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Cláudio Marques
Publicado em 17 de maio de 2026 às 05:00
Recordo-me de ter lido um belo ensaio do crítico e historiador brasileiro Paulo Emílio Salles Gomes (1916–1977) em que ele tratava das muitas mortes do cinema. Ao longo de sua vida, Paulo Emílio testemunhou sucessivas crises — estéticas e econômicas — que pareciam anunciar o fim da experiência cinematográfica. >
No ensaio, Paulo Emílio contava que muitas pessoas perceberam a chegada do som no cinema como um erro fatal, pois mataria tudo o que havia sido feito até então. Depois, com a cor, aconteceu o mesmo. A televisão parecia decretar um fim inevitável. Mais grave ainda, a sentença reapareceu com o videocassete, o DVD, e a TV a cabo. O cinema, no entanto, seguiu adiante — cambaleante às vezes, mas nunca derrotado.>
A internet trouxe a pirataria em escala inédita. Tornou-se comum baixar filmes gratuitamente e muitos cinéfilos se afastaram das telas grandes. A violência urbana somou-se ao diagnóstico pessimista. Ainda assim, as salas (e o cinema, como um todo) resistiram — e, mais do que isso, se transformaram.>
Vieram, então, o streaming e a pandemia da COVID-19… “Agora acabou!”, decretaram muitos.>
De fato, o público encolheu, muitas salas fecharam, e a recuperação tem sido lenta: até 2025, o movimento está em torno de 60% do registrado em 2019. Mas o cinema, mais uma vez, se recusa a desaparecer.>
Aos poucos, os sinais se invertem. Há um desejo renovado de sair de casa, de ocupar a cidade, de estar com as outras pessoas, deixar o celular de lado por questão de saúde mental. Existem novidades técnicas/tecnológicas que possibilitam aumento na qualidade das salas, que voltam a atrair o público. >
Por exemplo: o projetor laser oferece imagem 4K de alta qualidade e contraste, cores fortes, além de gerar economia para os exibidores. >
Acima de tudo, a sala de cinema permanece sendo uma experiência insubstituível. Trata-se de um acontecimento coletivo. Ir ao cinema implica em um ritual — escolher o filme, a roupa, o horário; atravessar a cidade com seus contrastes; encontrar pessoas, observar e ser observado. Dentro da sala, as reações se sincronizam: risos, lágrimas, sustos, aplausos. Em certos momentos, até dança, como estamos vendo com Michael. O que se vive ali não se reduz à projeção — é memória compartilhada, é presença e celebração.>
Nas últimas semanas, dois filmes explodiram nas telas do mundo todo. Somente no Brasil, Michael e O Diabo Veste Prada 2 levaram mais de 6 milhões e quinhentas mil pessoas aos cinemas. Michael faturou cerca de R$ 83.480.491,00 após duas semanas. Prada 2 fez R$ 70.135.760,00 em apenas uma semana. Números impressionantes, que transformam o Brasil no terceiro mercado para os filmes no mundo todo.>
Salas de perfis distintos — de shopping ou de rua, sofisticadas ou populares — registraram movimento fora do padrão. A despeito de qualidades e defeitos, os dois filmes investiram pesado na divulgação e o público respondeu!>
Os números revelam um dado significativo: a preferência pela versão dublada. Para Michael, 75% dos ingressos vendidos foram dublados. Para Prada 2, um pouco menos: cerca de 70%.>
Há aqui um recado claro: o público brasileiro quer se reconhecer na experiência — inclusive na língua. A valorização do idioma original permanece, mas concentrada em cinemas/ locais mais específicos.>
Outro aspecto que reaparece com força em Michael é a liberdade de reação. Cantar, comentar, dançar — participar. Em contraste com a opinião publicada pela Rolling Stone, que classificou as sessões com forte participação do público como “insustentáveis”, o que se percebe é o oposto: uma reafirmação do cinema como espaço vivo, aberto à interação. Essa resposta do público não é ruído: é parte da experiência.>
As salas de cinema estão vivas — e dependem, como sempre dependeram, de filmes que encantem e com fortes estratégias de comercialização. Fazer filmes sem pensá-los como fazer com que eles cheguem com força no momento da exibição, não funciona.>
A equação é conhecida: há infraestrutura, espectadores, marketing e o desejo de encontro.>
Mas, onde entra o cinema brasileiro nessa festa?>
Michael e Prada 2 são filmes com orçamentos astronômicos e de alcance mundial. Complicado comparar o sucesso deles com os demais filmes. De toda sorte, é importante ressaltar a importância da comercialização e divulgação de um longa antes da estreia.>
O Agente Secreto, de Kleber mendonça Filho, um filme estranho, fora dos padrões, movimentou as redes e alcançou notável sucesso não apenas por ser interessante ou mesmo ter ganho prêmios internacionais. Houve um planejamento muito apurado e com um tempo necessário para que o filme “pegasse”.>
Em 2026, até início de maio, dos 380 filmes lançados em salas de cinema, 105 são nacionais. Dois deles obtiveram desempenho relevante: O Agente Secreto e Os Velhos Bandidos, de Cláudio Torres. No acumulado do ano, porém, apenas 6,5% dos ingressos vendidos no país foram para produções brasileiras. Se tirarmos O Agente e Velhos Bandidos, percebemos que 103 longas lançados (25% do total) não fazem nem 2% das bilheterias nacionais.>
É pouco e evidencia um problema estrutural do setor. Não adianta fazer bons filmes para festivais e não estabelecer estratégia para conquistarmos o nosso mercado. Não faltam bons diretores, salas ou distribuidores. Dinheiro considerável vem sendo investido na produção dos longas nacionais.>
Mas, o modelo vigente privilegia a produção sem que a comercialização/ exibição sejam devidamente pensadas. O cinema brasileiro lança centenas de filmes no circuito comercial sem força alguma, para quase ninguém ver.>
É preciso inverter a lógica: fazer como no sistema francês e pensar a partir da exibição até chegar na produção. É preciso pensar o cinema como economia de mercado, sem abrir mão da ambição artística.>
Não nos falta muito, o mais importante já temos. Mas, é preciso colocar em prática um novo modelo, o quanto antes, sob o risco de perdermos tudo o que já foi conquistado ao longo dos anos.>
*Cineasta e exibidor (Cine Glauber Rocha)>
https://open.spotify.com/episode/7ESsqIqq7M3TRaD8cgaogP?si=kJ9kGeYcS-K0520ZAr5KGg>