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A doença que exige antibióticos por seis meses e ainda desafia a medicina

Apesar de ter tratamento gratuito pelo SUS, tuberculose continua entre as infecções que mais matam no mundo

  • Foto do(a) author(a) Mariana Rios
  • Foto do(a) author(a) Agência Einstein
  • Mariana Rios

  • Agência Einstein

Publicado em 2 de junho de 2026 às 15:18

Por que a tuberculose ainda é um problema?
Por que a tuberculose ainda é um problema? Crédito: Freepik

Tomar antibióticos diariamente durante seis meses pode parecer exagero para muitas pessoas, mas essa é a realidade de quem recebe o diagnóstico de tuberculose no Brasil. Embora seja uma doença antiga e tenha tratamento disponível gratuitamente pelo Sistema Único de Saúde (SUS), a infecção continua entre as principais causas de morte por doenças infecciosas no mundo. O desafio não está apenas em diagnosticar os pacientes a tempo, mas também em garantir que eles consigam concluir um tratamento longo, cuja interrupção pode tornar a bactéria resistente aos medicamentos.

Mesmo com décadas de conhecimento científico e estratégias globais de combate à doença, a erradicação da tuberculose avança mais lentamente do que o esperado. Estudos recentes mostram que os obstáculos estão distribuídos por toda a rede de atendimento, desde o diagnóstico tardio até as dificuldades para tratar os casos mais resistentes.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) estabeleceu a meta de reduzir em 80% os casos da doença até 2030, tomando como base os números registrados em 2014. Para isso, os países deveriam alcançar uma incidência máxima de 6,7 casos para cada 100 mil habitantes. O Brasil, no entanto, ainda está distante desse objetivo.

Um estudo publicado em 2025 na revista científica The Lancet Regional Health estimou que o país registrou 39,8 casos por 100 mil habitantes em 2023. Mantido o ritmo atual de redução, a projeção é que o Brasil chegue a 2030 com uma incidência de 18,5 casos por 100 mil habitantes — quase três vezes acima da meta estabelecida pela OMS.

Por que a tuberculose ainda é um problema?

A persistência da doença não está relacionada à falta de tratamento, mas a uma combinação de fatores biológicos e sociais.

A bactéria causadora da tuberculose, a Mycobacterium tuberculosis, pode permanecer "adormecida" no organismo durante anos. Estima-se que cerca de 2 bilhões de pessoas em todo o mundo carreguem o bacilo em estado latente, sem apresentar sintomas. Quando o sistema imunológico enfraquece, a infecção pode se manifestar.

Segundo o pneumologista José Eduardo Afonso Junior, coordenador médico do Programa de Transplantes do Hospital Israelita Albert Einstein, os casos se concentram principalmente em países de baixa e média renda e em grupos mais vulneráveis.

"Temos uma alta carga de doentes em países de baixa e média renda, ainda maior em pessoas que vivem com HIV, diabetes, desnutrição e tabagismo, além de determinantes sociais como pobreza e moradia precária, que aumentam os casos", explica.

Os desafios vão além da questão médica. Muitos pacientes abandonam o tratamento por dificuldades financeiras, necessidade de trabalhar ou falta de acesso regular aos serviços de saúde.

"Fatores como pobreza, trabalho informal e perda de renda levam muitos pacientes a abandonarem o tratamento", afirma o especialista. "Ainda existe um forte estigma social relacionado à tuberculose. Somado à baixa escolaridade, às longas distâncias até os serviços de saúde e aos custos de deslocamento, isso faz com que muitas pessoas desistam do acompanhamento."

O risco de interromper os antibióticos

No SUS, o tratamento padrão exige o uso contínuo de antibióticos durante seis meses.

A duração prolongada tem uma explicação: a bactéria é capaz de sobreviver por longos períodos dentro do organismo. Quando a medicação é interrompida antes do prazo recomendado, parte dos microrganismos pode permanecer viva e desenvolver resistência aos medicamentos.

Esse fenômeno preocupa especialistas porque torna a doença muito mais difícil de tratar.

Os casos resistentes exigem terapias mais longas, mais caras e com menores taxas de cura. Por isso, uma das principais linhas de pesquisa atualmente busca desenvolver novos medicamentos capazes de combater as formas resistentes da tuberculose.

Um estudo publicado em janeiro de 2026 na revista Nature Communications identificou um possível ponto fraco da bactéria. Os pesquisadores descobriram que ela depende de um mecanismo interno de reciclagem celular, conhecido como ClpC1, para eliminar estruturas danificadas e continuar sobrevivendo.

Sem esse sistema, a bactéria fica mais vulnerável às defesas naturais do organismo. A descoberta pode abrir caminho para o desenvolvimento de antibióticos mais eficazes e tratamentos mais curtos.

"Nos últimos anos tivemos avanços importantes com esquemas terapêuticos encurtados e novas drogas orais, que melhoram a adesão ao tratamento e reduzem internações. Mas isso exige capacidade rápida de diagnóstico e monitoramento constante dos pacientes", ressalta Afonso Junior.

Inteligência artificial pode acelerar diagnósticos

Além da busca por novos medicamentos, outra aposta da ciência é acelerar o diagnóstico da doença.

Entre as estratégias estudadas estão testes rápidos com amostras coletadas na mucosa da boca, ampliação do uso de radiografias portáteis e sistemas de inteligência artificial capazes de identificar sinais precoces da tuberculose.

O radiologista Pedro Vieira, diretor médico do Hospital Municipal de Aparecida de Goiânia (HMAP), participa de um projeto que utiliza inteligência artificial para analisar radiografias de tórax em busca de alterações compatíveis com a doença.

Desenvolvido pelo Einstein dentro do Programa de Apoio ao Desenvolvimento Institucional do Sistema Único de Saúde (Proadi-SUS), o sistema é capaz de detectar automaticamente sinais como opacidades e consolidações pulmonares associadas à tuberculose.

"A ideia não é substituir o médico, mas funcionar como um segundo olhar, aumentando as chances de detectar alterações precocemente", explica Vieira.

Segundo ele, a tecnologia consegue analisar imagens em poucos segundos e identificar casos suspeitos que devem ser priorizados para exames laboratoriais confirmatórios.

"Essa agilidade é especialmente importante em populações vulneráveis, regiões remotas ou locais com escassez de radiologistas. Quanto mais rápido ocorre o diagnóstico, menor é a janela de transmissão da doença para outras pessoas", afirma.

O projeto está em fase de validação clínica e envolve dez centros de pesquisa distribuídos por diferentes regiões do país. Até o momento, quase 2 mil casos positivos de tuberculose foram incluídos na análise.

Após a conclusão dessa etapa, a expectativa é iniciar o processo de avaliação regulatória junto à Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), passo necessário para que a tecnologia possa ser incorporada ao SUS.

Tags:

Antibiótico