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Perla Ribeiro
Publicado em 2 de junho de 2026 às 14:07
Silenciosas e frequentemente subdiagnosticadas, muitas doenças renais crônicas evoluem sem sinais evidentes até fases avançadas. Quando os sintomas finalmente aparecem, o comprometimento dos rins já costuma ser significativo, e, em muitos casos, o paciente acaba necessitando de diálise ou transplante renal. O desafio é que parte desses transplantes pode não ter o desfecho esperado justamente pela ausência do diagnóstico correto da doença de base que levou à falência renal. >
Esse cenário reforça a importância do diagnóstico precoce e da investigação adequada das doenças glomerulares, especialmente das condições raras, que ainda enfrentam baixa conscientização e importantes barreiras diagnósticas. Entre elas estão a Nefropatia por IgA (IgAN) e a Glomerulopatia por Complemento 3 (C3G), doenças rara e ultrarrara que afetam os glomérulos, estruturas dos rins responsáveis pela filtragem do sangue.>
“Para doenças glomerulares, o padrão da lesão só pode ser definido com segurança analisando a amostra retirada via biósia renal no microscópio”, explica o médico patologista renal e membro do Comitê de Patologia Renal de Doenças Raras da Sociedade Brasileira de Nefrologia (SBN), David Campos Wanderley.>
Os impactos da falta de diagnóstico adequado são relevantes. Estudos mostram que a recorrência da IgAN após o transplante renal pode variar entre 20% e 60%, dependendo do tempo de acompanhamento e dos critérios diagnósticos adotados. Já a C3G apresenta evolução ainda mais agressiva: cerca de 50% dos pacientes desenvolvem insuficiência renal em até dez anos e até 90% dos transplantados podem apresentar falha do enxerto renal.>
Nesse contexto, a biópsia renal se consolida como uma ferramenta estratégica da medicina diagnóstica, capaz de identificar com precisão alterações que exames laboratoriais isolados muitas vezes apenas sugerem. O procedimento consiste na retirada de um pequeno fragmento do rim para análise por técnicas especializadas, como microscopia óptica, imunofluorescência e, em alguns casos, microscopia eletrônica.>
Apesar de sua relevância clínica, o acesso à biópsia renal ainda enfrenta desafios importantes no Brasil, especialmente no sistema público de saúde. O exame permanece concentrado em centros de média e alta complexidade, geralmente localizados em grandes centros urbanos, o que limita o acesso em regiões mais remotas.>
No SUS, o caminho até o procedimento pode ser longo, envolvendo encaminhamento, avaliação especializada e fila para realização do exame. Um dos poucos levantamentos disponíveis sobre o tema aponta que apenas 36% da necessidade estimada de biópsias renais foi efetivamente atendida no SUS no estado de São Paulo em 2019.>
Outro gargalo importante é a escassez de patologistas especializados em nefropatologia. Dados recentes indicam que o Brasil conta com cerca de 4,4 mil patologistas — número equivalente a aproximadamente dois profissionais por 100 mil habitantes, abaixo da recomendação da Organização Mundial da Saúde (OMS), que sugere entre cinco e seis especialistas para essa proporção populacional.>
“Hoje temos cerca de 30 nefropatologistas em todo o país. Além da baixa procura pela especialidade, muitos profissionais precisam complementar sua formação fora do Brasil, já que a residência em anatomia patológica sozinha, na maioria das vezes não é suficiente para exercer a subespecialidade com expertise”, afirma Wanderley. O especialista atua no Instituto de Nefropatologia, em Belo Horizonte (MG), parceiro do SUS e um dos maiores centros da especialidade no país, responsável por cerca de 5 mil biópsias renais ao ano.>
Atualmente, o rim lidera a lista de espera de transplantes no Brasil. Das cerca de 78 mil pessoas que aguardam um órgão no país, mais de 42 mil esperam por um transplante renal de acordo com dados do Ministério da Saúde. Apesar da realização de cerca de 6 mil transplantes por ano, a demanda segue muito superior à capacidade do sistema.>