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Mais visível do que nunca: oito em cada dez nordestinos percebem aumento de animais abandonados

Para mais da metade dos entrevistados, questões econômicas são o principal motivo

  • Foto do(a) author(a) Thais Borges
  • Thais Borges

Publicado em 4 de abril de 2026 às 11:00

Oito em cada dez nordestinos percebem que há mais animais abandonados nas cidades
Oito em cada dez nordestinos percebem que há mais animais abandonados nas cidades Crédito: Pexels

Não é um alerta apenas dos protetores de animais: oito em cada dez moradores de estados da região Nordeste percebem que o número de animais abandonados em suas cidades aumentou nos últimos anos. O percentual das nove unidades da federação é maior do que a média nacional - 82% contra 77% no Brasil - e é o maior do país.

Os dados fazem parte do estudo ‘Percepções e Hábitos sobre Adoção', divulgado neste sábado (4), quando se comemora o Dia Mundial do Animal de Rua. A pesquisa ouviu 1.080 pessoas em todo o país e foi realizada por GoldeN, empresa de alimentos premium especial para cães e gatos, e pela Opinion Box. Segundo as estimativas da Organização Mundial da Saúde (OMS), mais de 30 milhões de animais vivem em situação de abandono no Brasil.

Assim, de acordo com os resultados, a percepção de que o número de cães e gatos nas ruas está aumentando é ainda mais forte no Nordeste e, para mais da metade dos entrevistados (55%), questões econômicas são o principal motivo que os levariam a devolver um animal.

No entanto, como lembra o médico-veterinário especialista em nutrição Flavio Lopes, gerente de relacionamento científico de GoldeN, raramente há apenas uma causa. “Quando o estudo indica que a dificuldade financeira é o principal motivo que levaria um tutor na região a devolver um animal, isso estabelece um elo direto entre a vulnerabilidade socioeconômica e a visibilidade do abandono. Vale pontuar que essa dificuldade financeira leva em consideração não apenas o custo do alimento, mas os custos com cuidados veterinários preventivos, como vacinas e também a castração”.

A presença de animais não castrados na rua pode contribuir, de forma exponencial, para o aumento da população de animais abandonados. Assim, o problema fica ainda mais visível. Para Lopes, não significa, portanto, que há necessariamente uma preocupação maior entre os nordestinos. "Pode ser o reflexo de uma população que testemunha na prática as consequências de um ciclo: a dificuldade econômica leva à falta de acesso a serviços de saúde animal, que, por sua vez, alimenta o aumento do número de animais nas ruas", acrescenta.

Saúde

O abandono de animais nas cidades, de acordo com o médico veterinário, ultrapassa o bem-estar individual e se apresenta como um desafio com impactos na segurança, na economia e na saúde coletiva. Um dos exemplos disso é que a falta de assistência veterinária e o manejo populacional inadequado de cães e gatos de rua podem favorecer o surgimento de reservatórios para diversas zoonoses. Entre as parasitárias, a contaminação de solos por fezes infectadas propaga o larva-migrans (bicho geográfico) e a giardíase em parques e calçadas.

“No campo das doenças infecciosas, o abandono dificulta o controle da leptospirose, disseminada pela urina em ambientes compartilhados, e da raiva, que exige vigilância constante. Além disso, a falta de proteção contra ectoparasitas nesses animais favorece a manutenção de ciclos de leishmaniose e febre maculosa em áreas urbanas”, acrescenta Flávio Lopes, que cita também que o comportamento de animais sob estresse ou fome pode aumentar o risco de ataques e mordeduras, o que eleva a demanda por protocolos de profilaxia pós-exposição em unidades de pronto atendimento.

Além disso, a presença de animais em vias públicas pode provocar acidentes de trânsito graves e atrair pragas como ratos e baratas. “O abandono gera conflitos sociais e custos públicos elevados que poderiam ser mitigados com políticas de castração em massa e educação para a posse responsável, tornando o ambiente urbano mais seguro e saudável para todos”.

Para o Head de Marketing de GoldeN, Felipe Mascarenhas, os resultados apontados pelos participantes no Nordeste mostram que a jornada do tutor na região é cheia de desafios. “É por entender essas dificuldades que investimos em ações contínuas, como o apoio a ONGs, incluindo eventos, com o objetivo de fortalecer o laço entre as pessoas e seus pets. Queremos garantir que, uma vez que um animal encontra um lar, essa relação seja saudável, feliz e duradoura”, pontua.

No estudo, a própria população sugere, como solução para o problema, a oferta de consultas veterinárias gratuitas ou com desconto. Para 70% dos nordestinos, essa demanda indica que a saúde do pet é percebida como parte integrante da saúde da família.

A pesquisa também revelou que oito em cada dez animais adotados chegam aos seus novos lares por redes informais, seja através do resgate direto da rua ou da doação por amigos e familiares, superando as vias de ONGs e protetores. Há um perfil específico de quem protagoniza este ato: 70% são mulheres, com predominância da faixa etária de 25 a 34 anos. A principal motivação por trás dessa escolha é o desejo de ajudar um animal abandonado.

Há também um domínio dos “vira-latas” (SRD) nos lares do país, sendo a maioria entre os gatos (75%) e a "raça" mais frequente entre os cães (28%). Ainda assim, 60% dos brasileiros concordam que ainda existe preconceito contra animais sem raça definida, enquanto 86% acreditam que a adoção de SRDs deveria ser mais incentivada.