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Do Recôncavo à Avenida: o samba que agrada os jovens

Carnaval 2026 celebra as raízes e o redescobrimento do Samba pela nova geração

  • Foto do(a) author(a) Moyses Suzart
  • Moyses Suzart

Publicado em 18 de fevereiro de 2026 às 07:00

Pioneiro: O Alerta Geral foi o primeiro a levar o samba para  o Carnaval
Pioneiro: O Alerta Geral foi o primeiro a levar o samba para o Carnaval Crédito: Gilmar Souza - GS Filmes - Divulgação

O atual cenário sambista de Salvador bem que poderia caber numa frase bíblica, com suas devidas adaptações. “Do samba viemos e ao samba voltaremos”. Não pela homenagem no carnaval deste ano, mas o sambão raiz está ganhando um lugar no gosto da nova geração.

Blocos tradicionais do gênero no carnaval, antes com fama de ser um espaço de pessoas mais velhas, como Alerta Geral e Alvorada, estão vendo novos adeptos querendo o espaço antes ocupados apenas pelos seus pais e ancestrais.

Isso é bom, pois samba não é apenas aprender a sambar, né Virgínia? É saber que o ritmo é ancestralidade, é família, é cultura. E, neste carnaval que homenageia o ritmo que nasceu na Bahia, o resgate das novas gerações pôde ser percebido nos blocos da festa momesca, apesar de suas peculiaridades.

A ala das baianas lembra a gênese do samba no Recôncavo e nos terreiros
A ala das baianas lembra a gênese do samba no Recôncavo e nos terreiros Crédito: Sora Maia/Correio

Pedro Silva é um exemplo disso. Ele estava repetindo seu ritual de todo ano nas quintas-feiras de carnaval. Ele diz que já tem uns 30 carnavais saindo no Alerta Geral, mas em 2026 foi diferente. Sua filha, Amanda, resolveu, aos 22 anos, sair pela primeira vez com o pai. Ela e a amiga Raquel Almeida preferem um pagodão mais atual, mas nos últimos anos, frequentando rodas de samba pela cidade, como a de São Lázaro, resolveram dar um voto de confiança aos mais velhos.

“Dava muita gente velha nesses blocos, é tarde e nunca me chamou atenção. Mas as rodas de samba estão na moda, tenho escutado mais os sambas de meu pai e tem me atraído. Meu pai chorou quando disse que queria ir com ele. Meu avô e avó saíam e meu pai já estava achando que a tradição morreria com ele. Creio que este samba mais cadenciado voltou a ser consumido, eu mesmo estou adorando, principalmente Fundo de Quintal. Ano que vem sairei de novo, faz parte da minha história negra e preciso conservar”, disse Amanda, o novo orgulho do pai.

“Minha geração, antecessora do axé, já consumia muito samba, inclusive nos carnavais. Salvador tinha até escolas de samba, algo que lembra um pouco o Rio. O Alerta já saia, mas o axé engoliu o samba de carnaval e fomos empurrados para a noite de quinta, no Campo Grande, fora dos holofotes. Os desfiles morreram. O jovem precisa ver para gostar. Creio que isto está mudando por conta da facilidade da internet e de alguns artistas que estão fazendo samba raiz. Até Ivete Sangalo está cantando samba”, disse Pedro.

Resgates

Pedro tem razão. Nos últimos anos, artistas como Xanddy Harmonia está resgatando o samba raiz, daqueles que ganharam o mundo com a baiana Tia Ciata, que levou o samba tocado nos terreiros do Recôncavo para o Rio de Janeiro. Até Ivete Sangalo, ícone do axé, fez uma turnê “Clareou”, uma homenagem ao samba e a Clara Nunes.

Mas um nome deste cenário ganha destaque e reforça o peso entre a tradição e o novo. Taian Riachão já é um nome importante nas novas rodas de samba que estão ganhando o público e também carrega a ancestralidade no seu nome, obviamente do seu pai, a peça mais importante do samba baiano, Riachão.

Samba por Sora Maia

No carnaval, Taian ganhou destaque, tocando todos os dias de carnaval, em trio independente, na Avenida. Fez parte da abertura oficial do carnaval, e ainda tocou no camarote de Brown, na Barra. O único que levou o samba carnavalesco para o circuito da orla.

“A gente volta a falar sobre circularidade, né? Eu acredito que os movimentos de tendência, inclusive comportamentais, são pendulares, fazem parte do ser humano. Mas estamos vivendo um bom momento. Vale ressaltar que, hoje em dia, com as redes sociais, as coisas se propagam muito mais, e eu acho que existe um movimento brasileiro, no geral, dos jovens estarem mais atentos à nossa cultura e consumirem o que faz parte da nossa construção identitária enquanto sociedade, enquanto povo. Também é muito importante termos pessoas como Léo Santana, que fez turnê de samba, e Ivete Sangalo, que também fez”, explica Taian Riachão.

Valorização

Para ele, o que falta na Bahia é justamente a valorização que é visto no eixo Rio-São Paulo. “Se a gente for para São Paulo e para o Rio, por exemplo, a maior turnê brasileira da história é de pagode, que também é samba. Isso é inspirador, porque o movimento vai se fortalecendo e as pessoas vão ganhando coragem para assumir esse lugar e fazer samba. Samba é algo que não se aprende no colégio, é um movimento da rua, e a rua fala, a rua é o Brasil, o Brasil é rua. Se a gente olhar para a essência do brasileiro, que acorda cedo, trabalha e chega no fim de semana querendo tomar sua cervejinha, botar um pagode, um samba, um partido-alto, um Fundo de Quintal, um Riachão para tocar, acho que é mais ou menos isso", completa.

Contudo, há contextos diferentes nesta reconexão entre jovens e o samba, principalmente quando separamos os shows que estão na moda dos blocos tradicionais de samba no carnaval.

Cabe reforçar: O perfil do jovem nos blocos de samba do carnaval não é aquele visto na maioria dos sambas de roda que viraram moda entre universitários e esquerdomachos. No bloco de rua, as novinhas lorinhas de chapéu vermelho não querem competir espaço com mulheres que carregam o samba apenas como ritmo, mas como ancestralidade e engajamento cultural.

O que se vê são jovens da periferia, geralmente com seus pais, sambando como se estivessem evocando seus ancestrais, aqueles que inventaram o samba nos terreiros baianos.

“Há um consumo dos jovens em shows de samba de roda. Há um glamour em sambar perto da banda, os holofotes como nas escolas de samba do Rio, cada vez com mais dançarinas brancas e loiras representando um espaço do povo negro. Mas o bloco, como este aqui, não tem grande destaque. Quem está aqui respira samba, tem o samba como herança cultural, não como modinha”, disse Patrícia Pereira, de 28 anos, no bloco Amor e Paixão, que saiu no primeiro dia de carnaval, no Campo Grande, mais de meia-noite, quando nenhuma televisão estava mais transmitindo a festa.

O bloco vermelho e branco saiu com um ícone do samba baiano: Nelson Rufino, fundador do Alerta Geral, o primeiro bloco de samba que colocou o ritmo em cima de um trio. Zé Arerê, presidente do Alerta, diz que os jovens estão retornando aos blocos, mas ainda de forma tímida.

É preciso mais visibilidade nos blocos de samba, muito além de um ano apenas de homenagens. E, segundo Zé, os blocos de carnaval de Salvador, nesse período do ano, são bem mais respeitados pelos artistas de fora do que os locais e ele garante que os sambistas do Rio ficam pedindo para tocar na Bahia. “Nosso bloco foi fundado em 71 e já tem 54 anos de avenida. Imagine que, destes 110 anos de samba, que o carnaval está homenageando, 54 já tem o Alerta na rua. Fomos os primeiros e únicos, mas depois vieram uma geração de blocos importantes. Então não é de agora. Somos consolidados. Este ano tem um gostinho especial, porque o Carnaval está homenageando os 110 anos do samba e eu também estou homenageando Arlindo Cruz. Todo ano, sambistas do Rio ligam pedindo para participar, para tocar no carnaval de Salvador. Fazemos sucesso fora, lotamos os blocos, imagina se fossemos mais vistos”, desabafa Zé.

Celebração

Como disse Vinícius de Moraes, o samba nasceu na Bahia, mas fazer samba, decididamente, não é contar piada. De quinta-feira a sábado de carnaval, os blocos de samba possuem seus adeptos fiéis que lotam os mais tradicionais, levando alegria, mas muita seriedade.

Com chapéu panamá, típicos de malandros do morro, o verdadeiro samba é reverenciado. Para se ter uma ideia, o Alerta Geral puxou 4 mil foliões no seu bloco, com grandes nomes do samba nacional, como Arlindinho, Grupo Fundo de Quintal e Juliana Ribeiro.

É um aperto onde é preciso muita desenvoltura e equilíbrio para conseguir espaço para dançar o mais brasileiro dos ritmos. Mas conseguem.

“É meu aniversário e não há presente maior do que estar entre os meus. Aqui o samba é uma celebração do nosso passado, é o verdadeiro, a nossa essência negra. Quer saber qual o verdadeiro samba? Tem que sair num bloco de samba daqui. Vai ter muito samba, samba que não acaba mais”, disse Alexsandra Prata.

Basta ficar meia-hora para saber que samba não é apenas ritmo mas, como Vinícius pregou, é também uma forma de oração. Este samba considerado moderno, o grande homenageado do carnaval 2026 de Salvador, nasceu oficialmente em 1916, portanto, não é tão moderno assim. Contudo, desde que o batuque do terreiro viajou com Tia Ciata para revolucionar a música, ele se reinventa, mas busca não perder suas origens, principalmente nos blocos de rua em Salvador. O samba não pede licença, ele chega, ocupa e consagra.

Na capital onde a festa reverencia o gênero, a bênção vem em forma de coro coletivo, passos herdados e de um batuque ancestral, que prova que o samba pode até circular o mundo, mas sempre encontra o caminho de volta para casa. Do samba viemos e ao samba voltaremos.

O projeto Correio Folia é uma realização do Jornal Correio com apoio institucional da Prefeitura Municipal de Salvador

Tags:

Carnaval 2026 Samba