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Da Redação
Publicado em 2 de fevereiro de 2023 às 22:10
- Atualizado há 3 anos
Na retomada dos tradicionais festejos para Iemanjá, após dois anos de interrupção devido ao cumprimento das medidas restritivas contra a covid-19, as praias de Salvador foram tomadas por pessoas que dedicaram tempo para homenagear a Rainha do Mar nesta quinta-feira (2). Longe da multidão que encheu o Rio Vermelho, não foram poucos os que preferiram a calma de um mar tranquilo e companhias seletas para compartilhar o momento de fé com a orixá. >
Esse foi o caso da professora Nilda Andrade, 47, que, para fugir da aglomeração, escolheu a praia de Itapuã para depositar seu presente para Iemanjá. “Aqui eu venho, faço meus pedidos e não preciso estar no meio de tanta gente. Iemanjá está em todos os lugares”, afirmou. >
Apesar de não abarcar o mesmo contingente de público do Rio Vermelho, em Itapuã os festejos para a Rainha do Mar acontecem há mais de 100 anos e, desta vez, não foi diferente. Na Colônia de Pescadores de Itapuã, cerca de 15 balaios ecológicos estavam à disposição de quem quisesse colocar flores, frutos, folhas e perfume, que mais tarde seriam depositados no mar. Na entrada do local, um xirê, roda de dança de candomblé, dava boas-vindas aos devotos e aos curiosos. >
A atriz Nanda Lisboa, 33, conta que não conhecia a festividade no bairro onde Vinicius de Moraes fez morada. Segundo ela, além de uma grata surpresa, a experiência foi bem próxima do sagrado. “Eu acho que o baiano faz a festa sagrada um tanto profana e a maioria acaba se entregando mais aos locais onde a festa tem esse teor profano. Eu vejo que aqui é mais voltado para o religioso, valorizando justamente o sagrado. Estou adorando e aprendendo um bocado”, disse. A atriz Nanda Lisboa foi pela primeira vez aos festejos para Iemanjá em Itapuã (Foto: Larissa Almeida/CORREIO) Há 15 anos à frente da preparação dos festejos do dia 2 de fevereiro, a iaolorixá OriObá Lilian Santana relata que a manhã do dia sagrado, normalmente, tem um movimento tranquilo na Colônia dos Pescadores de Itapuã. Pela tarde, no entanto, o profano se mistura aos pedidos de fé. >
“Tem um samba de viola para buscar nossas raízes do Recôncavo. Todo mundo aqui na praia compartilha. No mesmo horário do Rio Vermelho, saímos em procissão e saudamos a nossa rainha para que ela traga muitos peixes, proteção a todos os pescadores e saúde”, pontuou. A ialorixá Lilian Santana está no comando dos festejos de Iemanjá em Itapuã há 15 anos (Foto: Larissa Almeida/CORREIO) Para não deixar Oxum enciumada, Lilian também organizou o presente da orixá das águas doces, que neste ano foi depositado na Lagoa do Abaeté, às 6h desta quinta-feira. Presente nos atos de fé, o presidente da Colônia de Pescadores de Itapuã, Arivaldo Santana, vê as tradições como forma de afirmação. “Manter uma festa dessa é manter a cultura dos pescadores. Quando você não tem cultura, você não tem nada. Temos que mostrar cultura para aparecer, existir e resistir”, frisou. >
Ao lado do povo de santo de Itapuã, indígenas do bairro também se juntaram à celebração. Na cultura dos povos originários, a Rainha do Mar não é cultuada, mas é um encante que representa as águas e oceanos. Contudo, a convivência e respeito entre os indígenas e os candomblecistas tornou possível a comunhão no dia da mãe de todos os orixás. >
Foi graças a essa partilha conjunta que a idealizadora da Feira das Mulheres de Itapuã, a indígena Rita Capotira, 50, pôde promover a venda dos produtos artesanais dos seus parentes nas imediações da colônia. >
“Poucas pessoas sabem que Itapuã é um território indígena tupinambá e quilombola, então temos esse trabalho de retomada do artesanato e da culinária nativa. Hoje, estamos em casa, fortalecendo o nosso território. Estamos em comunhão com os povos negros, então Iemanjá também tem referência para nós. Colocamos presentes para ela porque acreditamos nas forças das águas e nos encantes do mar”, declarou. >
A pouco menos de 5km de distância de Itapuã, na Colônia de Pescadores de Piatã, também houve reunião de devotos de Iemanjá. Em um pequeno grupo, pescadores e moradores da região estavam envolvidos em um samba de roda depois de terem entregado ao mar um balaio com flores, champanhe, sabonete e perfume. >
Longe da lotação do Rio Vermelho, a aposentada mãe de santo Irami de Araújo, 60, justificou sua preferência por Piatã ao apontar que a mesma Iemanjá que rege as águas de lá, rege as de cá. Concordando com Irami, a baiana de acarajé Viviane Rodrigues, 36, acrescenta que o que difere as duas praias e a faz optar por Piatã são as companhias. >
“Aqui tem muita alegria e amizade. Adoramos fazer os festejos todo ano, somos devoto de Iemanjá, fizemos nossos pedidos e já soltamos até foguetes. Prefiro ficar aqui, porque é mais calmo e é bom evitar aglomeração, ainda mais que estamos com a covid-19 ainda entre nós. Temos que ter cautela”, aconselha. >
Foi na tranquilidade do vai e vem das ondas que o pescador Luiz Gonzaga, 65, foi agradecer a quem ele atribui a razão de ainda estar vivo. “Duas vezes eu estava em alto mar e aconteceu de a embarcação naufragar. Perdemos a embarcação e pensaram que não conseguiríamos retornar, até que conseguimos nadar e encontrar um pedaço de terra. Pedi ajuda a Iemanjá antes e ela me agraciou. Até hoje, tenho muito respeito, peço licença sempre que vou entrar no mar. Hoje, já agradeci e pedi muitos peixes”, conta Luiz. O pescador Luiz Gonzaga prestou homenagens a Rainha do Mar na praia de Piatã (Foto: Larissa Almeida/CORREIO) No outro lado da cidade, também houve homenagens para Iemanjá na Praia da Preguiça, local onde aconteceu, nesta tarde, o evento Dois de Fevereiro: A festa, no restaurante Amado. Com a presença do ilustre Sidney Magal e dos Filhos de Gandhy, os devotos de Iemanjá almoçaram com vista para o mar e aproveitaram para confraternizar até o cair do sol, quando os balaios com flores e champanhes seriam depositados no mar. >
Filha de Oxum, a advogada Florinda Barreto, 55, acredita na união entre sua mãe e Iemanjá, uma vez que foi salva por duas vezes de acidentes no mar. Agradecida, ela optou por um evento perto da praia para conseguir homenageá-la. “Nós vamos colocar no mar a rosa e um champanhe, porque ela merece. Preferi vir para cá porque não gosto de tumulto e aqui é mais tranquilo e mais privado”, completou. A advogada Maristela Florinda Barreto optou por saudar Iemanjá em um evento privado na praia da Preguiça (Foto: Larissa Almeida/CORREIO) Para Mazinho, dos Filhos de Gandhy, poder voltar a tocar no dia da Rainha do Mar era digno de celebração. Para honrar o retorno pós pandemia, ele prometeu um repertório repleto de canções em homenagem a ela na tarde desta quinta-feira. “É muito importante para os Filhos de Gandhy, depois de dois anos sem pandemia, sem fazer evento”, justificou. >
*Com orientação da subchefe de reportagem Monique Lôbo>