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Após cinco anos de tratamento, voltei a enfrentar complicação ocular da diabetes

O que o edema macular diabético me ensinou sobre corpo, emoção e arte

  • Foto do(a) author(a) Gabriela Cruz
  • Gabriela Cruz

Publicado em 18 de abril de 2026 às 07:03

Eu e minha Gabriela
Eu e minha Gabriela Crédito: SERGIO REIS

Numa noite de dezembro de 2020, senti um incômodo no olho direito. Parecia algo pequeno, quase banal, mas persistente. Dias depois, procurei um médico e descobri que não era simples. Era uma complicação causada pela diabetes.

A doença afeta os vasos sanguíneos de todo o corpo, especialmente os mais delicados, como os da retina. É ali que está a mácula, responsável pelo foco da visão. Quando há acúmulo de líquido, surge o edema macular diabético, que compromete diretamente a nitidez.

Comecei então um tratamento que assusta mais pela ideia do que pela prática. Injeções dentro do olho. O procedimento é feito com anestesia e provoca, no máximo, desconforto. Ainda assim, existe o impacto emocional de se colocar nesse lugar de vulnerabilidade.

Quadro Gabriela por Arquivo pessoal

Ao longo dos anos, passei por esse processo algumas vezes. Entre melhoras e recaídas, fui percebendo algo que não está nos protocolos médicos. Meu estado emocional atravessava tudo. Sem perceber, comecei a desenhar olhos o tempo todo, como se estivesse tentando entender, de outra forma, o que acontecia comigo.

Em outubro do ano passado, após cinco anos, fiz o que imaginava ser o procedimento final. No domingo passado, o incômodo voltou. Fui ao médico e ouvi novamente que seria preciso recomeçar.

Eu chorei. Me senti pequena. Mas também percebi que não estava no mesmo lugar de antes.

Na mesma semana, participei da exposição Pluralidade em Ressonâncias, na Galeria do Barro Vermelho, no Rio Vermelho. A mostra, com curadoria de Tati Sampaio, reúne mais de 30 artistas baianos de diferentes gerações e linguagens, propondo um espaço onde as diferenças convivem e se amplificam. A coletiva também marca um momento importante para a cena local ao ser organizada pela Associação Baiana de Artistas Plásticos e Visuais (ABARVI).

Entre as obras, estava a minha.

Uma Gabriela. Inspirada na personagem de Jorge Amado, com um olho fechado e o outro aberto, maior, voltado para o mundo. Quando vi a obra na galeria, entendi algo importante. Aquela imagem não falava apenas de limitação. Falava de adaptação. De outras formas de perceber.

Talvez ver nunca tenha sido apenas uma função dos olhos.

Ao longo desses anos, fui aprendendo que a percepção também passa pelo corpo. Pelo tato, pelo som, pela intuição. A doença me impõe limites, mas também me obriga a ampliar repertórios e a prestar atenção no que antes passava despercebido.

É nesse movimento que a arte aparece para mim. Como linguagem, mas também como forma de elaborar o que não cabe em explicação.

No próximo sábado, 25, participo do Mercado de Preta e Betty, no Chile 27, na Rua Chile, com meu estúdio, o De Tudo que eu Vejo. O evento é coordenado pela chef Preta e por Paula Magalhães, do Brechó da Betty, reunindo moda, arte, gastronomia e cultura independente em uma proposta que conecta economia criativa, consumo consciente e produção local.

Um convite para quem quiser conhecer de perto o que venho construindo.

Talvez não seja a primeira vez que eu precise reaprender a enxergar. Há mais de 15 anos, tatuei no meu corpo o nome da música Além do que se vê, da banda Los Hermanos. Hoje, ela faz ainda mais sentido. "É preciso força para sonhar e perceber que a estrada vai além do que se vê".

Tags:

de Tudo que eu Vejo