, foi feito com as empresas associadas ao Ethos, porque mostra que muitas empresas, e grandes empresas, já falam de descarbonização, neutralidade climática, ou de mercado de carbono, mas ainda não incorporaram plenamente as dimensões sociais da transição. Uma transição climática justa significa reconhecer que a mudança para uma economia de baixo carbono terá impactos diferentes sobre trabalhadores, comunidades, territórios, fornecedores, consumidores e setores produtivos. Superar esse desconhecimento exige formação, orientação prática e mudança de governança. As empresas precisam entender que não basta reduzir as emissões, é necessário ir além. É necessário avaliar quem será afetado, quais empregos serão transformados, quais territórios ficarão vulneráveis, quais fornecedores precisarão de apoio e quais grupos sociais podem ser incluídos nos benefícios da nova economia. Essa foi a nossa marca no ano passado, durante a COP 30. Nós pautamos, sim, que a gente tenha a capacidade de impactar além do clima, além do carbono. A transição será justa se for planejada, participativa, se distribuir oportunidades, se evitar que os custos da mudança recaiam sobre os grupos mais vulneráveis.>
Como trazer para o centro da agenda temas estratégicos como adaptação e resiliência aos efeitos das mudanças climáticas?>
Precisamos entender melhor qual é essa distância que as empresas têm da compreensão e da ação concreta de enfrentamento da necessária adaptação e resiliência aos efeitos das mudanças do clima. A adaptação climática precisa deixar de ser vista como um tema do futuro. É só, de novo, abrir a janela e olhar para fora. A mudança tá aí, tá na sua porta. Eventos extremos, secas, enchentes, ondas de calor, insegurança hídrica, perdas agrícolas, interrupções logísticas e danos à infraestrutura, por exemplo, já afetam diretamente e fortemente custos, produtividade, toda a indústria de seguros, abastecimento, saúde dos trabalhadores e da população em geral, colocando em risco a continuidade dos negócios. Para trazer adaptação e resiliência ao centro da agenda empresarial, é necessário ter uma avaliação e uma análise muito aprofundada dos seus riscos e incorporá-los à gestão. As empresas fazem gestão de risco financeiro, reputacional, mas precisam começar a trazer também, por exemplo, a gestão da urgência, da resiliência e da adaptação às mudanças do clima. A pergunta que as empresas podem e devem fazer é: como as mudanças climáticas podem afetar nossas operações, nossos parceiros de negócios, nossos clientes, nossos fornecedores, os trabalhadores e trabalhadoras, os consumidores dos nossos produtos e serviços e os territórios onde atuamos, onde estamos presentes fisicamente com as instalações e com a nossa operação. >
Quais são os indicadores concretos que diferenciam empresas que apenas seguem tendências daquelas que produzem impacto institucional positivo?>
A diferença está, de alguma forma, em aderir ao discurso e transformar práticas. Ao declarar e se comprometer e aderir a uma narrativa, a um conjunto de critérios, a princípios fundamentais, as empresas têm que transformar isso em práticas e implementá-las. Empresas que apenas seguem tendências, costumam publicar compromissos genéricos, aderem a campanhas para exposição da marca e usam a linguagem da sustentabilidade, sem alterar substancialmente seus modelos de decisão, de negócios. As empresas que produzem impacto institucional efetivo, positivo na sociedade, na economia, no seu setor, têm coerência entre discurso e prática, entre discurso e governança, entre o discurso e a sua operação, entre o discurso e a gestão da sua cadeia de valor e tem coerência entre seu discurso, seu posicionamento e a sua influência pública visando bem comum. Alguns indicadores concretos são fundamentais, é preciso buscar. Quer dizer, metas públicas e verificáveis, colocando de uma maneira transparente os dados das suas ações e suas práticas, por exemplo, com relação à redução das emissões. A presença da sustentabilidade no conselho e na alta liderança é um indicador muito positivo. Políticas efetivas e com impacto positivo na proteção e garantia de direitos humanos, trabalho decente, absoluta transparência fiscal e integridade nas relações público-privadas, também. É muito interessante que as empresas busquem ser reconhecidas por programas como o Proética, promovido pela CGU, Controladora Geral da União, e o Ethos, é um parceiro desde os início dessa iniciativa que reconhece os mecanismos de integridade dentro das empresas. Diversidade nos cargos de decisão é outro ponto importante. Tem que mostrar os números, tem que ter um senso, tem que dar a saber à sociedade qual é o perfil dessa empresa do ponto de vista da sua diversidade. Remuneração executiva vinculada a metas socioambientais e de integridade e prestação de contas consistentes à sociedade. Esse conjunto de temas se transforma em indicadores que darão às empresas a mensuração da medida exata da sua capacidade de sair do discurso para mudanças efetivas e transformação. >
Como integrar a sustentabilide à realidade das pequenas e médias empresas?>
Fundamental a questão, temos que olhar para o ecossistema do setor produtivo. A agenda de responsabilidade socioambiental, que eu agora quero classificar como de responsabilidade pela integridade socioambiental, trazendo aqui a agenda transversal da integridade e transparência, precisa ser traduzida para a realidade das pequenas e médias empresas, temos certeza disso. Não podemos tratar uma pequena e média empresa como se ela tivesse a mesma estrutura, a mesma equipe e capacidade financeira de uma grande empresa. Mas também não podemos deixar de fora da transição porque a grande empresa só terá de fato sido efetiva na sua transformação se ela atuar no seu ecossistema de relacionamento e isso inclui os seus fornecedores, pequenos e médios, micro empresas também. Elas estão no coração das cadeias produtivas, elas operam especialmente o fornecimento local, muitas vezes de produtos e serviços estratégicos. As pequenas e médias empresas são aquelas que mais geram empregos e, portanto, estão no centro da economia real. E elas precisam melhorar sua gestão ambiental, trabalhista, climática e de integridade. Acho que, de alguma forma, o caminho é simplificar sem reduzir a ambição. >
O Instituto Ethos lidera a recém-lançada Coalizão Empresarial Contra a Desinformação. Por que a integridade da informação passou a ser considerada um risco sistêmico?>
A integridade da informação é um risco sistêmico, porque a desinformação afeta questões básicas na relação de qualquer sociedade. Afeta a confiança, que é um ativo extremamente importante e essencial para os negócios e para fortalecimento e manutenção das instituições democráticas e a construção de uma cultura democrática. Quando a sociedade perde a capacidade de distinguir fatos de manipulação, todo o ambiente institucional se fragiliza. A gente vai ter políticas públicas sendo fragilizadas, os processos democráticos fundamentais para o exercício saudável da sociedade e das nações, como as eleições, as reputações empresariais, o mercado, as relações de consumo e decisões de investimento, ou seja, ao fragilizar e corroer a confiança, todo esse ambiente institucional se fragiliza. Para as empresas, a desinformação não é apenas um problema reputacional. >
Citação de oferecimento: O 5º ESG Fórum Bahia é um projeto realizado pelo Correio, com patrocínio da Acelen, Alba Seguradora - Grupo Aliança da Bahia, Confederação Nacional da Indústria - CNI, Contermas, Neoenergia Coelba, Salvador Bahia Airport, Suzano, Unipar e Veracel com apoio institucional do Alô Alô Bahia, Instituto ACM e Prefeitura Municipal de Salvador, apoio da Blueartes, Bracell, Claro, Grupo Preta, Hexacell, Instituto Brasileiro de Governança Corporativa (IBCG), Plano Brasil Saúde, Porsche Center Salvador, Salvador Shopping, Sebrae, Sistema Comércio Bahia - Fecomércio, Sesc e Senac, Sotero e parceria com o Grupo Wish e Zum Brazil Eventos.>