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André Uzeda
Publicado em 18 de fevereiro de 2026 às 06:00
Uma mulher – meio brincando, meio irritada – indagou a amiga, em frente do camarote Brahma: “tô achando que tem mais viado no Carnaval desse ano do que no ano passado”. >
Este repórter passava pelo caminho, vestido de Gandhy, e pensou até em interpelá-la: “isso é uma coisa positiva, minha senhora”. Como não tenho lugar de fala, calei-me. >
Leque faz sucesso no Carnaval de Salvador
Veja só. A premissa da reclamante foliã realmente não parece falsa. De fato, há uma impressão empírica que a festa cresce vertiginosamente entre o público LGBTQIAPN+. É um movimento contínuo da última década, que reconfigurou o Carnaval de Salvador. O clima nos circuitos ficou bem menos hostil, principalmente para as mulheres. A cultura do assédio que imperou no auge da Axé Music – com rodinha de beijo; beijo roubado e puxada de braço – não é mais tolerada. Claro! Aí também entra a enfática contribuição de campanhas anti-assédio e movimentos como o “Não é Não”, condenando publicamente antigas práticas abusivas. O público LGBT também ajudou a distensionar as brigas, tão frequentes nos blocos e pipocas mais concorridos. Isso não significa que as porradas acabaram. Vez ou outra há focos de confusão ao longo do circuito. O ponto é que há uma sensação inevitável de mais tranquilidade no ar. >
Agora é a vez do leque>
Depois destas duas mudanças comportamentais, o público LGBT agora insere uma terceira – essa rítmica e estética. Desde o ano passado, os leques de plástico compõem o visual do folião babadeiro. O objeto veio importado dos clubes noturnos de São Paulo, sobretudo nos lugares onde toca música eletrônica madrugada adentro.>
Há um movimento específico com as mãos que faz o leque abrir de forma rápida e repetida, produzindo um som cortante, marcado e redondamente sonoro. Agora, quando o artista pede aplausos, não se ouve mais palmas, mas o barulho dos leques sincronizados. A música “É Terreiro”, que foi a aposta (acertada) de Daniela Mercury no Carnaval deste ano, é toda acompanhada com o som dos leques. No refrão vem a apoteose, estimulado pela própria Daniela.>
Ainda é cedo para dizer se o adereço veio para ficar ou se é apenas uma moda passageira, como já tivemos os 'mamãe sacodes', as passadeiras de diabinha e as pistolas de plástico – estas felizmente abolidas do bloco As Muquiranas. >
Se fosse fazer uma previsão, diria que há uma chance de maior longevidade dos leques. Por que, diferente dos outros, eles influenciam no compasso da música. É o primeiro adorno sonoro usado concomitantemente por tanta gente no Carnaval de Salvador. Isso muda a direção do som. Agora não é apenas do trio para o público. É também do público para o cantor.>
Isso – com o perdão do trocadilho infame – abre um leque de possibilidades para novas músicas e inventividades estéticas.>
O projeto Correio Folia é uma realização do Jornal Correio com apoio institucional da Prefeitura Municipal de Salvador>