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Sem autorização em nenhum lugar do mundo, remédio para emagrecer já circula ilegalmente no Brasil

Retatrutida só está disponível legalmente para participantes de ensaios clínicos da Eli Lilly; atualmente, medicamento está em fase 3 de estudos

  • Foto do(a) author(a) Thais Borges
  • Thais Borges

Publicado em 2 de junho de 2026 às 05:30

Anúncios de venda ilegal de retatrutida são encontrados em sites e redes sociais
Anúncios de venda ilegal de retatrutida são encontrados em sites e redes sociais Crédito: Reprodução

Talvez você já tenha se deparado com um vídeo que com o apelido: ‘reta’. Outros a colocam em um combo com outras substâncias e chamam de ‘peptídeo’. Seja lá qual for o nome, as buscas, conteúdos e, consequentemente, vendas de uma suposta retatrutida só vêm crescendo no Brasil.

Em um ano, as buscas por ‘retatrutida’ aumentaram 60%, segundo o Google Trends. Pesquisas que combinam termos como o próprio nome com supostos laboratórios e sites também registraram ‘grande aumento’ de acordo com a ferramenta que monitora tendências. Mas é em plataformas como Instagram e TikTok que usuários compartilham relatos de experiência, formas de uso, comparações com outros medicamentos e até contatos de fornecedores. O problema é que a retatrutida não está autorizada em nenhum lugar do mundo.

Isso porque a retatrutida ainda está na fase 3 da pesquisa conduzida pelo laboratório Eli Lilly - o mesmo criador da tizerpatida (princípio do Mounjaro). Por isso, ela ainda não foi registrada em nenhum país. “A retatrutida encontra-se atualmente na Fase 3 de ensaios clínicos e não foi avaliada, nem aprovada por nenhuma agência regulatória no mundo. Como todo medicamento experimental, só será submetida à aprovação regulatória após a conclusão e publicação dos resultados dos estudos", explica a Eli Lilly, em nota enviada ao CORREIO.

Uso indiscriminado das canetas emagrecedoras tem preocupado especialistas por Reprodução

“O povo está pegando uma droga que ainda não terminou os estudos de fase 3, que ainda não está definida a segurança e os efeitos colaterais a longo prazo, para usar. Essa droga ainda não pode ser comercializada em larga escala”, enfatiza a médica endocrinologista Mariana Araújo Strauch, do Hospital Português e professora da Faculdade Zarns.

Qualquer medicamento deve passar por quatro etapas da pesquisa clínica. A fase 3 corresponde à etapa de ensaios multicêntricos e envolve milhares de participantes para confirmar a eficácia e a segurança de um remédio ou de uma vacina antes do registro. Qualquer medicamento, antes de ser submetido às agências reguladoras, deve passar pela fase 3. As vacinas da covid-19, por exemplo, foram registradas inicialmente após a aprovação na fase 3. Somente depois disso é que podem chegar à população.

Venda

Numa busca por sites de lojas de suplementos, de empresas farmacêuticas ou mesmo páginas de supostos revendedores em redes sociais, não é difícil encontrar anúncios de retatrutida. É possível escolher até entre mais de uma ‘marca’, seringa ou caneta. 

Os preços localizados pela reportagem vão de R$1,8 mil a R$2,5 mil. No Paraguai, há relatos de que canetas podem ser encontradas por cerca de R$1,3 mil. “Se ela está sendo vendida, é de forma ilegal. E se é de forma ilegal, não temos nenhuma garantia sanitária em relação se o medicamento é verdadeiro ou se tem alguma substância farmacologicamente ativa”, diz a farmacêutica Cristiane Metzler, coordenadora dos cursos de Farmácia e Biomedicina da Unifacs.

“Se a pessoa faz essa compra no mercado clandestino, pode estar adquirindo um produto sem princípio ativo, em subdoses, produtos que não passam pelo controle biológico no controle sanitário, como podem ser produtos manipulados sem controle microbiológico, sem estabilidade química. A gente não sabe o que é que está sendo vendido ali”, acrescenta Cristiane.

Para a médica endocrinologista Mariana Araújo Strauch, essa correria em busca de um medicamento que sequer foi aprovado reforça que a obesidade deve ser tratada como uma doença crônica. O tratamento é para a vida toda, tal qual hipertensão ou diabetes - ou seja, não existe ‘ex-obeso’.

“É a questão do apelo pelo corpo perfeito. A gente sabe que a obesidade infelizmente é uma doença de grandes proporções, tanto questões econômicas quanto comorbidades que vêm junto. O tratamento não é milagre. Medicações são uma peça, mas você tem que estar fazendo muito bem as outras partes”, explica.

Ela admite que há até profissionais de saúde que propagam o uso do medicamento ainda em caráter experimental. “São profissionais que, independente da ciência, querem o financeiro”, pondera.

Os riscos de usar uma substância desconhecida são grandes. “Tem a questão de infecções, tem amostras contaminadas. Tem risco de quadros alérgicos graves, complicações neurológicas, porque a gente não sabe se tem outras drogas, como insulina, misturada”.

Laudos de vigilância sanitária que analisam medicamentos injetáveis piratas costumam apontar que até 30% dos frascos comercializados de forma paralela apresentam subdosagem severa, superdosagem perigosa do princípio ativo ou contaminações biológicas graves por fungos e bactérias devido à ausência total de esterilidade no envase caseiro, de acordo com a médica endocrinologista Mariana Araújo Strauch.

Canetas emagrecedoras proibidas pela Anvisa por Reprodução

Músculos

No Instagram, a reportagem localizou vídeos até de um médico que compartilhava sua experiência usando retatrutida enquanto se preparava para uma maratna. Em um vídeo em que falava sobre três semanas com retatrutida, ele falava sobre rotina de treinos e déficit calórico e dizia ter resultados “excepcionais”. Ele disse ter tido benefícios como perda de peso e redução de circunferência abdominal.

“E o mais importante: não tive queda de rendimento nem na corrida, nem na musculação. Correndo longão, 14, 15, 16 quilômetros, sem queda na performance. Isso reforça uma coisa importante: quando existe estratégia, acompanhamento e ajuste fino, é possível emagrecer mantendo a performance”.

Não é difícil encontrar relatos de usuários que associam a retatrutida a uma perda específica de gordura - ao invés de peso em geral. Para alguns, isso significa que o novo medicamento vai ajudar a manter ou ganhar músculos. No entanto, como destaca a farmacêutica Cristiane Metzler, da Unifacs, mais estudos são necessários para afirmar isso.

“Acredita-se que ela é mais lipofílica em relação aos outros análogos, justamente porque alguns estudos mostraram a redução da gordura corporal e da cintura abdominal, porém, ainda não podemos afirmar com certeza que isso já acontece. Ainda não há uma evidência bem robusta para demonstrar que existe”, enfatiza.

Glucacon

Segundo a própria Lilly, a retatrutida é uma molécula em investigação desenvolvida pela farmacêutica. Ela atua como agonista triplo dos receptores GLP-1, GIP e glucagon. Dessa forma, é um mecanismo distinto da tirzepatida, que atua sobre os receptores GLP-1 e GIP. Enquanto esses dois últimos são hormônios intestinais que estimulam a liberação de insulina e controle de saciedade, o glucagon opera de forma oposta à insulina, liberando glicose para fornecer energia ao corpo. Ele regula a glicemia e pode atuar tanto durante o jejum quanto em exercícios físicos.

“Essa (retatrutida) molécula está sendo estudada por seus potenciais efeitos no metabolismo, no controle de peso e no tratamento de outras doenças", explica a Lilly, à reportagem.

Os resultados preliminares da fase 3, inclusive, foram anunciados pela Lilly no último dia 21. Segundo o laboratório, os indícios do ensaio clínico Triumph-1, que avalia a eficácia e a segurança, indicou que, em 80 semanas, todas as doses de retatrutida (4 mg, 9 mg e 12 mg) atingiram os desfechos primários e secundários principais para obesidade, proporcionando uma perda de peso clinicamente significativa.

Os participantes que usaram as doses 9mg e 12 mg perderam uma média de 29,2kg (25,9%) e 31,9kg (28,3%), respectivamente. Já os que tomaram a dose de 4 mg de retatrutida, com apenas uma etapa de escalonamento, perderam uma média de 21,4kg (19,0%).

Em nota, a Lilly reforçou que a retatrutida está legalmente disponível apenas para participantes dos ensaios clínicos da Lilly. Segundo a farmacêutica, qualquer pessoa que afirme vender retatrutida ao público está agindo de forma ilegal. “A Lilly já denunciou vendedores irregulares a autoridades, e reforça o apelo para que continuem tomando medidas contra essa ameaça urgente à saúde pública. A Lilly continuará tomando medidas contra quem desrespeita a lei e coloca em risco a segurança da população", acrescentam.

Em janeiro, a Anvisa apreendeu e proibiu a comercialização tanto de tirzepatida quanto de retatrutida das marcas Synedica e TG. Na época, a agência informou que se tratavam de produtos irregulares, de origem desconhecida, e que, portanto, não havia garantia sobre seu conteúdo e qualidade. “Não devem ser usados em nenhuma hipótese”, diz o texto divulgado pelo órgão na ocasião.

Hoje, contudo, não é difícil encontrar, retatrutida da Synedica sendo vendida no próprio site da marca. No anúncio, dizem que é com ‘envio internacional a partir de Londres’.

Em nota, a Anvisa reforçou que o uso de medicamentos de origem desconhecida ou sem registro traz riscos desconhecidos que podem ir “desde a ausência do tratamento adequado até situações graves de saúde provocadas pelo uso de substâncias sem controle de qualidade e com possíveis contaminações”.

Segundo a agência, as apreensões de medicamentos acontecem de forma descentralizada e pode ser feita pelas autoridades policiais, Receita, Anvisa, entre outros. “É importante destacar que a comercialização ou oferta de medicamentos não autorizados no Brasil pode ser enquadrada como crime pelo Código Penal”, acrescentam.