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Mariana Rios
Agência Einstein
Publicado em 3 de junho de 2026 às 10:50
A possibilidade de promover uma espécie de "reset neurobiológico" no cérebro tem colocado a ibogaína no centro das discussões científicas sobre novos tratamentos para dependência química. A substância psicodélica, extraída da raiz de uma planta originária da África Central, voltou aos holofotes após o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, assinar uma ordem para ampliar o financiamento de pesquisas e acelerar a análise de ensaios clínicos envolvendo o composto. >
A medida é considerada um marco na retomada dos estudos com psicodélicos no país e pode gerar novos dados científicos sobre uma substância que ainda desperta mais perguntas do que respostas entre especialistas.>
O interesse da comunidade científica está ligado a uma hipótese cada vez mais discutida em pesquisas recentes: a de que a ibogaína seria capaz de "reiniciar" temporariamente mecanismos cerebrais associados à dependência química.>
Uma revisão científica publicada neste ano na revista Molecules sugere que a substância atua em diversos receptores do cérebro e pode reduzir a hiperatividade do sistema de recompensa, área relacionada ao prazer e ao desejo compulsivo por drogas. Na prática, isso poderia diminuir a fissura por substâncias como álcool, cocaína e opioides, além de aliviar sintomas de abstinência.>
Segundo a psiquiatra Érica Carneiro Pessoa, pesquisadora da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), muitos pacientes descrevem a experiência como uma mudança abrupta de perspectiva.>
"O dependente químico frequentemente vive com um repertório muito restrito, em que a rotina, os relacionamentos e os pensamentos giram em torno da droga. Quando ocorre essa reorganização, ele passa a enxergar outras possibilidades de vida", explica.>
Relatos de participantes de pesquisas realizadas no Brasil mostram que a experiência costuma ser intensa. Além de náuseas, tontura e exaustão física, muitos pacientes descrevem lembranças vívidas do passado, reflexões profundas sobre o futuro e experiências emocionais marcantes.>
“O Brasil tem uma tradição importante em estudos com substâncias psicodélicas. Há alguns anos, começaram os estudos com ibogaína por aqui e já temos uma produção nacional relevante”, relata o psiquiatra Marcelo Feijó de Mello, professor da graduação em Medicina do Ensino Einstein. “No entanto, as evidências que temos sobre sua eficácia terapêutica ainda são poucas e limitadas aos resultados de estudos observacionais ou relatos de caso.”>
Apesar dos resultados promissores, os especialistas ressaltam que a ibogaína continua sendo uma substância experimental. Até hoje, não existem evidências científicas consideradas robustas o suficiente para comprovar sua eficácia terapêutica.>
Parte do desafio está justamente na realização dos estudos clínicos. Como os efeitos psicodélicos são facilmente percebidos pelos participantes, torna-se difícil aplicar o modelo tradicional de testes com placebo, considerado o padrão-ouro da pesquisa médica.>
Além disso, existem riscos importantes associados ao uso da substância. O principal deles envolve complicações cardíacas, já que a ibogaína pode provocar arritmias graves e aumentar o risco de morte súbita em determinadas situações.>
Para o psiquiatra Marcelo Feijó de Mello, professor de Medicina do Einstein, o cenário atual exige equilíbrio entre entusiasmo e cautela.>
"Há um futuro promissor para essa terapia, mas ela não deve ser encarada como uma solução para todos os problemas. Algumas pessoas podem se beneficiar bastante, enquanto outras talvez não tenham a mesma resposta", afirma.>
Embora ainda distante da prática clínica, a ibogaína vem ganhando espaço no debate científico global. E, com a ampliação dos investimentos em pesquisa nos Estados Unidos, especialistas acreditam que os próximos anos poderão trazer respostas mais claras sobre o potencial — e os limites — desse possível "reset" do cérebro.>