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Da Redação
Publicado em 31 de dezembro de 2018 às 12:18
- Atualizado há 3 anos
Ajô>
Okê Arô Odé Koké Maior!>
Etemi Stella,>
Dia 31 de Dezembro de 2018>
Tive notícias da sua passagem na quinta-feira (27), justamente no dia em que eu coloquei os atabaques no chão para as obrigações de fundamento aqui no Bogum. Mais precisamente, eu recebi aquela triste noticia depois de ter colocado o axé aos pés de quem de direito. Abalada com o que soube, como manda nossa tradição, terminei os procedimentos iniciados.>
No dia seguinte, sexta-feira, logo cedo, quando eu já me preparava para determinar quem aqui de casa poderia seguir para o Afonjá, soube por uma das minhas filhas, que estava em contato com Ekedji de Nanã (Silvana), de que havia uma demanda a se resolver antes que se pudesse começar as obrigações de sua despedida. Naquele momento, eu fiquei muito preocupada com tudo que os seus filhos estavam enfrentando e sobre o perigo de não se fazer os rituais necessários para sua passagem. Me arrumei prontamente, chamei algumas filhas daqui de Casa, e segui para o Ilê Axé Opô Afonjá.>
Cheguei na sua roça por volta de uma e meia da tarde, poucos eram os que estavam lá porque boa parte das suas filhas e filhos estavam envolvidos com a missão de trazer o seu corpo para casa. Aqui, os que ficaram sob as orientações de Mãe Ditinha de Yemanjá (Iyakekerê), nos receberam e nos acomodaram carinhosamente às portas da Casa de Xangô. Diante daquela circunstância, não havia melhor lugar para estarmos reunidas, uma vez que a questão estava entregue nas mãos de Afonjá. E Afonjá é vivo!>
Com o passar das horas, as notícias que chegavam de Nazaré das Farinhas acalmavam os nossos corações e aliviavam os semblantes entristecidos dos teus filhos que circulavam pelo seu Axé. Enquanto estive ali, todos que foram chegando ao Terreiro se dirigiam à Casa de Xangô, colocavam as suas cabeças no chão e pediam justiça. Eu vi Kavionos andarem em suas terras trabalhando pela justiça que os seus filhos clamavam. Enquanto Xangô trabalhava, Yansã levantou muitas vezes a poeira vermelha do chão do São Gonçalo, fazendo mudar a cor das nossas roupas brancas; e aquele mesmo vento forte foi dando conta de abrir os caminhos que eram certos. Àquela altura do dia, eu já sabia que as suas filhas, filhos e netos andavam pelas ruas de Nazaré ecoando cânticos para Iku, carregando o seu corpo e saudando o seu Egun com a dignidade e coragem que guardam os filhos de Odé Kayodê.>
Eu precisei voltar para o Jeje, mas deixei minha filha de Omolu (Fomutinha) acompanhada de uma filha de Ogun de Dona Beata aguardando a chegada do seu povo, e incumbidas de não deixar o Ilê até que começassem as obrigações. Sei que, enquanto isso, do Orun, você pôde testemunhar que o seu legado de luta e coragem foi herdado por todos as suas filhas, filhos e netos, que de forma incessante brigaram pelo o que era correto! Esta é uma grande lição de amor e de respeito para todos nós, Povo de Santo.>
Os tempos que se avizinham no Brasil exigem de nós muita bravura para defender todo legado afro-brasileiro da violência. E, embora um discurso intolerante e racista tenha se apresentado para todos nós disfarçado numa linguagem que “reivindicava direitos”, foi importante o “silêncio” e a sabedoria política forjada nos ensinamentos de Xangô e apreendidos pela comunidade do Opô Afonjá para desfazer aquele enredo que confundiu tantas cabeças.>
Abebés, Irukerês, Adagas, Ofás, Oxês nos defenderam. A serenidade de Obá Odofim (Ribamar), a força de Mundinha de Ogun (Dagan), de Cida (Otun Dagan), Vodunsis, Ogãs, Ojés e Ekedjis todas as pessoas que pegaram estrada com um problema e trouxeram solução, honraram Maria Stella de Azevedo Santos – Odé Kayodê.>
Que do Orun, a senhora possa nos guardar, nos guiar e nos proteger.>
Agradeço em meu nome e em nome dos meus, este aprendizado. Siga em paz Iyá, por aqui seguiremos acreditando na mata, no mar, no vento, no rio e no fogo!>
Mawú Loló>
Naandojhi do Bogum – Mãe India>
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