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Donaldson Gomes
Publicado em 9 de julho de 2023 às 05:00
Não é por acaso que muitos produtores do Oeste gostam de se referir a si mesmos –ou, cada vez mais, a seus pais e até avós – como pioneiros. Mesmo expressões como desbravadores e até conquistadores podem ser encontradas nos registros históricos sobre a ocupação dos imensos chapadões no canto mais ocidental do mapa da Bahia. Deixando de lado palavras que possam trazer ruídos de interpretação, a realidade é que o cerrado é hostil com quem chega. Para dizer o mínimo. >
Antes de entregar sua riqueza, enterrada em terra seca e pobre para a atividade rural, a terra precisa ser bastante trabalhada. O ar seco e empoeirado lhe deixa sempre sedento. A boca chega a rachar. Aquele céu azul e, quase sempre, sem nuvens que aparece nas fotos do início do junho é habitado por um sol que parece incansável da hora que acorda até adormecer num poente que oferece uma explosão de cores difícil de descrever, em um horizonte plano, sem ladeiras ou arranha-céus à vista. >
Foi debaixo deste céu que Lucas viu a fazenda da família quebrar em 2015. O cerrado é implacável. Foi lá também que testemunhou o pai, Amauri Stracci, se refazer. “Meu pai não para, está sempre no celular, se sentar por cinco minutos no sofá, adormece”, conta o engenheiro agrônomo de 28 anos, que desde 2016 se juntou ao restante da família na lida com a terra. >
Só o pedido de entrevista é capaz de frear o destemor de Amauri. Nos encontrarmos no complexo da Bahia Farm Show, em Luís Eduardo Magalhães, trocamos cumprimentos e ele, sorrindo, pede que o filho fale. O papo seria sobre conectividade, mas é, na verdade, sobre coragem, correr riscos e inovação. Ainda que não possa mais ser tratado como uma nova fronteira agrícola, uma vez que já há alguns anos abriga atividades muito bem consolidadas, o Oeste segue como uma terra de oportunidades e desafios, que demandam sempre um novo olhar. >
Lucas conta que o caminho da família Stracci para sobreviver ao processo de recuperação judicial passou pelo investimento no processo de integração entre a lavoura e a pecuária, movimento que está em alta na região. Mas a busca por inovação está longe de ser novidade na propriedade, que há 12 anos já investe em agricultura de precisão, trabalhando com amostragem georreferenciada de áreas e zonas de manejo. >
“Sempre investimos na cultura do algodão, que possui custos e riscos elevados, então é importante ter alternativas. Foi por isso que decidimos verticalizar. Depois da colheita dos grãos sobrava uma massa grande”, lembra. Nessas áreas, os produtores passaram a plantar pastagens, utilizando as melhores técnicas de manejo do solo. Hoje, o Grupo Stracci registra uma produtividade de sete cabeças de gado por hectare, enquanto a média nacional é de menos de uma >
Atualmente a propriedade abriga 6 mil cabeças de gado e deve chegar a 10 mil até 2025. Em 2030, as perspectivas são de atingir o número de 30 mil animais, com a produção também em regime de confinamento. “A dificuldade nos motivou a inovar”, conta Lucas. >
O próximo passo é o investimento em conectividade para agilizar o controle da pecuária. “Nós temos sistemas de gerenciamento, mas sem ter acesso à informação em tempo real, acabamos trabalhando sempre olhando para trás”, explica Lucas Stracci. A expectativa é contar com a telemetria das máquinas, controle de bebedouros, comedouros, monitoramento de pastagens, controlar a cerca elétrica e individualizar cada vez mais as informações sobre o rebanho. “Hoje ainda é caro ter um chip em cada animal, mas já estamos nos preparando para quando isso baratear”, diz. >
O supervisor de vendas para produtos tecnológicos na Case IH, Ubiratan França, explica que as máquinas comercializadas atualmente já são entregues com muita tecnologia embarcada. Além disso, esses equipamentos podem ser conectados a centrais de operações, como a AFS Conect Center, disponibilizada pela fabricante para empresas concessionárias. “Com conectividade, podemos acompanhar a operação em tempo real e até nos antecipar a possíveis problemas no uso dos equipamentos”, explica. >
A parceria com o Grupo Stracci foi a primeira da operadora Tim no segmento de pecuária no país. OS produtores esperam uma redução de pelo menos 10% em custos operacionais. Por meio do 4G TIM no campo, a operadora vai levar conectividade, com sinal de quarta geração, parar cobrir uma área de 5.200 hectares. Segundo Paulo Humberto Gouvea, diretor de Soluções Corporativas da TIM Brasil, a participação da companhia na Bahia Farm Show demonstrou o compromisso com o agronegócio. “Esse avanço tecnológico tem dado mais eficiência e pode provocar uma revolução no agronegócio, uma vez que a internet permite maior controle das máquinas e acesso a informações importantes, como a contenção de pragas e previsão do tempo”, explica. >
Para a operadora, a região conhecida como Matopiba é de extremo interesse em função da extensa área agricultável. São 35 milhões de hectares aptos para a produção, de acordo com dados da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab). O Matopiba é uma das principais fronteiras agrícolas do País, com mais de 320 mil propriedades, e responde por mais de 10% da produção nacional de soja e milho, tendo a porção baiana da região como a segunda maior produtora brasileira de algodão, atrás apenas do Mato Grosso. >
Este ano, durante a Agrishow, realizada em maio na cidade de Ribeirão Preto (SP), a TIM anunciou a marca de 14,4 milhões de hectares conectados com 4G no País. A meta da companhia é alcançar 16 milhões de hectares ainda em 2023. >
“Solo em construção” >
Quem vê os números de produtividade das culturas agrícolas no Oeste da Bahia pode ser tentado a imaginar que o cerrado é naturalmente fértil e propício à produção agrícola. Mas Luiz Antonio Pradella, diretor de Sustentabilidade da Aiba e vice-presidente da Febrapdp na Bahia, entidade que trabalha com a difusão do sistema de manejo direto do solo, rechaça essa informação. “O cerrado é um solo que está em construção”, diz. >
A Bahia possui 9,1 milhões de hectares (ha) ocupadas com o cerrado. Destas, 5,1 milhões de ha são potencialmente agricultáveis, de acordo com dados da Embrapa. >
Segundo o Panorama para a Estimativa da produção de grãos no Oeste da Bahia, divulgado pela Aiba, as quatro principais culturas agrícolas da região – soja, algodão, milho e sorgo – ocupam pouco mais de 2,5 milhões de hectares.>
Para demonstrar o impacto que a ação humana representa na melhoria das condições da terra para a agricultura ele faz uma medição do “solo nu” em uma profundidade de 3 centímetros. O termômetro marca 60 graus celsius (°C). Na superfície coberta com palha, a temperatura cai para 55°C. Logo embaixo da palha, a temperatura baixa para 36,4°C e a 3 cm de profundidade, 23°C. >
“Até hoje nós temos um solo que está sendo construído, é pobre em nutrientes, agora tem um relevo bom para trabalhar porque é plano e permite a mecanização”, explica Pradella. Segundo ele, essas condições, somadas com a mentalidade dos produtores, de investir na correção de solo e buscar fazer coisas novas são a explicação do sucesso que o agro vem conseguindo há quatro décadas. “A gente não pode perder de vista que tem muita pesquisa acontecendo o tempo inteiro, inclusive particulares”, destaca. >
Luiz Pradella
diretor de Sustentabilidade da Aiba e vice-presidente da Febrapdp na BahiaPradella acredita que o futuro da região passa pela confirmação de uma “profecia” que era repetida exaustivamente no passado. “O cerrado vai confirmando o seu potencial para ser o celeiro do mundo”, diz. Nos próximos anos, acredita, devem se intensificar movimentos de diversificação da produção e de adensamento de cadeias produtivas, com processos de agroindustrialização ganhando cada vez mais força. “Se olharmos bem, foi isso o que aconteceu no Sul do país e que já começa a acontecer no Centro-Oeste. Vai chegar o momento em que teremos uma área agrícola consolidada em termos de tamanho e aí o crescimento vai se dar muito com a processos industriais para beneficiamento dessa produção”, acredita. Hoje já estão em curso, por exemplo, iniciativas para a produção de etanol a partir do milho e do sorgo. >
“Não acredito que deixaremos de exportar commodities porque isso depende mais da vontade de quem compra, agora iremos buscar outros mercados também. Este é um movimento comum em qualquer região agrícola”, explica. >
Busca por excelência >
A estrada até a propriedade da engenheira agrônoma e produtora rural Carla Pegoraro, em São Desidério, é longa para quem vive em Salvador. O colega que contou a história disse que seria “rapidinho”, mas no fim das contas, três horas na ida e quase isso para voltar. >
Entre Luís Eduardo Magalhães e a propriedade, em São Desidério, fazendas, fábricas, silos gigantescos e outras estruturas demonstram o potencial de riqueza que o bom manejo do solo pode gerar. “Nós devemos ao agro o fato de sermos o sexto PIB (Produto Interno Bruto) da Bahia, mesmo sendo um município externamente jovem”, ressalta o prefeito de Luís Eduardo, Junior Marabá. “Produzimos em larga escala e não fazemos mais por conta das deficiências que existem fora das porteiras. Dentro das fazendas nós somos responsáveis por produzir o melhor algodão do mundo”, orgulha-se. >
Voltando à estrada, o mar de algodão indica a chegada em São Desidério. Os responsáveis pela carona param para fotos das plumas inexplicavelmente brancas no meio de tanta poeira. >
Finalmente na fazenda, a conversa é sobre um projeto piloto para a irrigação de soja por gotejamendo, da Rivulis em parceria a Basf. Trabalhando na área desde 2014, Carla Pegoraro conta que o solo é um pouco mais arenoso que a média da região. “Aqui chove muito pouco”, diz. Hoje o foco está na produção de soja e milho. Desde 2022, a propriedade está trabalhando com irrigação através de pivôs centrais e agora está testando o uso do gotejamento. >
A área de 58 hectares utilizados para o teste ficou pronta em novembro do ano passado e já produziu a primeira safra de soja com o uso do gotejamento. A tecnologia permitiu uma economia no uso da água de 35% e 70% de produtividade em relação às áreas sem irrigação. “Teve uma produtividade maior do que a conseguida nas áreas de sequeiro (sem irrigação), mas eu acredito que ainda há muito para melhorar”, pondera a produtora. >
Outra vantagem da irrigação subterrânea, que é bastante comum em outros tipos de culturas, mas é inovadora na produção de grãos, está no melhor aproveitamento das áreas. Os pivôs costumam deixar a desejar na irrigação das bordas das plantações, comumente chamadas de “calcinhas”. O uso das duas tecnologias pode resolver este problema, acredita a produtora. “Outra coisa importante é que o gotejamento nos permite consumir menos energia, é um projeto ecológico e eficiente. Sustentável é a palavra”, acredita. >
Leandro Lance, diretor de desenvolvimento de mercado e produtos da Rivulis na América do Sul e Central, explica que o projeto trabalha com o conceito de fertirrigação. Ou seja, além de otimizar a oferta de água para as plantas, ainda é capaz de entregar os nutrientes na medida exata para um melhor desenvolvimento. “Os resultados vão melhorando ao longo do tempo porque à medida em que vamos trabalhando, o solo vai melhorando cada vez mais. A gente espera chegar em números cada vez maiores”, diz. Em determinadas áreas, foram produzidas mais de 90 sacas por hectare e ele acredita que o potencial é chegar a estes números em toda a área do estudo. >
“Na irrigação normalmente há uma perda de água por evapotranspiração. Com o gotejamento isso não acontece, porque a água está protegida debaixo da terra”, explica. “Além disso, não precisamos irrigar a área total, apenas onde queremos molhar mesmo”, diz. Além da fertirrigação, o projeto conta com um pool de especialidades para facilitar o controle de pragas, entre outras coisas. Estão à disposição do projeto quatro satélites e um radar, levando informações a cada três dias sobre humidade, produtividade e tudo mais que diz respeito ao projeto.>
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